
Relógio de R$ 66 mil, joias e festa: presentes de lobista a assessores de Lula entram no foco das investigações
Mensagens atribuídas à lobista Roberta Luchsinger apontam presentes a Swedenberger Barbosa e à secretária pessoal de Lula, Cláudia Troiano; relações da lobista com integrantes do governo e com Fábio Luís Lula da Silva são investigadas pela Polícia Federal.
Resumo: Reportagens do Metrópoles, R7 e BNews revelaram novos detalhes sobre a relação de Roberta Luchsinger com integrantes do entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo as mensagens obtidas pelo Metrópoles, a lobista teria dado a Swedenberger Barbosa um relógio Cartier de R$ 66 mil, uma obra de arte avaliada em R$ 82,9 mil, ingressos para shows e ainda custeado uma festa de aniversário. As conversas também indicariam presentes para Cláudia Troiano, secretária pessoal de Lula. Luchsinger é investigada pela Polícia Federal e aparece em apurações relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e ao caso envolvendo descontos indevidos no INSS.
Relógio de R$ 66 mil para assessor de Lula
O caso que ganhou maior repercussão envolve Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, que ocupou cargos de destaque no Ministério da Saúde e atua como assessor direto do presidente Lula.
Segundo as mensagens divulgadas pelo Metrópoles e reproduzidas pelo R7, Roberta Luchsinger comprou em 29 de abril de 2024 um relógio Cartier Tank de ouro pelo valor de R$ 66 mil.
Nas conversas, a lobista teria chamado o relógio de “mimo” destinado a Swedenberger Barbosa. No dia seguinte, ela informou que iria a Brasília para entregar o presente e combinou um encontro com o assessor.
O episódio chama atenção porque o presente de alto valor foi destinado a uma pessoa que ocupava posição dentro da estrutura do governo federal, enquanto Luchsinger atuava como lobista e mantinha relações com pessoas ligadas ao poder público.
Isso, por si só, não demonstra corrupção ou pagamento por uma vantagem indevida. A questão que permanece é qual era a natureza da relação entre a lobista e o assessor e se os presentes estavam relacionados a alguma atividade profissional ou atuação perante órgãos públicos.
Quadro avaliado em R$ 82,9 mil
O relógio não teria sido o único presente de elevado valor.
Em dezembro de 2024, segundo as mensagens divulgadas pelo Metrópoles, Luchsinger presenteou Swedenberger com um quadro do artista Antonio Veronese.
A obra teria sido adquirida por 13 mil euros, equivalente a aproximadamente R$ 82,9 mil na cotação da época. Nas mensagens, Berger enviou uma fotografia do quadro a Luchsinger e ela respondeu tratando a obra como uma lembrança destinada a ele e à família.
Somados apenas o relógio e o quadro, os valores mencionados nas reportagens chegam a aproximadamente R$ 148,9 mil, sem considerar os demais benefícios relatados.
Festa de aniversário também teria sido bancada pela lobista
Outro episódio descrito nas mensagens envolve o aniversário de 67 anos de Swedenberger Barbosa.
A comemoração ocorreu em 9 de novembro de 2024, em um camarote do estádio Mané Garrincha, em Brasília, durante um show de Caetano Veloso e Maria Bethânia.
De acordo com as conversas divulgadas pelo Metrópoles, Roberta Luchsinger participou diretamente da organização e do pagamento da festa, tratando de comida, bebidas e até do bolo com o tema do Flamengo, time de Barbosa.
Depois da comemoração, Swedenberger agradeceu a Luchsinger pela festa. Nas mensagens, também aparecem referências a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e ao empresário Cleber Ribas.
Um detalhe que aumenta a necessidade de esclarecimento é que, segundo a reportagem, o camarote utilizado na comemoração pertence à empresa 3Structure. A coluna informou que empresas ligadas ao grupo conquistaram contratos públicos durante o governo Lula que somariam R$ 86 milhões. A existência desses contratos não demonstra, por si só, relação entre eles e os presentes ou a festa.
Ingressos para Paul McCartney
As mensagens também apontam para outro benefício oferecido a Swedenberger Barbosa e familiares.
Em novembro de 2023, Roberta Luchsinger ofereceu ingressos de camarote para um show de Paul McCartney em Brasília. Barbosa informou os dados dele, da mulher, do filho e da nora para receber as credenciais.
O episódio ocorreu quando Barbosa era secretário-executivo do Ministério da Saúde.
Joias para a secretária pessoal de Lula
As mensagens também citam Cláudia Troiano, secretária pessoal do presidente Lula.
Segundo o Metrópoles e o R7, Luchsinger mantinha contato frequente com Troiano e teria oferecido roupas, ingressos para shows e uma peça de joalheria.
Em uma conversa com uma ourives, Luchsinger teria explicado que precisava comprar presentes para pessoas próximas. Entre elas estava “Claudinha”, identificada como Cláudia Troiano, além da esposa de Swedenberger Barbosa.
Em outra mensagem, Luchsinger afirmou que Cláudia “faz muita coisa pra mim, faz muito favor pra mim”, ao discutir a escolha de um presente.
As mensagens, entretanto, não estabelecem que qualquer desses presentes tenha sido dado em troca de uma decisão administrativa.
Quem é Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger é apresentada nas reportagens como lobista e como pessoa próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O R7 afirma que Luchsinger é sócia de Lulinha, enquanto o UOL registra que ela o apresentava como sócio em contatos com terceiros, mas ressalva que os dois não possuem empresa formal conjunta.
