
Hamas aceita roteiro para desarmamento em Gaza, mas implementação depende de aval de Israel
Grupo palestino concorda com plano mediado por Estados Unidos, Turquia, Egito e Catar; acordo prevê retirada gradual das tropas israelenses, governo tecnocrático e força internacional para administrar a Faixa de Gaza
O movimento palestino Hamas concordou com um amplo roteiro internacional que prevê seu desarmamento gradual como parte de um processo destinado a encerrar a guerra na Faixa de Gaza. O entendimento representa um dos avanços diplomáticos mais significativos desde o início do conflito e pode abrir caminho para uma nova fase de estabilidade na região, embora sua implementação ainda dependa da aceitação de Israel e do cumprimento de uma série de etapas previstas no acordo.
O plano foi negociado com mediação dos Estados Unidos, Turquia, Egito e Catar, países que participaram das conversas ao longo dos últimos meses. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou publicamente que um entendimento havia sido alcançado, afirmando que o processo poderá colocar fim ao domínio militar do Hamas sobre Gaza e criar condições para a reconstrução do território.
Apesar do anúncio, autoridades israelenses demonstraram cautela. O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu considera que o texto ainda não atende plenamente às exigências de Israel, que insiste no desarmamento completo do Hamas e na desmilitarização definitiva da Faixa de Gaza antes de qualquer retirada militar.
Como funcionará o acordo
O roteiro estabelece uma implementação gradual, organizada em diversas fases. O primeiro passo dependerá da suspensão permanente das operações militares israelenses, da retirada das tropas posicionadas em Gaza e da ampliação da entrada de ajuda humanitária destinada à população civil.
Somente após essas medidas iniciais começará a etapa de reorganização política e administrativa do território.
Está prevista a criação do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), composto por tecnocratas palestinos responsáveis pela administração civil, pela reconstrução da infraestrutura destruída durante a guerra e pela coordenação dos serviços públicos.
Ao mesmo tempo, uma Força Internacional de Estabilização (ISF) será enviada para atuar na segurança da região durante o período de transição, trabalhando em conjunto com uma nova força policial palestina.
Desarmamento será gradual
O ponto mais sensível do acordo é justamente o desarmamento do Hamas.
Segundo o roteiro, inicialmente serão recolhidas as armas utilizadas pela polícia de Gaza, que passarão ao controle do novo comitê administrativo.
Posteriormente terá início a retirada do armamento pesado pertencente ao Hamas e às demais facções palestinas.
Também estão previstos:
- inutilização de fábricas de armamentos;
- fechamento das estruturas militares;
- armazenamento supervisionado das armas pesadas;
- desativação da extensa rede de túneis construída pelo grupo ao longo dos anos.
Fontes ligadas às negociações afirmam que esse processo poderá levar entre aproximadamente 200 e 350 dias, embora esse cronograma detalhado não apareça oficialmente na versão do acordo divulgada.
O Hamas aceitou armazenar seu arsenal sob supervisão palestina, mas não pretende entregar as armas diretamente às forças israelenses ou a governos estrangeiros.
Hamas condiciona implementação
Representantes do Hamas afirmam que o documento constitui um pacote único e indivisível.
Segundo integrantes da organização, o desarmamento somente ocorrerá caso Israel cumpra integralmente os compromissos assumidos, especialmente:
- cessar definitivamente os ataques;
- retirar todas as tropas da Faixa de Gaza;
- permitir ampla entrada de alimentos, medicamentos e ajuda humanitária;
- encerrar as operações militares no território.
Os negociadores do grupo afirmam que essas medidas são consideradas essenciais para garantir a segurança da população palestina e permitir o início da reconstrução.
Israel mantém exigências
Embora tenha acompanhado as negociações, Israel ainda não aderiu formalmente ao entendimento.
O governo israelense sustenta que não aceitará retirar suas tropas das áreas atualmente ocupadas enquanto não houver garantias concretas de que o Hamas perdeu completamente sua capacidade militar.
Autoridades israelenses defendem que o grupo entregue integralmente seu arsenal, elimine sua infraestrutura militar e aceite a desmilitarização permanente da Faixa de Gaza.
Na avaliação do gabinete de Benjamin Netanyahu, o texto atualmente negociado ainda apresenta lacunas em relação a esses objetivos.
Papel dos mediadores
Os Estados Unidos, Egito, Turquia e Catar atuarão como garantidores políticos do acordo.
Além da mediação diplomática, caberá aos quatro países acompanhar o cumprimento das etapas previstas, supervisionar a transição administrativa e apoiar financeiramente a reconstrução da Faixa de Gaza.
O Conselho da Paz, organismo criado pelo governo norte-americano para acompanhar o cessar-fogo, deverá monitorar a implementação do cronograma juntamente com os demais mediadores.
Reconstrução de Gaza
Outro eixo central do acordo é a recuperação da infraestrutura devastada pela guerra.
O novo governo tecnocrático palestino ficará responsável pela administração civil da Faixa de Gaza, incluindo:
- reconstrução de hospitais;
- recuperação de escolas;
- restauração do sistema de abastecimento de água;
- reconstrução da rede elétrica;
- reorganização dos serviços públicos;
- coordenação da distribuição da ajuda internacional.
A expectativa é que organismos internacionais e países doadores participem do financiamento desse processo caso o cessar-fogo seja mantido.
Mudança histórica para o Hamas
Caso seja efetivamente implementado, o entendimento representa uma transformação histórica para o Hamas.
Desde sua fundação, o grupo adotou a resistência armada como um de seus principais pilares políticos e militares. Aceitar um processo formal de desarmamento significa uma mudança estratégica sem precedentes, condicionada ao fim das operações militares israelenses e ao estabelecimento de uma nova estrutura administrativa palestina em Gaza.
Especialistas avaliam que, embora o acordo represente uma oportunidade concreta para reduzir a violência e iniciar a reconstrução do território, sua execução dependerá da confiança entre as partes e do cumprimento rigoroso das etapas previstas, tornando os próximos meses decisivos para o futuro da Faixa de Gaza.