
Entre a transição e a permanência: Flávio Bolsonaro diz que quer entrar para a história e mira quatro anos na Presidência
Ao lado de Tarcísio de Freitas, candidato do PL afirma que está há 24 anos se preparando para comandar o país; governador paulista diz que, se eleito, senador deverá cumprir integralmente o mandato presidencial
O candidato do Partido Liberal à Presidência da República, Flávio Nantes Bolsonaro, afirmou nesta quinta-feira (20), durante um almoço com empresários em São Paulo, que pretende deixar sua marca na história política brasileira — “nem que seja como presidente de transição”.
A declaração foi feita ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, do Republicanos, em um encontro que reuniu empresários, políticos e aliados do campo bolsonarista. A fala introduziu uma expressão particularmente significativa na campanha presidencial: a ideia de uma eventual Presidência de “transição”, em um momento que Flávio descreveu como de grande turbulência nacional.
“Eu pretendo entrar pra história, Tarcísio, nem que seja como presidente de transição. Porque esse Brasil precisa atravessar esse mar revolto nesse momento”, afirmou Flávio Bolsonaro.
A declaração ganhou ainda mais peso porque ocorreu poucas horas depois de Tarcísio participar de uma sabatina na qual foi questionado justamente sobre a possibilidade de Flávio assumir a Presidência.
Na ocasião, o governador paulista afirmou que, caso Flávio seja eleito, irá “honrar” até o fim o mandato de quatro anos.
Flávio diz estar há 24 anos se preparando
Durante o discurso diante de uma plateia majoritariamente empresarial, Flávio Bolsonaro também procurou apresentar sua trajetória política como uma preparação prolongada para a disputa presidencial.
“Hoje eu entendo. Eu estou há 24 anos me preparando para ser o presidente do Brasil”, declarou.
A frase faz referência à longa trajetória política do senador, que começou ainda no início dos anos 2000 e passou por diferentes cargos eletivos antes da candidatura ao Palácio do Planalto.
O discurso buscou transformar essa trajetória em argumento político: Flávio apresentou sua experiência acumulada como uma preparação para assumir o comando do Executivo federal.
Elogios a Tarcísio e ao legado de Jair Bolsonaro
Em vários momentos do discurso, Flávio Bolsonaro dedicou elogios a Tarcísio de Freitas.
O senador classificou o governador paulista como um dos “galácticos” escolhidos pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro para integrar seu governo.
A referência remete à equipe formada durante a administração Bolsonaro, quando Tarcísio comandou o então Ministério da Infraestrutura.
Flávio afirmou que o governador entrou para a história tanto pela passagem pelo ministério quanto pela administração do Estado de São Paulo.
“O presidente Bolsonaro foi o maior exemplo de alguém que conseguiu montar um time de galácticos. […] Um deles está aqui, que é o Tarcísio”, afirmou.
Na sequência, classificou Tarcísio como uma das pessoas mais preparadas a passar pelo Ministério da Infraestrutura e destacou, segundo seu discurso, os resultados obtidos durante a gestão federal e posteriormente no governo paulista.
A presença de Tarcísio ao lado de Flávio tem também uma dimensão política importante. Antes de Flávio anunciar sua candidatura presidencial, o governador paulista era apontado como um dos nomes preferidos de setores do empresariado e do mercado financeiro para representar a direita na eleição presidencial.
O encontro empresarial na Mooca
O almoço aconteceu em um restaurante localizado em um shopping na Mooca, na zona leste de São Paulo.
O encontro foi organizado pelo vereador João Jorge, do MDB, e contou também com a participação do prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes, e de Guilherme Derrite, deputado federal pelo Progressistas (PP) e candidato ao Senado por São Paulo.
Segundo a organização, aproximadamente 450 pessoas participaram do evento. A expectativa inicial era receber cerca de 350 convidados.
Ainda segundo os organizadores, os custos do encontro foram pagos pelos próprios empresários.
O cardápio também chamou atenção pelo caráter popular: foram servidos bolinho de bacalhau, quibe frito, sanduíche de pernil e pão com mortadela, prato tradicional do estabelecimento.
O simbolismo político do pão com mortadela
A presença do pão com mortadela ganhou uma dimensão simbólica no contexto político do encontro.
Nas últimas décadas, “mortadela” passou a ser utilizada por adversários políticos, especialmente em discussões envolvendo o PT e a esquerda, como uma expressão pejorativa para se referir a militantes e apoiadores desses grupos.
Em um evento de campanha de um candidato identificado com o bolsonarismo, portanto, o prato acabou inserido em um cenário carregado de referências políticas.
Quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal
Outro ponto relevante do discurso foi a promessa de Flávio Bolsonaro de indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF) caso seja eleito presidente.
O candidato afirmou que pretende escolher homens e mulheres que sejam contrários ao aborto e às drogas, mas que, segundo seus critérios, respeitem a Constituição.
Flávio também afirmou que os futuros ministros não deveriam utilizar o cargo para perseguir adversários políticos.
“Eu já me comprometi […] a indicar homens e mulheres, sejam contra o aborto, sejam contra as drogas, mas que respeitem a Constituição, que não usem a sua caneta para perseguir adversários políticos e pessoas que sejam íntegras”, declarou.
A promessa coloca o STF no centro da estratégia política do candidato, especialmente porque a composição da Corte é uma das atribuições presidenciais de maior impacto institucional.
A indicação de ministros ao Supremo depende, constitucionalmente, de aprovação do Senado Federal. Portanto, uma eventual escolha presidencial não significa nomeação automática: os indicados precisam passar pelo processo de aprovação previsto na Constituição.
Um dia marcado por alianças e tensão política
O almoço encerrou uma extensa agenda de Flávio Bolsonaro em São Paulo nesta quinta-feira.
Ao longo do dia, o candidato esteve acompanhado de diferentes aliados políticos, entre eles Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes.
A movimentação ocorreu em um ambiente de intensa disputa eleitoral e de tentativa de consolidação das alianças do campo bolsonarista no maior colégio eleitoral do país.
Mais cedo, Flávio também havia tratado do caso envolvendo o filme Dark Horse, afirmando que considera o episódio uma “página virada” e sustentando que a prestação de contas da produção já havia sido realizada.
O longa entrou no debate político por causa de questões relacionadas ao seu financiamento, incluindo recursos associados ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Flávio havia anteriormente sinalizado que apresentaria informações detalhadas sobre a operação.
Na mesma agenda, o senador voltou suas críticas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores, além de mencionar Luís Cláudio Lula da Silva, o Lulinha.
A frase sobre a “transição” no centro do discurso
A declaração sobre ser presidente de transição, contudo, foi o momento de maior repercussão do encontro empresarial.
Ao dizer que pretende entrar para a história “nem que seja como presidente de transição”, Flávio Bolsonaro apresentou sua eventual Presidência como uma espécie de etapa destinada a conduzir o Brasil através de um período que descreveu como um “mar revolto”.
Ao mesmo tempo, a fala de Tarcísio de Freitas durante a sabatina realizada mais cedo estabeleceu uma segunda mensagem: na visão apresentada pelo governador, uma eventual eleição de Flávio significaria um mandato presidencial completo, de quatro anos.
Dessa forma, o encontro produziu duas declarações que passaram a ocupar o centro do debate: Flávio falou em atravessar um período de transição; Tarcísio afirmou que ele deverá cumprir integralmente o mandato caso seja eleito.
O episódio expõe, sem que seja necessário atribuir a ele uma interpretação além das declarações públicas, a tentativa de Flávio Bolsonaro de apresentar sua candidatura como preparada para um momento de transformação nacional, enquanto busca consolidar ao seu redor uma rede de apoio político que inclui o governador paulista, o prefeito da capital e nomes que disputam vagas no Senado.
A campanha presidencial de 2026 entra, assim, em uma fase na qual discursos, alianças e demonstrações de força política passam a ocorrer simultaneamente — e São Paulo, pelo peso eleitoral e econômico, aparece como um dos principais palcos dessa disputa.