Governo Lula amplia em 13 vezes pagamentos a representante de empresa chinesa após agendas oficiais na China

Governo Lula amplia em 13 vezes pagamentos a representante de empresa chinesa após agendas oficiais na China

Hospcom, representante brasileira da chinesa Mindray, recebeu R$ 107 milhões do governo federal até agosto de 2026, contra pouco mais de R$ 8 milhões em 2025; Ministério da Saúde afirma que contratação ocorreu por licitação e nega relação com viagens de ministros

Uma forte elevação nos pagamentos realizados pelo governo federal à Hospcom Equipamentos Hospitalares Ltda., representante no Brasil da fabricante chinesa Mindray, passou a chamar atenção após levantamento baseado em dados do Siga Brasil, sistema que acompanha a execução dos gastos da União.

Segundo levantamento publicado pelo Metrópoles, a empresa recebeu pouco mais de R$ 8 milhões durante todo o ano de 2025, enquanto, até 24 de agosto de 2026, os pagamentos acumulados chegaram a aproximadamente R$ 107 milhões. Em valores corrigidos pela inflação, o montante chega a cerca de R$ 108 milhões.

O aumento ocorreu no mesmo período em que integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva realizaram agendas oficiais na China envolvendo empresas do setor de equipamentos médicos.

A coincidência temporal é um dos principais pontos que levantaram questionamentos. Entretanto, é importante separar a existência dos contratos e dos pagamentos de qualquer conclusão sobre eventual favorecimento: o Ministério da Saúde afirma que a contratação ocorreu por meio de licitação e que a empresa ofereceu preços inferiores aos dos concorrentes.

Rui Costa esteve com representantes da Mindray em Xangai

Um dos episódios que antecederam a contratação foi a viagem do então ministro da Casa Civil, Rui Costa, à China, em abril de 2025.

Durante a agenda oficial, Rui Costa participou de reuniões com representantes de empresas, entre elas a Mindray, no Novo Banco de Desenvolvimento, em Xangai. O encontro com representantes da companhia consta da agenda oficial do então ministro.

Meses depois, no final de 2025, ocorreu uma licitação do Ministério da Saúde relacionada ao PAC Saúde.

A Hospcom Equipamentos Hospitalares, representante da Mindray no Brasil, venceu a disputa para fornecer equipamentos destinados à estrutura pública de saúde.

O processo envolveu a aquisição de 978 equipamentos, incluindo aparelhos de anestesia, monitores multiparâmetros, sistemas de vídeo-endoscopia e equipamentos de ultrassom portátil. Os contratos vinculados ao Ministério da Saúde somam aproximadamente R$ 108 milhões.

Um contrato oficial publicado pelo próprio Ministério da Saúde confirma uma contratação da Hospcom no valor global de R$ 48.183.100, para aquisição de aparelhos de anestesia, monitores multiparâmetros, sistema de vídeo-endoscopia e ultrassom portátil. O contrato é o nº 369/2025, referente ao processo nº 25000.204936/2025-03.

A segunda agenda: Alexandre Padilha em Shenzhen

A sequência ganhou outro elemento em março de 2026.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, visitou a sede da Mindray em Shenzhen, na China.

Durante a visita, Padilha afirmou que o Ministério da Saúde atribuía elevada importância à cooperação com a empresa chinesa e reconhecia sua atuação na área de tecnologia médica.

Até março de 2026, porém, os pagamentos feitos pelo governo federal à Hospcom naquele ano somavam apenas aproximadamente R$ 354 mil, segundo os dados analisados pelo Metrópoles.

No mês seguinte à viagem de Padilha, em abril, os pagamentos aumentaram significativamente.

Foram aproximadamente R$ 13 milhões em abril e outros R$ 12 milhões em maio. Ao longo dos meses seguintes, os pagamentos continuaram até alcançar os aproximadamente R$ 107 milhões registrados até 24 de agosto.

É justamente essa sucessão de acontecimentos — reuniões oficiais, licitação, visita à sede da empresa e posterior concentração dos pagamentos — que exige transparência e explicações detalhadas sobre o processo administrativo.

Hospcom passou a liderar pagamentos no setor

Outro dado apresentado pelo levantamento é que a Hospcom passou a aparecer, em 2026, como a empresa que mais recebeu recursos do governo federal pela venda de equipamentos médico-hospitalares no período analisado.

