PF INTIMA GALÍPOLO, CAMPOS NETO E ANDRÉ ESTEVES PARA DEPOR NO CASO BANCO MASTER

PF INTIMA GALÍPOLO, CAMPOS NETO E ANDRÉ ESTEVES PARA DEPOR NO CASO BANCO MASTER

Presidente e ex-presidente do Banco Central, dono do BTG Pactual e diretor de Fiscalização da autoridade monetária serão ouvidos como testemunhas em investigação que apura possível favorecimento a Daniel Vorcaro e suposto vazamento de informações dentro do BC

A Polícia Federal (PF) determinou a intimação de quatro nomes de grande peso no sistema financeiro brasileiro para prestar depoimento no inquérito que investiga irregularidades envolvendo o Banco Master, instituição que tinha como controlador o empresário Daniel Bueno Vorcaro e que foi liquidada pelo Banco Central.

Entre os convocados estão Gabriel Muricca Galípolo, atual presidente do Banco Central; Roberto de Oliveira Campos Neto, ex-presidente da autoridade monetária; André Santos Esteves, banqueiro e presidente do conselho e sócio sênior do BTG Pactual; e Ailton de Aquino Santos, atual diretor de Fiscalização do Banco Central.

Um ponto fundamental precisa ser destacado: os quatro foram chamados na condição de testemunhas. A convocação, por si só, não significa que sejam investigados ou que a PF tenha concluído que tenham cometido qualquer irregularidade.

Os depoimentos deverão ocorrer por videoconferência. O despacho que determinou as oitivas foi assinado no início de agosto, mas veio a público agora. As datas dos depoimentos não foram divulgadas.

POR QUE A PF QUER OUVIR OS QUATRO?

A investigação busca esclarecer a atuação de dois ex-servidores do Banco Central que são apontados como possíveis integrantes de uma estrutura que teria favorecido os interesses de Daniel Vorcaro dentro da autoridade monetária.

Os nomes são Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, e Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do BC.

Segundo a investigação, os dois teriam fornecido informações relacionadas à fiscalização do Banco Master e atuado em favor dos interesses de Vorcaro.

As defesas dos ex-servidores negam que tenha havido favorecimento ao empresário.

É justamente nesse contexto que a PF pretende ouvir atuais e antigos integrantes da cúpula do Banco Central, além de André Esteves.

GALÍPOLO: O PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL NA FASE FINAL DO MASTER

Gabriel Muricca Galípolo assumiu a presidência do Banco Central em janeiro de 2025, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Economista e professor, Galípolo já havia ocupado posições importantes no governo federal antes de chegar ao comando do BC, incluindo a diretoria de Política Monetária da própria autoridade monetária.

Sua convocação ocorre porque ele estava à frente do Banco Central quando a situação do Banco Master chegou ao estágio final e a instituição acabou sendo liquidada.

A PF quer esclarecer informações relacionadas à fiscalização do banco, aos alertas internos e às decisões tomadas dentro da autoridade monetária.

O depoimento também deverá ajudar os investigadores a reconstruir a cronologia dos acontecimentos envolvendo o Master e os servidores que são alvo da investigação.

CAMPOS NETO: O EX-PRESIDENTE QUE COMANDOU O BC DURANTE O CRESCIMENTO DO MASTER

Também foi intimado Roberto de Oliveira Campos Neto, que presidiu o Banco Central entre 2019 e o fim de 2024.

Campos Neto estava no comando da autoridade monetária durante parte importante do período de crescimento do Banco Master.

Segundo informações que chegaram à investigação, o nome do ex-presidente do BC surgiu em depoimento de Paulo Sérgio Neves de Souza, que relatou acontecimentos envolvendo uma auditoria realizada pelo BTG Pactual no Banco Master.

A defesa de Campos Neto afirmou que ele sequer havia sido intimado e criticou o vazamento para a imprensa. Os advogados Pedro Ivo Velloso e Francisco Agosti disseram que, sem acesso ao documento, não poderiam confirmar a existência, autenticidade ou conteúdo do despacho mencionado.

A REVELAÇÃO SOBRE OS R$ 32 BILHÕES

Um dos pontos mais relevantes para a convocação de Campos Neto envolve uma informação atribuída ao ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves.

Em depoimento à Polícia Federal, Neves afirmou que o BTG Pactual teria identificado uma fraude estimada em R$ 32 bilhões no Banco Master durante uma due diligence realizada em 2024.

