PF aponta viagens de Jaques Wagner em aeronaves ligadas a ex-sócio de Daniel Vorcaro; relatório amplia investigação sobre supostas vantagens indevidas

PF aponta viagens de Jaques Wagner em aeronaves ligadas a ex-sócio de Daniel Vorcaro; relatório amplia investigação sobre supostas vantagens indevidas

Mensagens, viagens, contatos pessoais e uso de aeronaves privadas passam a integrar investigação conduzida pela Polícia Federal, enquanto senador nega irregularidades e afirma que provará sua inocência

A investigação conduzida pela Polícia Federal sobre a relação entre integrantes do Banco Master, empresários ligados ao setor financeiro e agentes públicos ganhou novos desdobramentos com a divulgação de documentos autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre os nomes citados aparece o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder histórico do Partido dos Trabalhadores e um dos principais aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os documentos tornados públicos descrevem viagens realizadas entre 2023 e 2024, troca de mensagens, utilização de aeronaves particulares e uma relação de proximidade entre Wagner, sua esposa Maria de Fátima Carneiro de Mendonça e o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo a Polícia Federal, esses episódios integram um conjunto maior de apurações destinadas a verificar se empresários ofereceram benefícios a autoridades públicas em troca de eventual influência política ou institucional.

Até o momento, a investigação permanece em fase de apuração, sem conclusão judicial sobre eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.

A viagem para a chamada “Ilha da Paixão”

Um dos episódios mais detalhados no relatório ocorreu em outubro de 2023.

Conforme os investigadores, Augusto Ferreira Lima convidou Jaques Wagner e sua esposa para passar um fim de semana em uma propriedade conhecida como “Ilha da Paixão”, localizada no litoral baiano.

A PF afirma que mensagens extraídas dos celulares apreendidos mostram o senador comunicando ao empresário que sua esposa teria aceitado o convite.

Dias depois, Augusto enviou informações relativas ao voo, incluindo prefixo da aeronave e horário da viagem.

Os investigadores sustentam que o deslocamento ocorreu em avião pertencente ao empresário ou operado por pilotos vinculados ao grupo empresarial.

Fotografias recuperadas durante a investigação e mensagens trocadas em grupos de WhatsApp teriam confirmado a presença do casal na propriedade durante aquele final de semana.

As mensagens após o encontro

Após o retorno da viagem, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça enviou diversas mensagens de agradecimento ao empresário.

Segundo o relatório policial, ela escreveu frases como:

  • “Obrigada sempre.”
  • “A gente ama vocês.”
  • “Tudo lindo.”

Augusto respondeu manifestando reciprocidade no relacionamento pessoal entre as famílias.

Para a Polícia Federal, essas conversas demonstrariam um vínculo de amizade e proximidade entre os envolvidos.

O relatório, entretanto, não afirma que essas mensagens, isoladamente, constituam prova de prática criminosa.

Outras viagens identificadas

Os investigadores apontam ainda pelo menos outras três ocasiões nas quais Jaques Wagner teria utilizado aeronaves ligadas ao empresário Augusto Lima.

Entre elas:

  • viagem ao Rio de Janeiro em novembro de 2023;
  • novos deslocamentos registrados durante 2024;
  • contatos diretos entre o senador e pilotos ligados ao Banco Master.

Segundo a PF, não foram encontrados documentos que demonstrassem pagamento pelos voos.

Esse aspecto passou a integrar a investigação porque os investigadores buscam verificar se os deslocamentos poderiam configurar vantagens econômicas recebidas por agente público.

O papel de Daniel Vorcaro

Embora Augusto Ferreira Lima apareça como responsável direto pelas aeronaves utilizadas, a investigação também relaciona diversos fatos ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Segundo a Polícia Federal, parte das informações foi encontrada em aparelhos eletrônicos pertencentes ao empresário durante diligências da Operação Compliance Zero.

As investigações procuram esclarecer se empresários ligados ao banco buscavam estabelecer relações privilegiadas com autoridades públicas mediante concessão de benefícios, viagens ou outras facilidades.

A Operação Compliance Zero

O caso integra um conjunto de investigações conhecido como Operação Compliance Zero.

A operação apura possíveis crimes envolvendo:

  • corrupção;
  • tráfico de influência;
  • lavagem de dinheiro;
  • organização criminosa;
  • favorecimento empresarial.

Ao longo das fases da investigação, empresários, operadores financeiros e agentes públicos passaram a ser investigados.

A retirada do sigilo dos documentos pelo ministro André Mendonça ocorreu, segundo despacho divulgado pelo STF, diante do risco de vazamentos seletivos das informações.

O posicionamento de Jaques Wagner

Após a divulgação do relatório, Jaques Wagner negou qualquer irregularidade.

Em entrevistas concedidas à imprensa, afirmou estar tranquilo diante das investigações e declarou possuir convicção de que demonstrará sua inocência.

Segundo o senador, sua prioridade continua sendo a atuação política e o processo eleitoral.

Até o momento, sua defesa não apresentou manifestação detalhada sobre cada um dos episódios descritos pela Polícia Federal.

O entendimento da Polícia Federal

Os investigadores sustentam que o conjunto de mensagens, registros de voos, contatos telefônicos e deslocamentos revela uma relação frequente entre o senador e empresários ligados ao Banco Master.

Para a corporação, a ausência de comprovação de pagamento pelas viagens representa um elemento relevante para continuidade das investigações.

Entretanto, a própria Polícia Federal ressalta que os fatos ainda precisam ser aprofundados para verificar se existiu ou não contrapartida política ou administrativa decorrente desses benefícios.

O que ainda será investigado

Entre os principais pontos que permanecem sob análise estão:

  • a natureza da relação entre Wagner e Augusto Lima;
  • quem efetivamente custeou os voos;
  • eventual utilização de recursos privados para beneficiar agente público;
  • possíveis decisões administrativas ou políticas relacionadas aos empresários investigados;
  • existência de eventual tráfico de influência ou corrupção.

Essas questões deverão ser objeto de novas diligências, perícias e oitivas ao longo da investigação.

Próximos passos

Com a retirada do sigilo de parte dos documentos, o caso entra em uma nova etapa de escrutínio público e jurídico.

A Polícia Federal continua analisando milhares de mensagens, registros telefônicos, movimentações financeiras e documentos apreendidos durante a operação.

Eventuais denúncias dependerão da conclusão das investigações e da análise do Ministério Público, que decidirá se há elementos suficientes para apresentar acusação formal à Justiça.

Até que isso ocorra, os fatos permanecem sob investigação, e não há decisão judicial que atribua responsabilidade criminal definitiva aos envolvidos.

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