
Xuxa transforma despedida em celebração da memória e leva “baixinhos crescidos” a uma viagem por quatro décadas de carreira
Em seu primeiro show da turnê “O Último Voo da Nave”, apresentadora revisita sucessos, reencontra paquitas, homenageia diferentes fases da trajetória e usa o palco para defender inclusão, proteção às crianças, respeito às diferenças e preservação dos animais
A nave rosa voltou a voar — e, desta vez, carregava consigo décadas de memória afetiva. Na noite deste sábado, 25 de julho, Xuxa Meneghel estreou a turnê “O Último Voo da Nave” no Nubank Parque, em São Paulo, diante de uma plateia formada majoritariamente por adultos que cresceram acompanhando a apresentadora na televisão e que, por algumas horas, puderam reencontrar personagens, músicas, coreografias e símbolos que marcaram gerações.
Logo nos primeiros minutos do espetáculo, Xuxa se dirigiu ao público em tom emocionado. A apresentadora agradeceu a energia e o carinho dos fãs e afirmou que a relação construída ao longo de décadas é parte fundamental da sua trajetória.
“A energia, o carinho, o respeito de vocês por mim me faz uma estrela. Não acho bacana alguém se chamar de estrela, mas o brilho de vocês bate em mim e olha o que acontece”, declarou, sendo recebida por aplausos e gritos da plateia.
A abertura do show foi marcada justamente pelo elemento mais emblemático de sua carreira: a nave espacial. Rosa e imponente, a estrutura sobrevoou boa parte da extensão do estádio antes de se acomodar no alto do palco, diante de um enorme conjunto de telões.
Foi de dentro da nave que Xuxa surgiu para iniciar a apresentação com “Doce Mel”, uma das músicas mais associadas à sua trajetória. Enquanto a artista cantava, imagens de arquivo de seus antigos programas eram exibidas no fundo do palco, criando uma ponte visual entre a televisão que marcou a infância de milhões de brasileiros e o espetáculo contemporâneo.
Na sequência, vieram “O Xou da Xuxa Começou”, “Hoje É Dia de Folia” e “Xuxa Lêlê”. As músicas foram acompanhadas por bailarinas vestidas com os tradicionais uniformes associados às paquitas, uma das marcas visuais mais conhecidas da história da apresentadora.
Embora o espetáculo tenha sido construído sobre a nostalgia, Xuxa não transformou a apresentação em uma simples sucessão de lembranças. Ao longo do show, as músicas foram intercaladas com mensagens sobre temas que fazem parte de sua atuação pública e de suas convicções pessoais.
Antes de cantar “Abecedário da Xuxa”, a apresentadora falou sobre o respeito às diferenças e a inclusão de crianças com deficiência. A música foi apresentada também em Língua Brasileira de Sinais, ampliando o caráter inclusivo da performance e reforçando uma das mensagens centrais da noite: a ideia de que a memória afetiva pode ser revisitada sem deixar de dialogar com questões contemporâneas.
Em outro momento, Xuxa abordou a defesa dos animais. Antes de um medley que reuniu “Viver”, “Quem Sabe um Dia”, “Planeta Terra” e “O Boto Rosa”, a artista fez um apelo ao público para reduzir o consumo de produtos de origem animal.
“Por favor, diminua o consumo de animais. Você tem opção. Eles, não”, afirmou.
A mensagem está relacionada à trajetória pessoal da apresentadora, que é vegana desde 2018. Durante o medley, bailarinos vestidos como animais — entre eles o boto, a onça e a arara — reforçaram visualmente o tema apresentado no palco.
A paz também ganhou espaço na apresentação. Xuxa interpretou “Nosso Canto de Paz” e, em outros momentos, falou sobre a violência contra crianças e adolescentes. A apresentadora também defendeu um mundo livre de racismo, homofobia e sexismo, levando ao espetáculo pautas que ultrapassam o universo da música infantil e dialogam com temas sociais presentes em sua trajetória.
A estrutura do show foi organizada como uma viagem por diferentes fases da carreira. Entre os momentos mais aguardados esteve a participação de antigas paquitas, que reuniram diferentes gerações do grupo.
Bianca Rinaldi, Andréa Veiga e Cátia Paganote estiveram entre os nomes que participaram da apresentação de “Para Sempre Paquitas”, em um dos momentos mais celebrados pelo público.
A nostalgia também foi compartilhada diretamente com os fãs. Quatro pessoas foram chamadas ao palco para se transformarem em “paquitos por um dia”. Xuxa conversou com os participantes e perguntou para quem eles gostariam de mandar um beijo, recriando uma dinâmica que remete à interação característica de seus programas.
O personagem Txutxucão também participou do espetáculo, ampliando a conexão com o universo de “Xuxa Só para Baixinhos”, fase que também foi representada por músicas que continuam presentes na memória de diferentes gerações.
Entre os sucessos que provocaram maior reação da plateia estavam “Parabéns”, “Estátua” e “Cabeça, Ombro, Joelho e Pé”. O público, formado em grande parte por pessoas com mais de 40 anos, reproduziu espontaneamente as coreografias conhecidas, transformando o estádio em uma grande extensão dos antigos programas de televisão.
O espetáculo também apostou em uma produção grandiosa. Xuxa trocou de figurino três vezes e utilizou diferentes acessórios e elementos cênicos. Recursos pirotécnicos foram acionados em momentos específicos, enquanto a estrutura visual se modificava para acompanhar as diferentes fases da apresentação.
Em determinado momento, a apresentadora foi conduzida ao palco por um grande globo para cantar “Planeta Xuxa”. Em outro, subiu em um enorme X para interpretar “Arco-Íris”, criando uma das imagens mais marcantes da noite.
A parte final do show reuniu alguns dos maiores sucessos da carreira. “Lua de Cristal” e “Ilariê” conduziram a apresentação para o encerramento, em uma sequência que condensou a dimensão afetiva da turnê.
Antes da última música, Xuxa voltou a falar diretamente com os fãs, desta vez com seu conhecido tom irreverente.
“Vão falar ‘a Xuxa está velha, com a bunda de fora’? É por causa de vocês”, brincou.
Na sequência, resumiu o desejo que, segundo ela, deveria permanecer depois da apresentação:
“A única coisa que eu queria era que vocês voltassem para casa felizes.”
A resposta da plateia veio em forma de gritos e aplausos.
A estreia de “O Último Voo da Nave” foi, portanto, mais do que uma despedida simbólica de um dos maiores elementos da carreira de Xuxa. O espetáculo funcionou como uma grande retrospectiva musical e visual, mas também como uma tentativa de atualizar a memória de uma artista que atravessou gerações.
A nave, os uniformes das paquitas, os personagens, as coreografias e as canções fizeram o público retornar à infância. Ao mesmo tempo, as mensagens sobre inclusão, proteção das crianças, defesa dos animais, paz e combate ao preconceito mostraram que a apresentação não pretendia apenas reproduzir o passado.
No palco, Xuxa revisitou a própria história diante de um público que também envelheceu. Os antigos “baixinhos” chegaram adultos, muitos deles acompanhados pelas lembranças de uma infância vivida diante da televisão. Ao final, porém, a celebração mostrou que algumas memórias não desaparecem com o tempo: apenas aprendem novas formas de voar.