Uma due diligence é uma investigação detalhada realizada antes de uma operação empresarial, normalmente para verificar riscos, ativos, passivos, contratos, situação financeira e possíveis problemas jurídicos ou contábeis.

Segundo o relato levado à PF, Campos Neto teria participado de uma reunião relacionada ao assunto. A informação agora deverá ser confrontada pelos investigadores com documentos, registros e demais depoimentos.

É importante, novamente, separar as coisas: o valor de R$ 32 bilhões aparece como informação relatada à PF, e não como conclusão definitiva de que esse montante corresponda a uma fraude comprovada judicialmente.

ANDRÉ ESTEVES TAMBÉM SERÁ OUVIDO

Outro nome de grande relevância chamado pela PF é André Santos Esteves, banqueiro e um dos principais executivos do BTG Pactual.

A convocação de Esteves está relacionada justamente às informações sobre a atuação do banco na análise do Banco Master.

Segundo o depoimento de Paulo Sérgio Neves, o BTG teria realizado uma due diligence no Master em 2024 e identificado uma fraude de aproximadamente R$ 32 bilhões.

A PF pretende ouvir diretamente Esteves para esclarecer o que o BTG identificou, qual foi a extensão da análise, quais informações chegaram ao banco e que contatos ocorreram com o Banco Central.

O BTG Pactual informou que não iria se manifestar sobre a convocação.

O BTG QUERIA COMPRAR O BANCO MASTER?

Essa é outra questão que aparece no pano de fundo da investigação.

As informações levadas à PF mencionam uma análise realizada pelo BTG, mas o banco nega que tivesse interesse na aquisição do Banco Master propriamente dito.

Segundo informações divulgadas sobre o caso, o BTG afirma que realizou operações envolvendo a aquisição pontual de determinados ativos, e não uma negociação para assumir integralmente o Banco Master.

A diferença é importante.

Uma coisa é uma instituição financeira avaliar ativos específicos de outro banco.

Outra, completamente diferente, seria realizar uma due diligence para uma eventual aquisição do controle da instituição.

A PF pretende esclarecer exatamente o que ocorreu.

AILTON DE AQUINO TAMBÉM FOI INTIMADO

Além de Galípolo, Campos Neto e Esteves, a PF intimou Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do Banco Central.

Aquino ocupa uma posição estratégica porque sua área está diretamente relacionada à fiscalização das instituições financeiras.

Informações apresentadas na investigação apontam que Aquino teria relatado pressões ou movimentações internas relacionadas à defesa de interesses do Banco Master.

Entre os episódios citados está uma questão envolvendo a Mastercard, além de um pedido feito pelo BTG Pactual, em outubro de 2025, relacionado a uma chamada “carta de conforto” para a aquisição de ativos.

O depoimento de Aquino deverá ajudar a esclarecer como as decisões foram tomadas dentro do Banco Central e qual era o ambiente institucional existente durante o agravamento da situação do Master.

OS DOIS EX-SERVIDORES NO CENTRO DA APURAÇÃO

No centro do inquérito estão Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana.

Neves ocupava o cargo de diretor de Fiscalização do Banco Central, enquanto Belline Santana era chefe de Supervisão Bancária.

A PF investiga a suspeita de que ambos tenham atuado em favor dos interesses de Daniel Vorcaro e fornecido informações privilegiadas relacionadas à fiscalização do Banco Master.

As defesas dos dois servidores negam as acusações.

A investigação procura determinar se houve efetivamente favorecimento, quais informações teriam sido compartilhadas, quem recebeu esses dados e se houve eventual vantagem indevida.

DANIEL VORCARO NO CENTRO DO CASO

Daniel Bueno Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, é uma das figuras centrais da investigação.

O empresário foi preso preventivamente no contexto das apurações envolvendo o banco.

O caso envolve suspeitas de fraudes financeiras e possíveis irregularidades na estrutura do Master, além de investigações sobre relações entre o empresário e agentes públicos e privados.

A PF também examina materiais apreendidos e informações extraídas de dispositivos relacionados ao banqueiro.

Por isso, cada depoimento pode ajudar a reconstruir a rede de relações que existia em torno do Banco Master.

A LIQUIDAÇÃO DO BANCO MASTER

O Banco Master acabou sendo liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.

A intervenção ocorreu depois do agravamento da situação financeira da instituição e de uma série de problemas que passaram a ser examinados pelas autoridades.

Segundo informações divulgadas no âmbito da investigação, o Banco Central identificou um rombo de aproximadamente R$ 47,3 bilhões no conglomerado Master.

O número ajuda a dimensionar a importância do caso para o sistema financeiro.

