Trump escolhe aliada da Casa Branca para comandar FDA em meio à crise interna da agência

Trump escolhe aliada da Casa Branca para comandar FDA em meio à crise interna da agência

Médica e assessora de políticas domésticas, Heidi Overton é indicada para liderar órgão responsável pela fiscalização de medicamentos, vacinas, alimentos e outros produtos; nomeação ocorre após saída de dirigentes e crescente pressão política sobre a agência

WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escolheu Heidi Overton, uma de suas assessoras na Casa Branca, para assumir o comando da Food and Drug Administration (FDA), agência responsável por supervisionar uma parcela gigantesca dos produtos que chegam diariamente aos consumidores americanos.

A escolha ocorre em um momento particularmente delicado para a instituição. A FDA atravessa uma fase de instabilidade administrativa, depois da saída de integrantes de sua cúpula, conflitos internos e críticas provenientes tanto do setor farmacêutico quanto de setores do próprio Partido Republicano.

Overton, atualmente vice-assessora de Trump para políticas domésticas, tornou-se uma figura recorrente nas discussões de saúde promovidas pela administração. Sua atuação envolve temas politicamente sensíveis, como vacinação, preços de medicamentos, acesso a tratamentos e políticas relacionadas a substâncias psicodélicas.

A indicação, segundo pessoas familiarizadas com o assunto citadas pela Bloomberg, ainda precisará passar pelo processo de confirmação no Senado.

Uma escolha feita dentro da própria Casa Branca

A trajetória de Overton ajuda a explicar a escolha de Trump.

Formada em medicina, ela possui doutorado em investigação clínica pela Universidade Johns Hopkins e já havia trabalhado durante o primeiro governo Trump como bolsista da Casa Branca. Posteriormente, passou pelo America First Policy Institute, organização associada ao universo político conservador que ajudou a formular propostas para uma eventual segunda administração Trump.

Agora, a médica volta ao centro da estrutura governamental, desta vez diante de uma das posições mais sensíveis da política de saúde americana.

Nem Overton nem a Casa Branca haviam respondido aos pedidos de comentário sobre a indicação até a publicação das informações.

A escolha também chama atenção justamente porque Overton não possui um histórico conhecido de protagonismo em disputas regulatórias da indústria farmacêutica.

Para Brian Abrahams, chefe de pesquisa global de saúde do RBC Capital Markets, citado na reportagem, a nomeação não representa, à primeira vista, uma ruptura radical com o setor.

A ausência de posições públicas particularmente controversas sobre aprovação de medicamentos ou reformas profundas na estrutura da FDA pode, segundo a análise reproduzida pela Bloomberg, abrir espaço para que as equipes técnicas tenham maior autonomia.

Essa possibilidade, porém, dependerá de quem ocupará os demais postos de comando da agência.

Uma agência marcada pela turbulência

A chegada de Overton ocorre depois de meses de forte movimentação na FDA.

O ex-comissário Marty Makary deixou o cargo em maio, após aproximadamente 13 meses à frente da agência. Seu período de comando foi marcado por conflitos internos e resistência de empresas de biotecnologia.

Depois de sua saída, outros integrantes da direção também abandonaram seus postos.

O problema, portanto, não é apenas encontrar um novo nome para ocupar o gabinete principal. A administração Trump precisa reconstruir uma estrutura de comando capaz de conduzir uma agência que lida simultaneamente com interesses científicos, econômicos, políticos e regulatórios.

A FDA exerce influência sobre setores que representam aproximadamente um quinto dos gastos dos consumidores americanos.

Seu alcance vai muito além dos medicamentos tradicionais.

A agência participa da fiscalização de vacinas, alimentos, terapias genéticas, medicamentos para doenças raras, produtos relacionados à nicotina, cigarros eletrônicos e uma série de outros produtos que fazem parte do cotidiano da população.

É justamente essa dimensão que transforma a sucessão no comando da FDA em uma questão estratégica para o governo Trump.

Vacinas, aborto e medicamentos: temas que chegaram ao Congresso

Overton também encontrará uma agência submetida a pressões políticas cada vez mais explícitas.

