Eduardo Razuk: a ascensão nas redes, a coleção milionária de carros e a operação que transformou ostentação em alvo policial

Eduardo Razuk: a ascensão nas redes, a coleção milionária de carros e a operação que transformou ostentação em alvo policial

Influenciador conhecido por rifas de veículos de luxo foi preso com o irmão em Campo Grande; investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, associação criminosa e exploração ilegal de loterias. Defesa afirma que os sorteios realizados são legais

A imagem construída por Eduardo Razuk nas redes sociais era inseparável do brilho dos carros. Golf GTI, BMW, Porsche, Volkswagen Arteon, Mini Cooper e outros modelos esportivos apareciam em vídeos, fotografias e publicações que transformaram o universo automotivo em vitrine de um estilo de vida marcado por veículos de alto valor.

Na terça-feira (18), porém, essa coleção deixou o ambiente digital e passou a integrar uma investigação policial.

Razuk e o irmão, Rafael Razuk, foram presos em Campo Grande (MS) durante uma operação da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (Dercc). Segundo a investigação divulgada pelas autoridades, os irmãos são suspeitos de lavagem de dinheiro, associação criminosa e exploração ilegal de loterias, em um caso relacionado às rifas de carros promovidas nas redes sociais.

A operação também apreendeu uma frota de veículos de luxo. As estimativas sobre o patrimônio recolhido variam conforme a fonte: informações inicialmente divulgadas apontaram aproximadamente R$ 10 milhões, enquanto levantamento posterior do Metrópoles estimou a coleção entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.

A diferença decorre, entre outros fatores, da avaliação dos modelos encontrados e da quantidade de veículos considerada no levantamento.

De vídeos de carros a milhões em rifas

Eduardo Razuk construiu uma audiência expressiva produzindo conteúdo voltado ao automobilismo e aos veículos esportivos.

No Instagram, mantinha uma conta principal com cerca de 660 mil seguidores e outra considerada reserva, com aproximadamente 423 mil. No YouTube, reunia cerca de 988 mil inscritos. Somadas as plataformas mencionadas nas reportagens, sua audiência ultrapassava a marca de 2 milhões de seguidores e inscritos.

O conteúdo seguia uma fórmula visual bastante direta: carros de alto valor, viagens, encontros de apaixonados por automóveis e imagens dos veículos sendo conduzidos ou apresentados em detalhes.

Entre os modelos exibidos estavam o Volkswagen Arteon Shooting Brake, avaliado em torno de R$ 1 milhão; o BMW M4, com preço superior a R$ 900 mil; o Porsche 911, próximo de R$ 1 milhão em sua configuração de entrada; e diferentes exemplares do Golf GTI.

Mas o principal mecanismo de monetização associado ao nome de Razuk, segundo as reportagens sobre a investigação, eram as rifas de veículos.

Os bilhetes eram divulgados por valores muito baixos, a partir de R$ 1,49, criando uma distância enorme entre o preço individual da participação e o valor dos automóveis oferecidos.

É justamente essa engrenagem que está no centro da investigação.

Segundo informações atribuídas à Polícia Civil, os suspeitos teriam movimentado R$ 100 milhões em apenas seis meses com a atividade investigada.

Esse número, contudo, representa uma alegação da investigação e não uma conclusão judicial definitiva sobre a origem ou a natureza de todos os valores movimentados.

O galpão que virou símbolo da operação

A operação policial teve como alvos dois endereços em Campo Grande: uma residência localizada na Rua Tricordiano, na Vila Vilas Boas, e um galpão na Travessa da Ema.

Foi no galpão que os policiais encontraram a coleção de veículos.

A cena contrasta com o universo cuidadosamente produzido para as redes sociais. Os carros, antes exibidos como símbolos de exclusividade e sucesso, passaram a ser fotografados e contabilizados como objetos apreendidos no âmbito de uma investigação criminal.

Entre os veículos relacionados à apreensão estão modelos como o Volkswagen ID. Buzz GTX, avaliado em aproximadamente R$ 1,15 milhão; o BMW M4 Competition, estimado em cerca de R$ 900 mil; e o Volkswagen Arteon Shooting Brake R, avaliado entre R$ 800 mil e R$ 900 mil.

Também aparecem na relação diferentes exemplares do Golf GTI, além de Mini John Cooper Works, Volkswagen Fusca 2.0 TSI e Volkswagen Up! GTI.

A coleção de Golf GTI

Um dos elementos que mais chamava atenção nas publicações de Razuk era a coleção de Golf GTI.

Segundo as reportagens, o influenciador havia reunido exemplares da nova geração Golf GTI MK8.5, importada da Europa para o Brasil.

Quatro veículos apareciam lado a lado em uma das gravações, nas cores branca, vermelha, preta e cinza.

A composição não era casual. O modelo chegou ao mercado brasileiro em um lote inicial limitado a 350 unidades, produzido na Alemanha, e as quatro cores exibidas por Razuk correspondiam justamente às opções disponibilizadas naquele primeiro lote.

Vídeos mostravam os automóveis chegando ao país, inclusive sobre caminhões-plataforma, e destacavam detalhes como rodas, pinças de freio vermelhas, faróis e o tradicional emblema GTI.

A coleção se tornou parte da própria identidade digital do influenciador.

Quanto valeria a garagem?

A estimativa divulgada pelo Metrópoles colocou o conjunto entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.

