
Tarcísio cobra recursos do governo Lula e acusa União de travar financiamentos para São Paulo; Haddad rebate com R$ 108 bilhões em abatimentos da dívida
O primeiro debate entre os candidatos ao governo de São Paulo, realizado pela Band na noite deste domingo (9), expôs uma das principais linhas de confronto que devem marcar a eleição estadual: a relação financeira entre o Palácio dos Bandeirantes e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De um lado, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, procurou apresentar São Paulo como um Estado que, apesar de possuir projetos de infraestrutura de grande porte, enfrenta obstáculos para obter autorização e liberação de operações de crédito que dependem da União. Do outro, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) tentou desmontar a narrativa de falta de apoio federal, afirmando que a administração paulista recebeu benefícios financeiros expressivos de Brasília e, segundo ele, não reconhece publicamente essa participação.
O embate ocorreu em um momento particularmente favorável a Tarcísio nas pesquisas. Levantamento Ideia/ACSP divulgado nesta segunda-feira (10) aponta o governador com 51% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34% de Haddad. A vantagem de 17 pontos percentuais coloca Tarcísio em uma posição que, dependendo da margem de erro e da distribuição dos demais votos, o aproxima de uma eventual vitória já na primeira rodada.
Tarcísio coloca financiamentos no centro da crítica
Durante o debate, Tarcísio reagiu à acusação de Haddad de que sua gestão não mantém uma relação suficientemente cooperativa com municípios e com o governo federal. O governador deslocou a discussão para projetos de infraestrutura que, segundo ele, dependem de aval da União.
Tarcísio questionou por que operações de financiamento com instituições internacionais, como o Banco Europeu e o Banco Mundial, ainda não teriam avançado para a etapa de análise e autorização do Senado. Também citou um financiamento com o Banco do Brasil destinado à extensão da Linha 5-Lilás do Metrô até o Jardim Ângela e recursos relacionados à duplicação da ligação entre Caraguatatuba e Ubatuba.
A crítica do governador se baseou justamente na estrutura burocrática das operações de crédito estaduais com garantia da União. Essas operações passam por análise federal e, nos casos previstos na legislação, precisam posteriormente de autorização do Senado. Assim, a cobrança de Tarcísio tem como fundamento uma questão institucional concreta: projetos estaduais que dependem de garantias ou autorizações federais não podem avançar integralmente apenas por decisão do governo paulista.
O governador utilizou esse argumento para contestar a afirmação de Haddad de que Brasília estaria mantendo uma relação estritamente republicana com São Paulo.
“Por que o financiamento com o banco europeu e com o Banco Mundial estão travados na Casa Civil e não foram enviados para o Senado?”, questionou Tarcísio. Em seguida, acrescentou a cobrança sobre o financiamento do Banco do Brasil para a Linha 5-Lilás e para a duplicação da estrada entre Caraguatatuba e Ubatuba.
A estratégia de Tarcísio foi clara: apresentar a relação com Brasília não como uma disputa ideológica, mas como uma questão prática de execução de investimentos. Na narrativa do governador, o Estado possui projetos estruturantes e capacidade de pagamento, mas encontra obstáculos quando precisa da participação da União.
Haddad responde com a dívida paulista
Haddad, entretanto, apresentou uma versão diferente da relação financeira entre São Paulo e o governo federal.
O petista afirmou que Tarcísio estaria ignorando o volume de benefícios obtidos pelo Estado durante seu mandato. Como principal exemplo, citou o acordo relacionado à dívida paulista e afirmou que São Paulo recebeu R$ 108 bilhões em abatimentos no serviço da dívida.
“Você recebeu R$ 108 bilhões de abatimento de serviço da dívida. Nenhum governador do Brasil recebeu isso”, afirmou Haddad.
A resposta procurou deslocar o debate dos financiamentos ainda em tramitação para uma operação financeira já negociada entre União e Estado. O argumento de Haddad é que, se o governo federal fosse deliberadamente contrário aos interesses de São Paulo, não teria concedido um benefício dessa magnitude.
Tarcísio, porém, contestou a forma como Haddad caracterizou o acordo e criticou o custo financeiro das dívidas estaduais. “A coisa mais horrível que tem são os valores cobrados acima da dívida”, respondeu.
