
Irã avalia ataques contra alvos militares dos EUA na Europa caso Trump amplie a guerra
Fontes próximas ao regime iraniano dizem ao Financial Times que Teerã estuda ampliar o alcance de uma eventual retaliação para além do Oriente Médio; Bulgária e Chipre aparecem entre os possíveis pontos de pressão, enquanto a crise em torno do Estreito de Ormuz ameaça ganhar uma dimensão internacional
A guerra entre Estados Unidos e Irã pode estar diante de uma nova e mais perigosa fronteira. Segundo informações publicadas nesta quarta-feira (19) pelo Financial Times, autoridades e pessoas próximas ao regime iraniano afirmam que Teerã avalia a possibilidade de atingir ativos militares americanos no sudeste da Europa caso o presidente Donald Trump decida ampliar novamente as operações contra o país.
A informação, atribuída pelo jornal britânico a duas fontes ligadas ao governo iraniano, não significa que um ataque tenha sido decidido ou que esteja em preparação imediata. Trata-se, segundo o relato, de opções que estariam sendo examinadas pelas autoridades iranianas diante da possibilidade de uma nova escalada.
O que muda no cálculo estratégico é justamente o alcance da ameaça. Até agora, a maior parte das ações e advertências relacionadas ao conflito esteve concentrada no Oriente Médio. A possibilidade de atingir instalações americanas em território europeu acrescentaria uma dimensão completamente diferente à crise — especialmente se envolver países aliados de Washington.
Bulgária e Chipre entram no radar
Entre os locais mencionados nas informações do Financial Times estão a Bulgária e o Chipre.
A Bulgária ganhou importância no cenário militar depois de autorizar o uso da base aérea de Bezmer por aeronaves americanas de reabastecimento. O governo iraniano já havia advertido Sofia anteriormente sobre as consequências de permitir que seu território fosse utilizado em operações americanas contra Teerã.
O Chipre também aparece no cálculo iraniano, em razão da presença militar britânica na ilha e de sua importância estratégica para operações ocidentais no Mediterrâneo e no Oriente Médio.
A possibilidade relatada pelo Financial Times não significa que Bulgária ou Chipre tenham sido formalmente declarados alvos pelo governo iraniano. O que as fontes descrevem são cenários de retaliação considerados pelas estruturas militares iranianas caso Washington ultrapasse determinadas linhas vermelhas.
Essa distinção é fundamental para compreender a dimensão da informação.
De uma guerra regional para uma crise internacional
O temor central é que uma eventual ofensiva contra instalações americanas fora do Oriente Médio produza uma reação em cadeia.
Um ataque contra uma instalação militar dos Estados Unidos em território europeu poderia envolver governos locais, forças americanas estacionadas na região e, dependendo do país atingido e das circunstâncias, organizações de defesa coletiva.
A Bulgária, por exemplo, é integrante da União Europeia e da Otan. O Chipre, por sua vez, pertence à União Europeia, mas não integra a Otan.
Assim, uma eventual operação iraniana contra ativos americanos nesses territórios criaria imediatamente uma questão diplomática e militar para os governos europeus.
É justamente esse risco de transbordamento que torna as informações relatadas pelo Financial Times especialmente sensíveis.
Teerã prepara uma resposta além do Oriente Médio
Segundo as fontes ouvidas pelo jornal britânico, comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e outros integrantes da estrutura militar iraniana vêm discutindo uma resposta que poderia ultrapassar a estratégia anterior de concentrar ataques em instalações americanas, estruturas energéticas e outros objetivos militares no Oriente Médio.
A lógica seria simples e perigosa: se os Estados Unidos ampliarem a guerra e atingirem diretamente infraestrutura iraniana, Teerã procuraria demonstrar que também possui capacidade de elevar o custo do conflito para Washington.
Uma das fontes afirmou ao Financial Times que, se os Estados Unidos fossem longe demais, o Irã poderia reagir além dos limites regionais e atingir alvos na Europa.
É uma mudança de linguagem que revela o tamanho da tensão.
A mensagem iraniana seria, em essência, que uma guerra contra Teerã não ficaria necessariamente confinada ao território iraniano nem ao entorno imediato do Golfo Pérsico.
A ameaça dos mísseis
As informações também levantam dúvidas sobre a capacidade militar iraniana de executar ataques a distâncias muito maiores.
O Irã possui mísseis balísticos de médio alcance, incluindo sistemas da família Shahab. Especialistas citados no relato, porém, apontam limitações para operações contra alvos muito distantes.
Essa questão é importante porque ameaçar um determinado alvo e possuir capacidade militar comprovada para destruí-lo são coisas diferentes.
O arsenal iraniano pode representar uma ameaça significativa em seu entorno regional, mas a capacidade de atingir determinados pontos da Europa dependeria de distância, tipo de míssil, precisão, carga transportada e outras variáveis militares.
O próprio Financial Times destaca essas limitações ao analisar as possibilidades de uma ofensiva iraniana de maior alcance.