Entre os valores aproximados apresentados estão:

  • Volkswagen ID. Buzz GTX: cerca de R$ 1,15 milhão;
  • Volkswagen Arteon Shooting Brake R: entre R$ 800 mil e R$ 900 mil;
  • BMW M4 Competition: aproximadamente R$ 900 mil;
  • Volkswagen Golf GTI: cerca de R$ 500 mil cada;
  • Mini John Cooper Works: aproximadamente R$ 319.990;
  • Volkswagen Fusca 2.0 TSI: entre R$ 90 mil e R$ 155 mil;
  • Volkswagen Up! GTI: entre R$ 45 mil e R$ 75 mil.

Os valores são estimativas de mercado utilizadas nas reportagens e não necessariamente correspondem ao valor final que será atribuído judicialmente aos bens.

Não era a primeira vez que Razuk entrava no radar da polícia

A história policial envolvendo Eduardo Razuk não começou com as rifas.

Em agosto de 2020, ele já havia sido alvo de uma investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.

Naquela ocasião, quatro veículos ligados ao influenciador e ao youtuber Luan Galasso foram apreendidos durante uma operação em Campo Grande.

A investigação daquele período envolvia vídeos publicados nas redes sociais que mostravam supostas situações de racha, direção perigosa e incitação à prática de condutas criminosas.

Em um dos vídeos citados pelas autoridades, Razuk teria incentivado a própria mãe a participar de um racha.

Em outra gravação, aparecia ao lado de um adolescente de 13 anos que conduzia um carro importado.

Durante a operação de 2020, policiais apreenderam uma caminhonete e dois carros de luxo, entre eles uma BMW e um Mini Cooper, além de celulares e cartões de memória contendo gravações.

Razuk chegou a ser preso, mas foi liberado posteriormente mediante pagamento de fiança.

A investigação daquela época também mencionava suspeitas de direção perigosa, incitação ao crime e receptação.

Agora, uma investigação de outra dimensão

Se a investigação de 2020 estava relacionada ao comportamento apresentado nos vídeos, a operação atual mira principalmente a estrutura financeira e comercial associada às rifas.

É nesse ponto que aparecem as suspeitas de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

A Polícia Civil também investiga a possível exploração ilegal de loterias.

A legislação brasileira estabelece regras específicas para promoções, sorteios e distribuição de prêmios. A investigação busca determinar se as atividades promovidas por Razuk obedeciam às exigências legais ou se funcionavam à margem das normas aplicáveis.

A defesa contesta a existência de irregularidades.

Defesa diz que rifas são legais

Os advogados Tiago Bunning e Heitor Matos, que representam Eduardo e Rafael Razuk, afirmaram que ainda não tinham acesso integral à investigação e à decisão judicial.

Em nota divulgada pelo g1, os defensores sustentaram que os sorteios realizados pelos investigados seriam legais e que a operação respeitaria as regras específicas do setor.

A defesa informou ainda que, após ter acesso ao procedimento, poderá apresentar novos esclarecimentos.

A manifestação é importante porque, neste momento, as acusações descritas nas reportagens correspondem a suspeitas investigadas pelas autoridades. A prisão e a apreensão de bens não significam, por si só, condenação.

O silêncio de um galpão vazio

Depois da operação, um dos episódios que chamou atenção nas redes sociais ocorreu justamente na conta reserva de Eduardo Razuk.

Na noite de terça-feira, o perfil publicou um vídeo mostrando o galpão onde os carros eram guardados.

Desta vez, não havia Golf GTI alinhados, BMWs ou esportivos esperando pela próxima gravação.

O espaço aparecia vazio.

Ao repostar as imagens nos stories, a conta publicou uma mensagem curta:

“Os meninos estão bem.”

A frase rapidamente ganhou significado diante da prisão dos irmãos e da retirada dos veículos do local.

O personagem construído em torno dos carros

A trajetória de Razuk ilustra uma transformação cada vez mais comum no ambiente digital: o automóvel deixou de ser apenas produto e passou a funcionar como personagem.

O carro é conteúdo, cenário, símbolo de status e, em determinados modelos, objeto de desejo para uma comunidade inteira de seguidores.

No caso do influenciador, os veículos também estavam diretamente ligados ao modelo de negócios investigado: as rifas.

O público era atraído pelo sonho de transformar poucos reais em um automóvel que poderia custar centenas de milhares de reais.

É uma lógica poderosa para as redes sociais: quanto maior o valor do prêmio, maior o apelo; quanto menor o preço da participação, maior o potencial de adesão.

A investigação agora tenta responder à pergunta que está por trás da ostentação: como essa máquina financeira funcionava e de onde vinham os recursos que permitiram formar uma garagem milionária?

O que acontece daqui para frente

A Polícia Civil deverá aprofundar a análise de documentos, contas, veículos, equipamentos eletrônicos e demais elementos recolhidos durante a operação.

A investigação também poderá esclarecer a dimensão da estrutura utilizada para divulgar e administrar as rifas e identificar eventuais outras pessoas ou empresas relacionadas às atividades investigadas.

Enquanto isso, a defesa deverá apresentar sua versão após ter acesso ao conteúdo completo do procedimento.

O caso coloca sob escrutínio não apenas a coleção de Eduardo Razuk, mas o modelo de negócios baseado em rifas de bens de alto valor promovidas por influenciadores digitais.

Entre a tela do celular e o pátio de um galpão vazio, a história ganhou uma nova dimensão. Os carros que antes apareciam impecavelmente alinhados diante das câmeras agora estão sob custódia da investigação. E o que para milhares de seguidores era apresentado como entretenimento, velocidade e luxo passou a ser examinado pelas autoridades sob a perspectiva de possíveis crimes financeiros e exploração ilegal de loterias.

Até que a investigação seja concluída e haja eventual decisão judicial definitiva, as acusações contra Eduardo e Rafael Razuk devem ser tratadas como suspeitas, e não como fatos comprovados.

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