
INQUÉRITO DAS FAKE NEWS CHEGA A MAIS DE SETE ANOS, PRESSIONA ALEXANDRE DE MORAES E SE TRANSFORMA EM SÍMBOLO DA CRISE NO STF
Criado em 2019 para apurar ataques contra o Supremo, procedimento relatado por Alexandre de Moraes acumulou controvérsias, ampliou seu alcance e agora entrou no centro do conflito entre Moraes, André Mendonça e Edson Fachin
O Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, atravessa mais de sete anos de existência e voltou ao centro de uma crise que agora atinge diretamente a composição e o funcionamento do Supremo Tribunal Federal (STF).
Criado em março de 2019, o procedimento nasceu para investigar notícias fraudulentas, ameaças, denunciações caluniosas e ataques à honra e à segurança dos ministros da Corte e de seus familiares. Com o passar dos anos, porém, a investigação ganhou novos desdobramentos, incorporou diferentes episódios e passou a ser um dos procedimentos mais controversos da história recente do tribunal.
O inquérito tem como relator o ministro Alexandre de Moraes, justamente um dos magistrados que aparece repetidamente como alvo dos ataques investigados.
Agora, em setembro de 2026, o próprio procedimento passou a abrigar uma situação extraordinária: Moraes utilizou o inquérito para encaminhar um pedido de investigação contra outro ministro do STF, André Luiz de Almeida Mendonça.
A iniciativa provocou uma nova reação institucional. O presidente do Supremo, Luiz Edson Fachin, retirou o pedido do Inquérito das Fake News e determinou que a questão fosse analisada em outro procedimento.
O movimento de Fachin representa uma tentativa de impedir que uma disputa entre integrantes da própria Corte permaneça dentro de um inquérito que tem Moraes como relator.
UM INQUÉRITO CRIADO EM 2019
O Inquérito 4.781 foi instaurado em 14 de março de 2019, por determinação da Presidência do Supremo.
A justificativa apresentada na época incluía a existência de notícias fraudulentas e ameaças contra ministros e familiares, além da suspeita de esquemas destinados a financiar e disseminar conteúdo nas redes sociais com o objetivo de atingir a independência do Judiciário.
O fundamento utilizado para a abertura foi o artigo 43 do Regimento Interno do STF.
Desde o início, porém, o procedimento provocou intenso debate jurídico.
A principal controvérsia envolvia a concentração, dentro do próprio Supremo, de funções relacionadas à instauração e à condução da investigação.
Ao longo dos anos, o inquérito permaneceu aberto enquanto novos episódios eram incorporados ao seu universo.
O resultado foi um procedimento que atravessou diferentes momentos políticos do país e chegou a 2026 ainda produzindo novos desdobramentos.
ALEXANDRE DE MORAES ASSUMIU O CENTRO DA INVESTIGAÇÃO
Como relator, Alexandre de Moraes passou a ocupar posição central no desenvolvimento do inquérito.
O ministro autorizou diligências, determinou medidas contra investigados e passou a conduzir uma série de apurações relacionadas a ataques contra instituições e ministros.
A investigação também alcançou redes sociais, grupos políticos e pessoas acusadas de disseminar informações consideradas fraudulentas ou ofensivas ao Supremo.
Com isso, o nome de Moraes tornou-se inseparável da história do inquérito.
Ao mesmo tempo, o próprio ministro passou a ser alvo recorrente das críticas de setores políticos e jurídicos que questionam os limites da atuação do Supremo e a duração do procedimento.
MAIS DE SETE ANOS DEPOIS, O INQUÉRITO AINDA ESTÁ VIVO
O tempo de existência passou a ser um dos principais pontos de discussão.
Um procedimento aberto em 2019 continua produzindo decisões e novos episódios em 2026.
A longevidade do inquérito passou a ser questionada inclusive dentro do próprio STF.
O atual presidente da Corte, Edson Fachin, defende o encerramento do procedimento e a reorganização das investigações que permanecem em andamento.
A discussão ganhou ainda mais força porque o inquérito passou a ser utilizado para tratar de um conflito entre dois ministros do próprio Supremo.
A CRISE VORCARO-MORAES MUDOU O CENÁRIO
A situação se agravou com as revelações envolvendo Daniel Bueno Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Investigações da Polícia Federal passaram a examinar mensagens e contatos mantidos por Vorcaro com diferentes autoridades.
Entre os nomes mencionados no material investigado está o de Alexandre de Moraes.
O ministro André Mendonça, responsável por procedimentos relacionados às operações Compliance Zero e Sem Desconto, passou a lidar diretamente com parte dessas informações.
Mendonça determinou o levantamento do sigilo de documentos relacionados ao caso.
A divulgação dos materiais aumentou a pressão sobre Moraes e desencadeou uma reação do ministro.
MORAES PASSA DA POSIÇÃO DE ALVO PARA A DE ACUSADOR
Em 3 de setembro de 2026, Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do STF um pedido de investigação contra André Mendonça.
