
40 visitas, uma agenda: a rede de encontros de Roberta Luchsinger no governo Lula que agora está sob escrutínio
Empresária próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, esteve 17 vezes no Ministério do Desenvolvimento Social, 15 na Saúde e ao menos oito no Palácio do Planalto; segundo documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação, apenas uma das visitas apareceu nas agendas oficiais
Brasília — Há uma diferença que, no universo da administração pública, pode parecer apenas burocrática, mas que ganha outra dimensão quando envolve pessoas próximas ao poder: a diferença entre estar dentro de um prédio do governo e deixar registrado, de forma transparente, por que se esteve ali.
É justamente nesse intervalo entre a presença física e o registro oficial que se encontra o caso de Roberta Luchsinger, empresária apontada como próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Segundo levantamento divulgado pelo Estado de S. Paulo e confirmado pela reportagem do Jornal de Brasília, Roberta realizou ao menos 40 visitas a ministérios e à Presidência da República entre 2023 e 2024. Dessas, apenas uma constava nas agendas públicas das autoridades.
Os registros foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e mostram uma circulação que passou por áreas estratégicas da Esplanada dos Ministérios e pelo próprio Palácio do Planalto.
O número chama atenção não apenas pela quantidade — mas pela ausência de correspondência entre as visitas identificadas nos registros administrativos e aquilo que ficou disponível para consulta pública.
Uma porta que se abriu repetidamente
A maior concentração ocorreu no Ministério do Desenvolvimento Social, onde Roberta esteve 17 vezes. Em seguida aparece o Ministério da Saúde, com 15 visitas. Além disso, foram identificadas ao menos oito idas ao Palácio do Planalto.
Em determinadas ocasiões, ela não estava sozinha.
A empresária foi acompanhada por representantes do setor privado, entre eles Efraín Saavedra, ligado à empresa Duosystem, e Sérgio Bringel, CEO do Grupo Bringel.
O cenário, portanto, não era necessariamente o de uma visitante particular entrando ocasionalmente em repartições públicas. Parte dos encontros envolvia empresários e apresentações de soluções tecnológicas destinadas ao setor público.
Isso, por si só, não caracteriza irregularidade.
Ministérios recebem diariamente empresas, entidades, especialistas e representantes de diferentes setores. O próprio governo afirma que esse tipo de interlocução faz parte da rotina administrativa.
A questão levantada pela apuração é outra: por que tantas dessas reuniões não aparecem nas agendas oficiais das autoridades?
No Desenvolvimento Social, um presente e cinco minutos
Um dos episódios mais simbólicos ocorreu em março de 2023.
Roberta esteve no Ministério do Desenvolvimento Social e encontrou-se com o então ministro Wellington Dias.
Na ocasião, segundo informações fornecidas pelo próprio ministério por meio da LAI, a visita não teve pauta específica e durou aproximadamente cinco minutos. Foi classificada como uma visita de cortesia relacionada à posse do ministro.
Roberta entregou a Dias uma edição de colecionador do livro O Alquimista, de Paulo Coelho, com dedicatória, além de uma caixa de bombons.
O conjunto dos presentes foi avaliado pelo ministério em R$ 360.
Houve ainda registro fotográfico do encontro.
A cena, aparentemente simples, ganha relevância porque ocorre dentro de uma história maior: uma empresária que circulou dezenas de vezes por estruturas do governo e que posteriormente passou a aparecer no radar de uma investigação da Polícia Federal.
No Ministério do Desenvolvimento Social, o gabinete de Wellington Dias foi apontado como o principal destino das visitas. Roberta também se encontrou com o secretário-executivo adjunto Rannier Costa Ciríaco.
Em quatro dessas ocasiões, estava acompanhada de Efraín Saavedra, representante da Duosystem.
A ponte tecnológica com o Ministério da Saúde
No Ministério da Saúde, foram contabilizadas 15 visitas.
Somente uma delas, segundo a apuração, apareceu nas agendas públicas.
O encontro registrado ocorreu em 23 de outubro e teve como objetivo a apresentação de um sistema de gestão em saúde e regulação desenvolvido pela Duosystem.
Participaram da reunião representantes da empresa e integrantes da estrutura do ministério, entre eles Nésio Fernandes, então responsável pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde; Ana Estela Haddad, então secretária de Informação e Saúde Digital; e Elton Bandeira, então secretário-executivo adjunto.
A empresa desenvolve tecnologias voltadas à área de saúde digital, incluindo ferramentas relacionadas à regulação do acesso a medicamentos e ao agendamento de consultas.
O Ministério da Saúde afirmou que recebe representantes de diversos segmentos para conhecer novas tecnologias e soluções.
Sobre a Duosystem, a pasta informou que a empresa havia apresentado uma proposta para regulação da atenção especializada, utilizada em São Paulo e em outros estados.
Segundo o ministério, porém, não houve continuidade porque não existiu interesse da pasta na proposta.
O Planalto e as visitas a Alexandre Padilha
A circulação também alcançou o centro político do governo.
Foram identificadas oito visitas ao Palácio do Planalto.
Em três delas, Roberta estava acompanhada de Sérgio Bringel, presidente do Grupo Bringel.
Segundo a apuração do Estado de S. Paulo, os encontros tiveram como destino o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Alexandre Padilha, que atualmente ocupa o Ministério da Saúde.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que as audiências ocorreram com servidores e seguiram as normas da administração pública.