O Estreito de Ormuz também aparece no cálculo
A ameaça, contudo, não se restringiria a instalações militares.
Segundo as informações publicadas pelo jornal britânico, autoridades iranianas também estudaram possibilidades envolvendo cabos submarinos de fibra óptica no Estreito de Ormuz.
O estreito é um dos pontos estratégicos mais importantes do sistema energético mundial. Por ele passa uma parcela significativa do petróleo e do gás comercializados internacionalmente.
Além da dimensão energética, a infraestrutura submarina de comunicação é fundamental para sistemas financeiros, telecomunicações e transmissão internacional de dados.
Qualquer ação contra essa infraestrutura poderia, portanto, produzir efeitos muito além do campo militar.
A guerra de ameaças entre Trump e Teerã
O novo episódio ocorre em meio a uma deterioração das perspectivas diplomáticas.
Trump afirmou na terça-feira (18) que não havia negociações em andamento entre Washington e Teerã nem conversas agendadas.
O presidente americano também vem deixando claro que considera impedir que o Irã desenvolva capacidade nuclear uma prioridade central de sua política externa.
Ao mesmo tempo, Teerã continua sinalizando que responderá a qualquer nova ofensiva americana.
O problema é que cada ameaça cria uma nova linha vermelha, e cada linha vermelha aumenta o risco de erro de cálculo.
O precedente da Jordânia
Dentro do raciocínio apresentado pelas fontes iranianas ao Financial Times, um ataque contra uma base americana na Jordânia teria servido como demonstração da capacidade de fogo iraniana.
O episódio, segundo uma das fontes, também teria sido interpretado como uma mensagem destinada aos países europeus: instalações utilizadas pelos Estados Unidos poderiam eventualmente ser alcançadas.
A interpretação atribuída à fonte é clara: se uma potência estrangeira atacar infraestrutura considerada estratégica para o Irã, a resposta poderia ultrapassar as fronteiras do Oriente Médio.
Os linha-dura ganham espaço em Teerã
Por trás da retórica militar existe ainda uma transformação dentro do próprio aparelho de poder iraniano.
O governo vem ampliando a influência de figuras associadas à linha-dura.
Entre os nomes citados está Mohsen Rezaei, ex-comandante da Guarda Revolucionária, que teria recebido uma posição de destaque na estrutura de segurança do país.
A ascensão de Rezaei é interpretada pelas fontes ouvidas pelo Financial Times como sinal de fortalecimento do setor que defende uma postura mais confrontacional diante dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, figuras vistas como mais abertas à negociação, como o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, teriam perdido espaço relativo.
A mensagem política seria de endurecimento.
Em vez de apresentar apenas a negociação como caminho para resolver a crise, Teerã estaria mostrando que possui alternativas militares preparadas para uma eventual ruptura definitiva do diálogo.
A diplomacia diante de uma encruzilhada
O cenário coloca Trump diante de uma equação extremamente delicada.
Uma ampliação dos ataques contra o Irã poderia provocar uma resposta iraniana mais abrangente. Uma resposta que atingisse forças americanas na Europa, por sua vez, poderia pressionar governos europeus a tomar posição diante de um conflito que até agora está concentrado principalmente no Oriente Médio.
O risco é que uma guerra originalmente delimitada entre Washington e Teerã passe a envolver progressivamente outros territórios, bases e governos.
E, nesse tipo de conflito, a distância entre uma ameaça e uma decisão militar pode ser menor do que parece.
O perigo de um efeito dominó
A possibilidade descrita pelo Financial Times não deve ser confundida com uma confirmação de que o Irã decidiu atacar a Europa. As informações disponíveis apontam para planejamento e avaliação de opções de retaliação, condicionados a uma eventual escalada americana.
Mas o simples fato de alvos fora do Oriente Médio aparecerem nos cálculos estratégicos iranianos mostra como o conflito está adquirindo uma dimensão cada vez mais ampla.
A crise deixa de ser apenas uma disputa sobre instalações nucleares, bases militares, petróleo ou controle do Estreito de Ormuz.
Passa a envolver também a geografia da presença militar americana no exterior.
E é justamente aí que mora o perigo: quanto mais longe a guerra se espalha, maior o número de governos, territórios e populações que podem ser arrastados para dentro dela.
Por enquanto, as informações revelam uma ameaça condicionada — uma espécie de aviso de Teerã a Washington. Mas, em um conflito marcado por declarações cada vez mais duras e por crescente presença de setores linha-dura no aparelho iraniano, o espaço para erros de cálculo pode estar ficando perigosamente estreito.
Fonte principal: Financial Times, reportagem de Najmeh Bozorgmehr publicada em 19 de agosto de 2026. A reportagem original informa que as possibilidades de ataques contra ativos americanos na Europa foram relatadas por fontes próximas ao regime iraniano; portanto, as alegações devem ser tratadas como informações atribuídas a essas fontes, e não como confirmação independente de que tais ataques tenham sido autorizados ou estejam iminentes.