No documento de 20 páginas, Moraes afirmou haver “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade e favorecimento a determinados grupos políticos por parte de Mendonça.
As acusações estão relacionadas à atuação de Mendonça como relator de processos ligados às operações Sem Desconto, que investiga fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e Compliance Zero, relacionada ao Banco Master.
Moraes também questionou a maneira como Mendonça conduziu determinados atos investigativos e mencionou supostas irregularidades na atuação do ministro.
Essas acusações são alegações apresentadas por Moraes e ainda não representam uma conclusão judicial definitiva contra Mendonça.
O RELATÓRIO DA POLÍCIA FEDERAL
Um dos elementos utilizados na manifestação de Moraes foi um conjunto de relatórios de inteligência produzidos no âmbito da Polícia Federal.
Os documentos levantam questionamentos sobre a atuação de Mendonça nas investigações.
Entre as hipóteses apresentadas estão suposta interferência na condução das investigações policiais, questionamentos sobre cadeia de custódia, condução de tratativas de colaboração premiada e possível direcionamento de determinados alvos.
O documento também menciona Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, como pessoas que teriam sido alvo de medidas determinadas ou influenciadas pela atuação de Mendonça.
Entretanto, existe uma questão fundamental: os documentos são classificados como relatórios de inteligência, e não como decisões judiciais ou provas produzidas especificamente para sustentar uma acusação criminal.
Essa diferença passou a ter enorme importância no conflito entre os ministros.
FACHIN RETIRA O PEDIDO DO INQUÉRITO
Diante da iniciativa de Moraes, Edson Fachin decidiu retirar o pedido de investigação contra Mendonça do Inquérito das Fake News.
A decisão representa um ponto de inflexão.
O procedimento que há mais de sete anos é relatado por Moraes não será utilizado para conduzir diretamente a acusação apresentada pelo próprio relator contra outro ministro.
Fachin determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, Andrei Augusto Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, apresentem informações por escrito.
A decisão abriu uma nova etapa para a análise do episódio.
A DECISÃO DE FACHIN NÃO SIGNIFICA ABSOLVIÇÃO
É importante separar os fatos.
Ao retirar o pedido do Inquérito das Fake News, Fachin não declarou que Mendonça é inocente das acusações feitas por Moraes.
Também não determinou que a investigação está proibida.
O presidente do STF apenas retirou a questão daquele procedimento e estabeleceu outro caminho para sua análise.
Isso significa que a PGR e Mendonça terão oportunidade de se manifestar antes que qualquer decisão sobre a admissibilidade das acusações seja tomada.
A DISPUTA ENTRE DOIS MINISTROS
O episódio é extraordinário porque coloca dois integrantes do Supremo em posições opostas.
Alexandre de Moraes acusa André Mendonça de possíveis irregularidades.
Mendonça, por sua vez, passou a atuar sobre informações relacionadas a uma investigação que envolve contatos de Daniel Vorcaro com Moraes.
O conflito deixou de ser uma divergência jurídica comum.
Passou a envolver diretamente a credibilidade e a independência dos próprios integrantes da Corte.
E é nesse ponto que Edson Fachin assume papel decisivo.
FACHIN TENTA TIRAR O STF DO CENTRO DO CONFLITO
Como presidente do Supremo, Fachin precisa administrar uma situação institucional extremamente delicada.
Se o Inquérito das Fake News permanecesse como instrumento para a acusação de Moraes contra Mendonça, haveria uma situação na qual um ministro seria responsável por relatar um procedimento utilizado para investigar seu próprio colega a partir de uma acusação apresentada por ele.
A decisão de Fachin altera esse cenário.
O presidente do STF cria uma separação entre o antigo inquérito e o novo conflito.
A medida também reforça a necessidade de estabelecer um procedimento capaz de assegurar manifestação das partes e análise independente dos elementos apresentados.
A LONGEVIDADE DO INQUÉRITO VOLTA A SER QUESTIONADA
A crise atual reacendeu uma pergunta que acompanha o Inquérito das Fake News desde os primeiros anos: até quando um procedimento dessa natureza deve permanecer aberto?
Mais de sete anos depois de sua criação, o inquérito continua produzindo efeitos.
Para seus críticos, a duração e a amplitude do procedimento demonstram que ele se tornou excessivamente abrangente.
Para seus defensores, a permanência da investigação se justifica diante da continuidade dos ataques e das ameaças contra instituições e ministros.
A questão, agora, ganhou uma dimensão adicional: o próprio presidente do STF defende que o procedimento seja encerrado.
O INQUÉRITO QUE NASCEU PARA PROTEGER O STF AGORA AMEAÇA AMPLIAR SUA CRISE INTERNA
Existe uma ironia institucional no atual momento.
O Inquérito das Fake News foi criado para proteger a Corte contra ataques e ameaças.
Sete anos depois, ele próprio se tornou parte de uma das maiores crises internas enfrentadas pelo tribunal.
O procedimento agora aparece no centro de uma disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, dois ministros com posições diferentes sobre a condução das investigações relacionadas ao Banco Master.