A investigação, entretanto, precisa separar o que representa prejuízo efetivo, ativos problemáticos, operações fraudulentas e demais componentes da situação financeira do conglomerado.

DO R$ 32 BILHÕES AO R$ 47,3 BILHÕES

Dois números aparecem com destaque no caso e não devem ser confundidos.

O primeiro é R$ 32 bilhões, valor que Paulo Sérgio Neves afirmou ter sido identificado pelo BTG Pactual durante uma due diligence no Master em 2024.

O segundo é R$ 47,3 bilhões, cifra associada ao rombo identificado pelo Banco Central no momento em que o conglomerado foi liquidado.

São números relacionados a momentos e contextos diferentes.

A investigação terá de determinar como esses valores se relacionam e o que exatamente representava cada montante.

O CASO GANHA DIMENSÃO INSTITUCIONAL

A convocação ocorre em um momento de enorme tensão institucional envolvendo o Banco Master, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal.

O caso também está no centro de uma crise entre ministros do STF, especialmente André Luiz de Almeida Mendonça e Alexandre de Moraes.

Mendonça determinou recentemente o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, em uma decisão relacionada a relatórios internos e às investigações envolvendo o caso Master.

Posteriormente, Flávio Dino determinou a reinstalação de Andrei Rodrigues e Almada.

O presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as decisões conflitantes e manteve provisoriamente Andrei no comando da Polícia Federal.

Assim, o mesmo caso financeiro passou a produzir consequências dentro das principais instituições da República.

O QUE A PF QUER DESCOBRIR

Os depoimentos poderão ajudar a responder perguntas fundamentais:

  • Como o Banco Central fiscalizou o Banco Master?
  • Quando os primeiros sinais de problemas apareceram?
  • Que informações foram compartilhadas entre servidores e Daniel Vorcaro?
  • O BTG Pactual identificou de fato problemas da ordem de R$ 32 bilhões em 2024?
  • O que foi discutido em reuniões com Roberto Campos Neto?
  • Qual foi a participação institucional de Gabriel Galípolo na fase final do Master?
  • O que Ailton de Aquino sabe sobre as pressões internas?
  • Qual foi exatamente o papel de Paulo Sérgio Neves e Belline Santana?
  • Quais relações existiam entre Daniel Vorcaro, o Banco Central e instituições financeiras privadas?

São respostas que precisarão ser confrontadas com documentos e outros depoimentos.

TESTEMUNHAS NÃO SÃO ACUSADOS

A convocação dos quatro nomes de maior projeção pública precisa ser interpretada corretamente.

Gabriel Galípolo não foi intimado como investigado. Roberto Campos Neto não foi intimado como investigado. André Esteves não foi intimado como investigado. Ailton de Aquino também foi chamado como testemunha.

O objetivo, neste momento, é colher informações que possam contribuir para a investigação sobre a atuação de servidores do Banco Central e as relações deles com o Banco Master.

Isso não impede que os depoimentos sejam relevantes.

Pelo contrário.

Quando pessoas que ocuparam ou ocupam posições estratégicas no Banco Central são chamadas a explicar fatos relacionados a uma instituição financeira que movimentou bilhões de reais, seus relatos podem ser decisivos para reconstruir a cronologia do caso.

UM CASO QUE AINDA ESTÁ LONGE DO FIM

A investigação sobre o Banco Master deixou de ser apenas uma apuração sobre a situação financeira de um banco.

Ela passou a envolver Banco Central, Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, empresários, banqueiros, servidores públicos e bilhões de reais.

A convocação de Gabriel Galípolo, Roberto Campos Neto, André Esteves e Ailton de Aquino acrescenta novos personagens a uma investigação que já alcançou diferentes níveis do sistema financeiro e institucional brasileiro.

Agora, a PF terá a oportunidade de ouvir diretamente pessoas que estavam em posições estratégicas durante diferentes momentos da trajetória do Banco Master.

Os depoimentos não significam condenação nem imputação de crime aos convocados.

Mas podem ajudar a responder uma pergunta central: como um banco que acabou liquidado com um rombo estimado em R$ 47,3 bilhões conseguiu chegar a esse ponto e quais sinais foram percebidos — ou eventualmente ignorados — ao longo do caminho?

Essa é a resposta que a investigação precisa encontrar.

E, diante dos valores envolvidos, das suspeitas sobre servidores do Banco Central e da dimensão institucional que o caso assumiu, o esclarecimento completo dos fatos interessa não apenas às autoridades, mas a todo o sistema financeiro brasileiro.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags