Flávio Bolsonaro transforma 7 de Setembro em ato de confronto contra Moraes, Lula e o STF

Flávio Bolsonaro transforma 7 de Setembro em ato de confronto contra Moraes, Lula e o STF

Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, Silas Malafaia e outras lideranças da direita sobem ao palanque da Paulista; discurso de Flávio endurece campanha presidencial e coloca crise do Supremo no centro da disputa eleitoral

A Avenida Paulista se transformou, no feriado de 7 de Setembro de 2026, em um dos principais palcos da disputa política brasileira. Liderado pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), o ato reuniu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o pastor Silas Malafaia, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), além de outras lideranças da direita. O alvo central dos discursos foi o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, com pedidos de impeachment, críticas à atuação do Judiciário e acusações de abuso de poder.

O evento teve um significado ainda maior porque aconteceu no Dia da Independência e em plena corrida presidencial. Flávio Bolsonaro tentou transformar a manifestação em uma demonstração de força de sua candidatura e em uma resposta direta ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Supremo. Em seu discurso, afirmou que quem vota em Lula estaria, na sua avaliação, votando também em Alexandre de Moraes, levando para a campanha eleitoral uma estratégia de associação direta entre o presidente e o ministro.

O tom adotado pelo candidato foi agressivo. Flávio prometeu que, caso seja eleito presidente, indicará cinco novos ministros para o Supremo Tribunal Federal e afirmou que Alexandre de Moraes deixará a Corte. Também declarou que seus futuros indicados deverão compartilhar posições conservadoras em temas como aborto, drogas e educação. A declaração mostra que a composição do STF passou a ocupar posição central em sua plataforma eleitoral e que a eleição presidencial está sendo apresentada por sua campanha também como uma disputa pelo futuro da própria Corte.

Em outro momento de forte retórica política, Flávio comparou o processo relacionado aos ataques de 8 de Janeiro a uma “segunda facada” contra seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador classificou o processo como uma “farsa” e apresentou sua candidatura como uma missão de continuidade do projeto político do pai. São afirmações políticas de Flávio Bolsonaro e não constituem, por si mesmas, uma alteração das decisões judiciais já tomadas sobre o caso.

A presença de Tarcísio de Freitas foi um dos pontos mais importantes do ato. O governador paulista, que disputa a reeleição, adotou um discurso menos agressivo do que o de Flávio e evitou transformar sua participação em um ataque pessoal direto a Moraes. Tarcísio defendeu que o Supremo investigue as revelações envolvendo Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, afirmando que ninguém está acima da lei.

A diferença de tom entre os dois políticos é relevante. Enquanto Flávio fez do confronto com Moraes uma das principais bandeiras de sua candidatura presidencial, Tarcísio procurou apresentar sua posição como uma cobrança institucional. O governador afirmou que o Supremo precisa se unir para apurar os fatos e dar uma resposta à sociedade. Também criticou a ausência de uma reação do Senado diante da crise envolvendo pedidos de impeachment de ministros da Corte.

Nikolas Ferreira também adotou uma postura de enfrentamento. O deputado federal e candidato à reeleição transformou o palanque em espaço para atacar Moraes e defender uma reação política da direita. O parlamentar ainda direcionou críticas ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que é acusado pelos bolsonaristas de não avançar com pedidos de impeachment contra ministros do STF.

Silas Malafaia, por sua vez, voltou a colocar no centro do discurso as medidas judiciais que atingiram sua própria atuação. O pastor afirmou que não pretendia caluniar ou difamar, mas apresentar sua versão sobre aquilo que considera perseguição judicial. Ele relembrou que teve o passaporte cancelado e o celular apreendido por determinação de Alexandre de Moraes em 2025, no contexto das investigações sobre a chamada trama golpista.

A composição do palanque revelou, portanto, uma convergência entre diferentes setores da direita: políticos com projetos eleitorais próprios, lideranças religiosas, parlamentares e integrantes do núcleo bolsonarista. Apesar das diferenças entre eles, o combate a Alexandre de Moraes funcionou como elemento de união. O ato também serviu para reforçar a candidatura de Flávio Bolsonaro como principal herdeiro político de Jair Bolsonaro.

Mas a manifestação teve uma característica que não pode ser ignorada: o tamanho do público ficou abaixo dos grandes atos bolsonaristas dos anos anteriores. Estimativa do Monitor do Debate Político da USP e do Cebrap apontou aproximadamente 28,5 mil pessoas na Paulista. O número ficou abaixo das estimativas para atos semelhantes realizados em 2025, de 42,2 mil pessoas, e em 2024, de 45,4 mil. Em 2022, a estimativa havia sido de 32,7 mil.