O confronto revela duas maneiras distintas de interpretar a relação entre São Paulo e Brasília. Tarcísio enfatiza aquilo que considera recursos e financiamentos que ainda não chegaram ao Estado. Haddad destaca aquilo que considera benefícios financeiros já concedidos pela União.
A disputa pela narrativa sobre a cooperação federal
Haddad também acusou Tarcísio de não reconhecer adequadamente a participação do governo federal em políticas destinadas ao Estado.
Um dos exemplos citados foi a Favela do Moinho, na região central da capital paulista. O candidato petista afirmou que o governador teria deixado de mencionar a participação da União no projeto de reassentamento das famílias.
O caso, porém, mostra uma relação mais complexa do que uma simples ausência de cooperação.
Em junho de 2025, o Ministério das Cidades estabeleceu procedimentos para atendimento habitacional das famílias da Favela do Moinho dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, utilizando recursos do Fundo de Arrendamento Residencial.
Posteriormente, União e governo paulista avançaram na transferência das famílias e na destinação da área. Em julho de 2026, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação de São Paulo informou ter concluído a cessão não onerosa do terreno de 61,3 mil metros quadrados, que pertencia à União, para o governo estadual. No local, a administração paulista pretende implantar o Parque do Moinho.
O episódio reforça a existência de uma cooperação institucional entre os dois governos, mesmo em um ambiente de forte rivalidade política. O governo federal participa da política habitacional, enquanto o Estado conduz parte importante da execução e da reorganização urbana da área.
Tarcísio tenta transformar a relação com Lula em questão eleitoral
Ao insistir nos financiamentos, Tarcísio procura construir uma narrativa política de independência em relação ao governo Lula. A mensagem é a de que São Paulo não estaria pedindo recursos discricionários à União, mas buscando autorização para operações destinadas a obras específicas de infraestrutura.
Essa distinção é importante politicamente.
Financiamentos internacionais e operações de crédito com garantia da União possuem procedimentos próprios e não equivalem a uma simples transferência de dinheiro do governo federal para o Estado. Há análise técnica, avaliação da capacidade de pagamento e, em determinados casos, necessidade de autorização legislativa.
Por isso, a afirmação de Tarcísio de que determinados financiamentos estariam “travados” precisa ser entendida dentro desse processo institucional. O ponto central de sua crítica é que a demora em etapas sob responsabilidade federal poderia retardar investimentos planejados pelo governo paulista.
Haddad, por sua vez, tenta mostrar que a relação entre os governos não pode ser reduzida a obstáculos. Ao citar os R$ 108 bilhões relacionados ao serviço da dívida e a participação federal no reassentamento da Favela do Moinho, o petista procura demonstrar que a União já destinou benefícios e recursos relevantes a São Paulo.
Uma eleição marcada pela polarização
O confronto entre os dois candidatos ocorre em uma disputa que, segundo os levantamentos recentes, tem se concentrado fortemente nos nomes de Tarcísio e Haddad.
A pesquisa Ideia divulgada nesta segunda-feira mostra Tarcísio com 51% e Haddad com 34% no cenário estimulado de primeiro turno. Outros candidatos aparecem em patamares inferiores, segundo os resultados divulgados.
Nesse cenário, o debate da Band ganhou importância porque permitiu aos dois principais candidatos testar argumentos diretamente diante do eleitorado.
Tarcísio escolheu a relação financeira com Brasília como uma das principais armas para defender sua administração. Sua crítica ao governo Lula se concentra na alegação de que projetos importantes para São Paulo aguardam providências em órgãos federais antes de chegar ao Senado.
Haddad respondeu tentando inverter a acusação: em vez de um Estado prejudicado por Brasília, apresentou São Paulo como beneficiário de medidas federais e acusou o governador de não reconhecer a cooperação existente.
O embate, portanto, não se resumiu a uma discussão sobre números. Por trás dos R$ 108 bilhões mencionados por Haddad, dos financiamentos citados por Tarcísio e do projeto habitacional da Favela do Moinho está uma disputa maior pela definição de quem ajuda, quem impede e quem deve receber o crédito político pelas obras e investimentos realizados em São Paulo.
Para Tarcísio, o problema está nos projetos que ainda dependem de Brasília. Para Haddad, o problema está no reconhecimento dos recursos e benefícios que, segundo ele, já chegaram ao Estado. É justamente nessa diferença de interpretação que a disputa entre os dois candidatos deverá continuar avançando durante a campanha.