A pasta também sustentou que reuniões com representantes da sociedade civil, do setor produtivo e de outros segmentos fazem parte da rotina do governo.
E apresentou uma informação importante para o debate:
segundo a Secom, as agendas não produziram qualquer desdobramento administrativo, contratual ou regulatório decorrente dos encontros.
Essa é uma das respostas centrais do governo diante do questionamento sobre a circulação da empresária.
A pergunta que permanece
Se as reuniões eram legítimas e não produziram consequências administrativas, por que tantas delas não estavam nas agendas públicas?
É justamente aí que a história deixa de ser apenas uma lista de visitas e passa a tocar em um dos princípios mais sensíveis da administração pública: a transparência.
Uma agenda oficial não é apenas um instrumento de organização pessoal de uma autoridade. Ela permite que a sociedade saiba quem teve acesso aos responsáveis por decisões que afetam políticas públicas.
Também possibilita que jornalistas, órgãos de controle e cidadãos reconstruam relações, interesses e eventuais conflitos.
No caso de Roberta, a diferença entre os registros de entrada e as agendas públicas cria uma zona de opacidade que naturalmente desperta questionamentos.
Mas é importante separar falta de transparência documental de prova de ilícito.
O fato de uma reunião não aparecer na agenda pública não demonstra, sozinho, tráfico de influência, favorecimento, corrupção ou qualquer outro crime.
Essas conclusões dependem de investigação, provas e eventual decisão judicial.
O nome de Lulinha no caminho da investigação
O episódio ganhou uma dimensão ainda maior porque Roberta Luchsinger aparece no contexto de investigações da Polícia Federal relacionadas ao chamado “Careca do INSS”, o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes.
A Polícia Federal investiga um esquema envolvendo descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS entre 2019 e 2024.
Roberta foi alvo de buscas em uma etapa da Operação Sem Desconto.
Segundo documentos mencionados na reportagem, a polícia apontou que ela teria desempenhado papel considerado relevante na ocultação de patrimônio, movimentação de valores e administração de contas bancárias e estruturas empresariais que, segundo a investigação, poderiam ter sido utilizadas em lavagem de dinheiro.
São acusações investigadas pelas autoridades e que não equivalem a uma condenação.
Em maio de 2026, Roberta afirmou à Polícia Federal que havia sido responsável por apresentar Lulinha ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes.
O próprio Fábio Luís Lula da Silva nega envolvimento em irregularidades.
Um terceiro inquérito
A história avançou ainda mais em 4 de agosto de 2026, quando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um terceiro inquérito envolvendo Lulinha para apurar suspeitas de tráfico de influência, após solicitação da Polícia Federal.
De acordo com as informações divulgadas, a nova investigação também envolve suspeitas relacionadas à atuação de Roberta Luchsinger em favor de uma empresa junto a um órgão público.
Mais uma vez, trata-se de investigação, e não de condenação.
A diferença é fundamental.
Em um Estado de Direito, investigação existe justamente para descobrir se uma suspeita possui fundamento, reunir provas e estabelecer responsabilidades. A existência de um inquérito não significa que os fatos investigados tenham sido comprovados.
O silêncio como estratégia
Procurada pelo Jornal de Brasília por WhatsApp, a defesa de Roberta respondeu que, “em respeito à Justiça, a partir de agora trataremos desse assunto nos autos, com muita tranquilidade”.
A resposta encerra, pelo menos por enquanto, a possibilidade de uma explicação pública mais ampla sobre o motivo das dezenas de visitas.
O Ministério do Desenvolvimento Social não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.
O Grupo Bringel também não respondeu aos questionamentos.
Entre a rotina do governo e a necessidade de transparência
Há dois lados que precisam ser observados simultaneamente.
De um lado, o governo tem razão ao afirmar que ministros e servidores recebem empresários, representantes de empresas e integrantes da sociedade civil. A interlocução entre Estado e setor privado é parte natural de uma democracia e pode até ser indispensável para formular políticas públicas.
De outro, quanto maior a proximidade entre um visitante e pessoas que ocupam posições de poder, maior é a importância da transparência sobre esses encontros.
É essa publicidade que impede que uma reunião legítima seja confundida com uma negociação clandestina — e, ao mesmo tempo, protege o próprio agente público de suspeitas injustificadas.
No caso de Roberta Luchsinger, o dado mais contundente não é necessariamente a existência das 40 visitas.
É o contraste:
40 entradas identificadas. Uma agenda oficial.
Entre esses dois números existe um espaço que agora precisa ser explicado.
Não necessariamente para provar que houve irregularidade, mas para esclarecer por que a sociedade não conseguiu acompanhar, no momento adequado, uma parcela tão expressiva dos encontros de uma empresária que, posteriormente, passou a figurar no contexto de investigações envolvendo pessoas próximas ao núcleo familiar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
É nesse ponto que a história deixa de ser apenas sobre Roberta, Lulinha ou determinados ministérios.
Ela passa a ser sobre uma pergunta maior — e permanente em qualquer democracia:
quando alguém entra pelas portas do poder, quem tem o direito de saber com quem essa pessoa se encontrou, por quê e o que foi discutido?
Enquanto essas respostas não estiverem integralmente disponíveis, os registros continuarão falando por si: dezenas de visitas identificadas nos bastidores administrativos, mas poucas marcas correspondentes na vitrine oficial do governo.