Segundo os dados citados pelo Metrópoles, a empresa superou fornecedores tradicionais do setor, como Philips, Siemens Healthcare, GE Healthcare e Canon Healthcare.

O crescimento também precisa ser observado no contexto empresarial.

Em entrevista realizada em agosto, representantes da Hospcom afirmaram que a companhia havia faturado aproximadamente R$ 240 milhões em todo o Brasil em 2025.

Assim, os R$ 107 milhões pagos pelo governo federal nos primeiros oito meses de 2026 equivaleriam a aproximadamente 45% do faturamento nacional da empresa em todo o ano anterior, segundo cálculo apresentado na reportagem.

O número, por si só, não demonstra irregularidade, mas mostra a dimensão que os contratos públicos passaram a representar para a empresa.

Empresa afirma que participou da disputa e reduziu preços

O fundador da Hospcom, Weverton Coelho, afirmou que a empresa participou regularmente do pregão eletrônico e que houve forte esforço para reduzir os preços.

Segundo ele, a disputa foi baseada em preços e a empresa conseguiu apresentar valores competitivos.

Em declaração à reportagem, Coelho afirmou que o esforço para reduzir os preços foi significativo.

A empresa também informou que a concentração dos pagamentos em determinado período estaria relacionada ao ciclo normal de execução dos contratos: fornecimento dos equipamentos, recebimento, liquidação e pagamento.

Portanto, existe uma explicação administrativa para a concentração dos desembolsos: os pagamentos ocorreriam conforme a entrega e a validação dos produtos contratados.

Ministério da Saúde contesta relação entre viagens e pagamentos

O Ministério da Saúde rejeitou a interpretação de que as viagens oficiais dos ministros à China teriam provocado o aumento dos pagamentos.

A pasta classificou como “descabida” a relação entre as viagens e o crescimento dos gastos.

Segundo o Ministério, os contratos foram resultado de processos licitatórios e os lances vencedores chegaram a ser 49,6% inferiores aos apresentados por concorrentes, o que, segundo a pasta, representaria uma economia de aproximadamente R$ 94,8 milhões aos cofres públicos.

O Ministério também afirmou que os pagamentos são realizados de acordo com a entrega dos produtos e os procedimentos internos de conferência.

Essa explicação é importante porque diferencia duas questões que não são necessariamente iguais: a contratação da empresa e a posterior realização dos pagamentos.

A existência de uma reunião entre autoridades e representantes de uma companhia antes de uma licitação não significa automaticamente que a licitação tenha sido direcionada.

Da mesma forma, a concentração de pagamentos depois de uma visita oficial não prova, isoladamente, que a visita tenha provocado a contratação.

Casa Civil também nega ligação

A Casa Civil afirmou que a agenda de Rui Costa na China teve caráter institucional e envolveu diversas empresas, e não exclusivamente a Mindray.

Segundo o órgão, houve posteriormente uma reunião em Brasília, em julho de 2025, com representantes da empresa, destinada à apresentação de soluções e planos relacionados à pauta de hospitais inteligentes.

A Casa Civil afirmou que a participação de seus representantes nessas agendas não teve relação com processos de contratação ou pagamentos.

A posição oficial, portanto, é de que os contatos faziam parte de uma agenda institucional de aproximação e prospecção tecnológica.

Mindray também nega relação com as viagens

A própria Mindray declarou que o crescimento dos negócios envolvendo sua representante brasileira decorre de operações comerciais e processos específicos de contratação.

A companhia também negou estabelecer relação entre seus negócios e as agendas oficiais de autoridades brasileiras no exterior.

A Hospcom, por sua vez, afirmou que a concentração dos pagamentos está relacionada ao ciclo administrativo dos contratos.

Um ponto que merece esclarecimento: as especificações técnicas

Um dos aspectos que merece atenção no caso é uma declaração atribuída a Gabriel Coelho, filho de Weverton Coelho, em entrevista à revista Exame.

Segundo o relato publicado pelo Metrópoles, Gabriel afirmou que a empresa participa da definição das especificações técnicas antes mesmo da licitação.

Esse tipo de participação pode ter diferentes significados em processos de compras públicas. Empresas fornecedoras podem apresentar i

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