Isso coloca uma questão importante para a campanha de Flávio Bolsonaro. A presença de nomes de peso no palanque foi significativa, mas a capacidade de mobilização popular não reproduziu a dimensão de algumas manifestações que marcaram o bolsonarismo nos últimos anos. O ato não pode ser considerado um fracasso simplesmente pela quantidade de participantes, mas o número é um indicador relevante quando a manifestação também funciona como demonstração de força eleitoral.

A ausência de Michelle Bolsonaro também chamou atenção. Segundo o R7, ela permaneceu em casa para cuidar de Jair Bolsonaro. A ausência ganhou peso político porque Michelle é uma das figuras mais conhecidas e populares do campo bolsonarista e sua relação com Flávio passou por episódios de tensão durante a formação da campanha.

O ato também teve como pano de fundo a crise envolvendo Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e o Banco Master. Esse caso passou a alimentar uma ofensiva política contra o ministro, especialmente entre integrantes da oposição. É importante, porém, distinguir as acusações políticas das conclusões judiciais: as revelações e suspeitas estão sendo objeto de disputas e investigações, e não podem ser apresentadas automaticamente como prova definitiva de crime ou corrupção.

A crise ganhou ainda mais força nesta semana com a decisão do ministro André Mendonça de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, por suspeitas relacionadas à produção de relatórios de inteligência considerados ilegais. A Segunda Turma do STF posteriormente formou maioria para manter o afastamento, embora o julgamento tenha sido interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes.

Esse cenário transformou o discurso contra o Supremo em uma arma eleitoral poderosa para Flávio Bolsonaro. A campanha tenta apresentar a crise institucional como prova de que o país precisa de uma mudança profunda na relação entre os Poderes. O problema é que a retórica também aumenta a polarização e transforma decisões judiciais, ministros e instituições em elementos permanentes da disputa eleitoral.

No outro lado do confronto está Lula. Enquanto Flávio levou sua campanha para a Paulista e explorou diretamente a crise do Supremo, o presidente participou do desfile oficial de 7 de Setembro em Brasília e adotou o discurso de soberania nacional. A diferença de estratégia foi evidente: de um lado, uma manifestação política com críticas diretas a Moraes e ao governo; do outro, uma cerimônia institucional organizada pelo governo federal.

A Paulista, entretanto, deixou claro que a crise do STF já não é apenas uma disputa jurídica. Ela se transformou em um dos principais assuntos da eleição presidencial. Flávio Bolsonaro encontrou no confronto com Moraes uma bandeira capaz de mobilizar sua base, enquanto Tarcísio tentou ocupar uma posição intermediária, defendendo investigação e resposta institucional sem reproduzir integralmente o tom mais radical do candidato presidencial.

O resultado é uma direita reunida no mesmo palanque, mas não necessariamente unificada em torno da mesma estratégia. Flávio aposta no confronto direto; Tarcísio procura preservar uma imagem mais institucional; Nikolas aposta na mobilização digital e popular; Malafaia atua fortemente no campo religioso; e outras lideranças tentam transformar a eleição para o Senado em instrumento para alterar a correlação de forças entre Legislativo e Supremo.

A manifestação da Paulista, portanto, foi muito mais do que um protesto contra Alexandre de Moraes. Foi uma demonstração de que a crise do STF se tornou uma das principais armas da campanha presidencial de 2026. Flávio Bolsonaro tentou ocupar o espaço político deixado pelo pai, reuniu figuras importantes do campo conservador e apresentou a eleição como uma oportunidade para modificar a composição do Supremo e confrontar aquilo que chama de excessos do Judiciário.

O impacto eleitoral, porém, ainda precisa ser medido. O público estimado em 28,5 mil pessoas demonstra que houve mobilização relevante, mas inferior à de manifestações anteriores. O verdadeiro teste será saber se o discurso de confronto contra Moraes e Lula conseguirá ultrapassar a militância organizada e alcançar o eleitorado que ainda não está fechado com nenhum dos principais candidatos.

No palco da Paulista, Flávio Bolsonaro fez sua aposta: transformar a crise institucional em combustível eleitoral, apresentar-se como sucessor político de Jair Bolsonaro e prometer uma mudança radical na relação entre Presidência, Congresso e Supremo Tribunal Federal. A resposta virá das urnas — e, antes disso, das próximas pesquisas.

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