E Edson Fachin precisou intervir para retirar a acusação do inquérito.
O PAPEL DA PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Outro personagem fundamental será Paulo Gonet, procurador-geral da República.
A PGR deverá analisar as acusações formuladas por Moraes e os elementos utilizados para fundamentá-las.
Gonet também terá de considerar a natureza dos documentos produzidos pela Polícia Federal e verificar se existem elementos suficientes para justificar uma investigação formal.
A manifestação da PGR será importante para definir se o episódio seguirá adiante ou perderá força institucional.
A POLÍCIA FEDERAL TAMBÉM ENTROU NA DISPUTA
A situação também envolve diretamente Andrei Augusto Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.
Os relatórios utilizados na controvérsia foram produzidos dentro da estrutura da PF.
Moraes questionou a atuação de Mendonça com base nesses documentos, enquanto o próprio conteúdo dos relatórios passou a ser discutido quanto à metodologia e ao valor que pode ter em um eventual procedimento.
A PF, portanto, também se encontra sob pressão para esclarecer a origem, finalidade e natureza dos documentos.
UMA CRISE QUE ULTRAPASSA O BANCO MASTER
O caso começou a partir das investigações relacionadas ao Banco Master e às relações de Daniel Vorcaro com diferentes autoridades.
Mas a crise rapidamente ultrapassou o setor financeiro.
Hoje, estão envolvidos no debate:
Alexandre de Moraes, ministro do STF;
André Mendonça, ministro do STF e relator de investigações relacionadas às operações Sem Desconto e Compliance Zero;
Edson Fachin, presidente do STF;
Paulo Gonet, procurador-geral da República;
Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal;
Daniel Vorcaro, banqueiro e ex-controlador do Banco Master;
e Davi Alcolumbre, presidente do Senado, citado nos documentos relacionados às acusações contra Mendonça.
Cada um aparece em uma dimensão diferente da crise.
A QUESTÃO CENTRAL: LIMITES DO PODER
O debate sobre o Inquérito das Fake News já não é apenas sobre notícias falsas.
Ele passou a envolver uma discussão maior sobre limites do poder judicial, duração de investigações, separação entre inteligência e prova, controle institucional e responsabilidade de ministros do Supremo.
O caso também reacende o debate sobre quem fiscaliza uma Corte que, constitucionalmente, ocupa o topo do sistema judiciário.
Quando um ministro acusa outro, a necessidade de procedimentos transparentes se torna ainda maior.
O STF DIANTE DE UM TESTE INSTITUCIONAL
O Supremo agora enfrenta uma situação que não pode ser resolvida apenas por discursos ou decisões individuais.
A Corte precisará demonstrar que consegue investigar alegações envolvendo seus próprios integrantes sem corporativismo e sem transformar divergências internas em acusações políticas.
A decisão de Edson Fachin foi justamente nessa direção: retirar a acusação de Moraes do Inquérito das Fake News e estabelecer um procedimento específico para a análise.
Agora caberá à PGR, a Mendonça e às demais autoridades envolvidas apresentar suas manifestações.
O FUTURO DO INQUÉRITO DAS FAKE NEWS
Depois de mais de sete anos, o destino do Inquérito 4.781 voltou a ser colocado em discussão.
Seu encerramento, defendido por Fachin, poderia representar o fim de um dos procedimentos mais longos e controversos da história do Supremo.
Mas o conflito atual demonstra que seus efeitos ainda estão longe de desaparecer.
O inquérito nasceu em 2019 para proteger a instituição contra ataques externos.
Em 2026, tornou-se também cenário de uma disputa interna envolvendo dois ministros.
Essa transformação explica por que o procedimento passou a ser visto não apenas como uma investigação sobre fake news, mas como um dos principais símbolos da crise de confiança que hoje atinge o Supremo Tribunal Federal.
CONCLUSÃO
O episódio envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça e Edson Fachin coloca o STF diante de uma situação sem precedentes recentes.
Um ministro apresentou acusações contra outro.
O pedido foi inserido em um inquérito que o próprio acusador relata.
O presidente da Corte retirou o caso desse procedimento e determinou uma nova tramitação.
Ao mesmo tempo, documentos de inteligência da Polícia Federal passaram a ser discutidos como fundamento de uma acusação, enquanto a própria natureza desses documentos é questionada.
O que acontecerá agora dependerá das manifestações da Procuradoria-Geral da República, de André Mendonça, da Polícia Federal e das decisões de Edson Fachin.
O ponto mais importante, entretanto, ultrapassa os nomes envolvidos.
Depois de mais de sete anos, o Inquérito das Fake News deixou de ser apenas uma investigação sobre ataques ao Supremo.
Ele se tornou um teste sobre os próprios limites do poder da Corte.
E a resposta a esse teste terá consequências não apenas para Alexandre de Moraes, André Mendonça ou Edson Fachin, mas para a credibilidade do Supremo Tribunal Federal perante toda a sociedade brasileira.