As relações envolvendo Luchsinger, Lulinha e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, são alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal.
Segundo o UOL, um dos inquéritos apura suspeitas de tráfico de influência no Ministério da Saúde envolvendo a venda de medicamentos à base de canabidiol.
A relação com Lula
O caso ganhou uma dimensão política adicional porque Lula afirmou publicamente que não conhece Roberta Luchsinger.
Em entrevista à TV Globo, em 27 de agosto, o presidente declarou: “Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim”.
O presidente também chamou a lobista de “pilantra”.
As reportagens posteriores, contudo, apresentaram mensagens atribuídas a Luchsinger nas quais ela se referia a Lula como “pai do Fábio” e mencionava supostos acessos ao Palácio do Planalto e à residência presidencial.
Em março de 2023, por exemplo, ela escreveu à mãe que havia viajado para Brasília no chamado “aero Lula”. Registros oficiais também indicariam sua entrada no Palácio do Planalto dois dias antes.
Essas informações não comprovam que Lula tenha recebido presentes, autorizado qualquer irregularidade ou participado das relações descritas nas mensagens.
O ponto mais delicado: proximidade com o poder público
A principal questão levantada pelo conjunto das reportagens não é apenas o valor dos presentes, mas a posição das pessoas que os receberam.
Swedenberger Barbosa ocupava posição de destaque no Ministério da Saúde e posteriormente passou a atuar como assessor direto de Lula. Cláudia Troiano é secretária pessoal do presidente.
Do outro lado está uma lobista que, segundo as próprias reportagens, mantinha relações com empresários, integrantes do governo e pessoas próximas à família presidencial.
Por isso, a investigação precisa esclarecer se os presentes eram exclusivamente manifestações pessoais de amizade ou se poderiam estar relacionados a interesses profissionais de Luchsinger junto ao governo.
A existência de presentes ou relações pessoais não constitui automaticamente crime. Para caracterizar eventual ilícito, seria necessário demonstrar elementos adicionais, como contrapartida, vantagem indevida, favorecimento ou violação das regras aplicáveis aos agentes públicos.
O que precisa ser esclarecido
O caso deixa algumas perguntas objetivas:
- Qual era exatamente a relação profissional entre Roberta Luchsinger e Swedenberger Barbosa?
- Por que um assessor ligado ao governo recebeu um relógio de R$ 66 mil?
- Quem pagou integralmente o quadro de R$ 82,9 mil e em que circunstâncias ele foi entregue?
- Qual foi o custo total da festa de aniversário de Barbosa?
- Houve participação de empresas que mantinham contratos com o governo?
- Qual era a relação de Luchsinger com Cláudia Troiano?
- Quais presentes foram efetivamente entregues à secretária pessoal de Lula?
- Houve alguma atuação de Barbosa ou Troiano em assuntos de interesse da lobista?
- O que as investigações da Polícia Federal já conseguiram confirmar sobre essas relações?
- Há documentos, registros administrativos ou depoimentos que indiquem contrapartida pelos presentes?
Essas respostas são importantes para separar relações pessoais legítimas de eventual conflito de interesses ou irregularidade administrativa.
Partes envolvidas
Roberta Luchsinger: lobista citada nas mensagens e investigada pela Polícia Federal em apurações relacionadas às suas relações com integrantes do governo e com pessoas próximas a Lulinha.
Swedenberger Barbosa: assessor de Lula e ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, apontado nas mensagens como destinatário de relógio, obra de arte, ingressos e de uma festa de aniversário.
Cláudia Troiano: secretária pessoal de Lula, citada nas conversas como pessoa próxima de Luchsinger e destinatária de presentes.
Luiz Inácio Lula da Silva: presidente da República, que afirma não conhecer Luchsinger e nega proximidade com ela.
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha: filho mais velho de Lula, citado nas investigações e nas mensagens atribuídas a Luchsinger.
Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS: personagem relacionado às investigações que também envolvem Luchsinger e Lulinha.
Cleber Ribas: empresário citado nas mensagens relacionadas à festa de aniversário de Swedenberger Barbosa e ligado à empresa responsável pelo camarote utilizado na comemoração.
Polícia Federal: responsável pelas investigações que envolvem as relações de Luchsinger com integrantes do governo e pessoas próximas à família presidencial.
O caso ainda está em investigação
O conjunto de mensagens divulgado nesta quinta-feira acrescenta novos elementos à investigação sobre as relações de Roberta Luchsinger com pessoas próximas ao governo Lula.
Os valores mencionados são expressivos: R$ 66 mil por um relógio Cartier, R$ 82,9 mil por uma obra de arte, além de ingressos, joias e uma festa de aniversário.
Mas o ponto juridicamente relevante não é apenas o valor dos presentes. É necessário descobrir por que foram dados, qual era a relação entre as partes e se houve alguma contrapartida relacionada à atuação de Luchsinger como lobista.
Até que essas questões sejam esclarecidas pelas investigações e pelos envolvidos, os presentes e as mensagens devem ser tratados como elementos de apuração, e não como prova definitiva de corrupção ou de participação de Lula nos fatos.
Meta descrição: Mensagens atribuídas a Roberta Luchsinger apontam relógio de R$ 66 mil, quadro, joias, ingressos e festa para assessores ligados a Lula.