Influenciadora passa dedos em sorvete, devolve à atendente e vira alvo de investigação em Blumenau

Influenciadora passa dedos em sorvete, devolve à atendente e vira alvo de investigação em Blumenau

Vídeo gravado em drive-thru mostra mulher manipulando o alimento antes de devolvê-lo à funcionária; atendente afirma ter sido exposta sem autorização e registra ocorrência. Polícia Civil apura possível crime de injúria

Um vídeo publicado nas redes sociais por uma influenciadora digital provocou indignação em Blumenau, no Vale do Itajaí, e acabou levando o caso à Polícia Civil de Santa Catarina. Nas imagens, a mulher aparece em um veículo durante atendimento em um drive-thru de uma unidade do McDonald’s, pega uma casquinha de sorvete entregue por uma funcionária, passa os dedos no alimento, leva as mãos à boca e, em seguida, devolve o produto à atendente.

A trabalhadora aparece uniformizada e com o rosto identificável durante a gravação. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, ela não teria autorizado a utilização de sua imagem.

A situação ganhou grande repercussão nas redes sociais depois que o vídeo foi publicado. Usuários criticaram a atitude da influenciadora, principalmente pela exposição da funcionária durante o expediente e pelo modo como o episódio foi transformado em conteúdo para internet.

O perfil da influenciadora, que reunia mais de 500 mil seguidores, chegou a ser colocado em modo privado após a repercussão.

Vídeo provoca reação nas redes

A gravação teria sido feita à noite. No momento do atendimento, a funcionária entrega a casquinha pela janela do drive-thru. A influenciadora, que estava dentro do veículo, manipula o sorvete com os dedos, leva as mãos à boca e depois devolve o alimento para a trabalhadora.

O episódio foi apresentado inicialmente como uma brincadeira. A reação de parte do público, porém, foi de reprovação.

Entre os comentários publicados nas redes sociais, internautas questionaram a exposição da funcionária e criticaram o fato de ela estar trabalhando enquanto era filmada sem autorização.

Uma das críticas destacou a diferença entre quem produz o conteúdo e quem aparece nele: a trabalhadora estaria cumprindo sua jornada de trabalho e teria sido colocada involuntariamente no centro de uma situação constrangedora.

Outro comentário classificou a atitude como desrespeitosa e questionou a necessidade de produzir esse tipo de conteúdo.

Influenciadora responde às críticas

Diante da repercussão, a autora do vídeo respondeu aos comentários e demonstrou irritação com as críticas.

Em uma das manifestações, chamou as reações de “mimimi” e afirmou que não entendia a repercussão negativa provocada pela gravação.

“Você não pode fazer uma brincadeira que está humilhando a pessoa. Pelo amor de Deus. O que que é isso? Cheio de ‘mimimi’, crítica, por uma brincadeira.”

Em outra manifestação, a influenciadora afirmou que considera exageradas as acusações de humilhação e disse sentir falta de uma época em que, segundo ela, as pessoas tinham maior liberdade para brincar e expressar opiniões.

“Vamos parar de mimimi, tudo é humilhação, tudo é isso aquilo.”

A repercussão, entretanto, continuou crescendo, e posteriormente o perfil da influenciadora foi fechado ou colocado em modo privado.

Funcionária registra Boletim de Ocorrência

A trabalhadora que aparece no vídeo procurou as autoridades e registrou um Boletim de Ocorrência (BO) contra a influenciadora.

De acordo com o delegado Ronnie Esteves, da 1ª Delegacia de Polícia de Blumenau, a Polícia Civil instaurou um procedimento por meio de Termo Circunstanciado para apurar os fatos.

A investigação inicial considera a possibilidade de ocorrência de injúria.

O procedimento deverá avaliar as circunstâncias da gravação, o conteúdo divulgado e a forma como a funcionária foi exposta na publicação.

Debate sobre exposição e uso de imagem

Além da possível questão criminal, o episódio levantou um debate sobre o uso da imagem de trabalhadores em conteúdos publicados nas redes sociais.

O fato de uma pessoa estar em um estabelecimento aberto ao público não significa, automaticamente, que sua imagem possa ser utilizada de qualquer maneira em uma publicação destinada à internet. A situação pode ganhar relevância jurídica especialmente quando a exposição é associada a constrangimento, ridicularização ou prejuízo à honra da pessoa filmada.

Neste caso, a funcionária aparece diretamente envolvida na situação e, conforme os relatos divulgados, não teria sido consultada sobre a gravação ou sobre a publicação do material.

A avaliação jurídica definitiva, contudo, depende da análise das circunstâncias concretas pelas autoridades competentes.

Empresária manifesta apoio à atendente

A repercussão também levou uma empresária de Blumenau a publicar uma manifestação de solidariedade à funcionária.

Em uma mensagem divulgada nas redes sociais, ela afirmou que nenhuma pessoa deveria ser constrangida durante o trabalho e criticou a transformação da humilhação de trabalhadores em entretenimento.

A empresária também fez questão de dizer que a atitude registrada no vídeo não representaria a cidade.

“Blumenau é uma cidade de todos.”

Segundo ela, pessoas que vivem e trabalham no município devem ser tratadas com respeito, independentemente de profissão, origem, raça, cor ou condição financeira.

A empresária também ofereceu à atendente um dia de cuidados em seu estabelecimento. O gesto, segundo ela, seria realizado sem exposição pública da trabalhadora.

Ela afirmou que não divulgaria fotografias nem a identidade da funcionária e pediu que ela entrasse em contato para receber o acolhimento oferecido.

Crítica ao caráter da “brincadeira”

A empresária também questionou o aspecto social da situação. Para ela, existe uma diferença entre brincar com alguém que possui condições de reagir e transformar em alvo uma pessoa que está trabalhando e precisa continuar atendendo ao público.

Na avaliação apresentada por ela, o episódio envolveu não apenas o desperdício de alimento, mas também a exposição de uma trabalhadora que estava em uma posição profissional na qual precisava permanecer diante da câmera.

A empresária afirmou ainda acreditar que esse tipo de comportamento dificilmente seria dirigido a pessoas em posições sociais ou econômicas semelhantes às da autora do vídeo.

McDonald’s ainda não se manifestou

Até as informações divulgadas nas reportagens sobre o caso, a rede McDonald’s e a funcionária exposta não haviam apresentado manifestação pública detalhada sobre o episódio.

A Polícia Civil, por sua vez, já instaurou o procedimento para verificar os fatos relatados.

O caso permanece sob apuração, e a investigação deverá determinar se houve crime e quais responsabilidades poderão ser atribuídas à autora da gravação.

O episódio também reacendeu uma discussão recorrente nas redes sociais: até onde vai o direito de produzir conteúdo e onde começa o direito de outra pessoa à honra, à imagem e à dignidade — especialmente quando essa pessoa está simplesmente trabalhando.

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