
Coronel citado em investigação sobre operadores do PCC atuou na segurança da Secretaria da Segurança Pública durante gestão de Alexandre de Moraes
Luiz Carlos Pereira Martins comandou a Assessoria Policial Militar da SSP paulista entre 2014 e 2016, período em que Alexandre de Moraes chefiava a pasta. Relatório da Polícia Federal aponta amizade do coronel da reserva com suspeitos de operar esquema financeiro ligado ao PCC; oficial não é acusado de integrar organização criminosa.

O coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Luiz Carlos Pereira Martins, citado em uma investigação da Polícia Federal por manter relações de amizade com dois suspeitos apontados como operadores financeiros do Primeiro Comando da Capital (PCC), exerceu uma função estratégica dentro da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) durante a gestão do atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
De acordo com registros de gratificações publicados no Diário Oficial do Estado, Pereira Martins ocupou o cargo de chefe da Assessoria Policial Militar da SSP entre outubro de 2014 e dezembro de 2016. O período inclui a passagem de Alexandre de Moraes pelo comando da secretaria, entre 2015 e 2016, e também a gestão do secretário Mágino Alves Barbosa Filho.
A Assessoria Policial Militar da SSP tem entre suas atribuições a proteção física do prédio da secretaria, a segurança pessoal do secretário quando determinada e o assessoramento direto da autoridade máxima da pasta em assuntos relacionados à Polícia Militar.
Investigação da Polícia Federal
O nome do coronel apareceu em relatórios produzidos pela Polícia Federal durante uma investigação envolvendo suspeitos de movimentações financeiras atribuídas a integrantes do PCC.
Segundo a PF, Pereira Martins mantinha contato com Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins, apontados pelos investigadores como supostos operadores de um esquema financeiro ligado à facção criminosa.
A investigação identificou mensagens, áudios, fotografias e documentos extraídos de celulares apreendidos. Em uma das conversas analisadas, o coronel teria convidado Cléber para um encontro com “amigos da minha turma de coronéis”.
No relatório, os investigadores classificaram Pereira Martins como “grande amigo” dos dois suspeitos e afirmaram que ele “parece abrir portas na corporação PMESP para Cléber e o grupo”.
Apesar das citações no documento, o coronel da reserva não foi preso, não foi denunciado como integrante do PCC e não aparece entre os acusados de participar do núcleo financeiro investigado.
Operação Janus
Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins foram presos em 21 de julho durante a Operação Janus, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o grupo investigado teria criado uma estrutura clandestina para receber dinheiro em espécie e realizar devoluções por meio de transferências bancárias feitas por empresas e contas de terceiros.
A suspeita dos investigadores é de que o esquema teria como clientes integrantes do PCC interessados em movimentar recursos financeiros de origem ilícita.
A investigação também avaliou a possibilidade de pagamentos a policiais militares, mas, segundo o relatório, não foram encontrados elementos suficientes para confirmar essa hipótese até a conclusão do documento, em novembro de 2024.
Relação com a Associação dos Oficiais da PM
Além das conversas com os investigados, a PF também analisou mensagens relacionadas ao uso de espaços pertencentes à Associação dos Oficiais da Polícia Militar de São Paulo (AOPM), entidade na qual Pereira Martins ocupa cargo de diretor.
A associação afirmou, em nota, que o coronel “não tem sobre si qualquer indício de práticas ilícitas” e defendeu que os contatos identificados pela investigação ocorreram em um contexto de relações sociais e de amizade, quando não havia suspeitas públicas contra as pessoas envolvidas.
“A relação de amizade mantida pelo coronel ocorreu em período em que não pairavam suspeitas sobre essas pessoas”, informou a entidade.
Atuação durante gestão de Alexandre de Moraes
Pereira Martins assumiu a chefia da Assessoria Policial Militar da Secretaria da Segurança Pública após indicação feita durante a gestão do então secretário Fernando Grella Vieira, que comandou a pasta entre 2012 e 2014.
Ele permaneceu no cargo durante parte da administração de Alexandre de Moraes, que assumiu a SSP paulista em 2015 antes de deixar a função para assumir o Ministério da Justiça no governo federal.
Posteriormente, Mágino Alves Barbosa Filho sucedeu Moraes no comando da secretaria. Atualmente, Barbosa atua como advogado no escritório de Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes.
Posicionamento das autoridades
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que o coronel Luiz Carlos Pereira Martins está aposentado da Polícia Militar desde abril de 2019 e não exerce atualmente qualquer função na corporação.
Em nota, a pasta afirmou que não compactua com desvios de conduta e que eventuais responsabilidades serão apuradas com respeito ao devido processo legal e à autonomia das investigações.
A Polícia Militar e a SSP também informaram que a Corregedoria da corporação solicitou acesso aos materiais da investigação para avaliar possíveis medidas nas áreas administrativa e criminal.
O espaço permanece aberto para manifestação do coronel Luiz Carlos Pereira Martins. Até o momento, ele não apresentou publicamente sua versão sobre as citações feitas no relatório da Polícia Federal.
O caso e seus desdobramentos
A investigação envolvendo operadores financeiros ligados ao PCC reacendeu o debate sobre possíveis conexões entre integrantes do crime organizado e pessoas com acesso a estruturas institucionais.
O fato de um oficial citado no relatório ter ocupado uma função ligada à segurança da principal autoridade da área durante um período de mudanças na política de segurança pública paulista passou a ser alvo de questionamentos.
As investigações, porém, até o momento, não apontam que Pereira Martins tenha participado diretamente das atividades criminosas atribuídas aos suspeitos presos na Operação Janus. O coronel aparece no caso como uma pessoa investigada pelas relações mantidas com os envolvidos, enquanto as autoridades seguem analisando os elementos coletados.