Senadores republicanos já fizeram críticas públicas à FDA por decisões relacionadas à prescrição remota de medicamentos para aborto e por procedimentos envolvendo medicamentos destinados ao tratamento de doenças raras.

A discussão sobre vacinas é outro ponto de grande relevância.

O tema ocupa espaço importante dentro da agenda do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., cuja relação com a FDA e outras instituições sanitárias do governo vem sendo observada atentamente.

Overton já apareceu ao lado de Trump em anúncios relacionados à política de vacinação e a outras iniciativas de saúde.

Sua experiência dentro da Casa Branca poderá, portanto, ser tão importante quanto sua formação médica.

A sombra de Robert F. Kennedy Jr.

A futura chefe da FDA também terá de trabalhar dentro de uma estrutura política que inclui Kennedy, secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

Kennedy é uma das figuras mais controversas da atual política sanitária americana e mantém uma relação complexa com setores da comunidade médica, indústria farmacêutica e Congresso.

O funcionamento da FDA dependerá, em grande medida, da relação entre a agência, a Secretaria de Saúde e a Casa Branca.

É nesse cenário que a indicação de uma pessoa que já trabalha diretamente com Trump ganha significado político e administrativo.

Overton conhece o funcionamento interno da Casa Branca, participa das discussões presidenciais e tem experiência com as prioridades do atual governo.

Ao mesmo tempo, justamente por vir de dentro do núcleo político da administração, sua atuação será acompanhada de perto por parlamentares, pesquisadores, indústria e organizações de defesa da saúde pública.

O Senado será o próximo teste

Antes de assumir definitivamente o comando da FDA, Overton terá de enfrentar a sabatina no Senado.

O processo será conduzido pela Comissão de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões, presidida pelo senador republicano Bill Cassidy, da Louisiana.

Cassidy é médico gastroenterologista e possui uma relação tensa tanto com Trump quanto com Robert F. Kennedy Jr.

A circunstância adiciona uma camada política ao processo de confirmação.

A sabatina deverá oferecer aos senadores a oportunidade de questionar Overton sobre vacinação, medicamentos, regulamentação, aprovação de produtos, aborto, indústria farmacêutica e autonomia científica da FDA.

Também poderá revelar até que ponto ela pretende manter a estrutura tradicional da agência ou acompanhar as prioridades políticas da atual administração.

O desafio de reconstruir a confiança

Mais do que ocupar uma cadeira, Overton terá de tentar recuperar estabilidade em uma instituição que perdeu parte de sua cúpula em pouco tempo.

A FDA precisa conciliar duas forças que frequentemente entram em choque: a necessidade de decisões regulatórias baseadas em evidências técnicas e científicas e as pressões políticas exercidas pelo governo, pelo Congresso, pela indústria e por grupos de interesse.

Tradicionalmente, o comissário da agência não participa diretamente das decisões específicas de aprovação de produtos. A estrutura técnica possui diferentes divisões especializadas, cada uma responsável por áreas distintas.

Mas os nomes que ocuparão essas posições ainda são aguardados.

Entre elas estão as estruturas responsáveis pela regulamentação de medicamentos e pela avaliação de terapias genéticas e vacinas.

Essas futuras nomeações serão observadas atentamente pela indústria farmacêutica e pelo setor de biotecnologia.

Uma administração ainda em formação

A escolha de Heidi Overton, portanto, não encerra a crise de liderança da FDA. Ela abre uma nova etapa.

A médica chega com conhecimento da Casa Branca, experiência em políticas de saúde e proximidade com Trump, mas encontrará uma instituição que precisa preencher outros postos estratégicos e administrar disputas que ultrapassam os limites da própria agência.

De um lado, haverá a pressão da indústria por previsibilidade e estabilidade regulatória. De outro, parlamentares e setores do governo cobrarão mudanças em áreas consideradas prioritárias pela administração.

No meio desse cenário estará a FDA, responsável por decidir, fiscalizar e supervisionar produtos que afetam diretamente a saúde e a vida cotidiana de milhões de americanos.

A trajetória de Overton dentro do governo poderá ajudá-la a navegar pelos corredores políticos de Washington. O desafio, porém, será transformar essa proximidade com a Casa Branca em capacidade de comando de uma agência cuja credibilidade depende, em grande parte, da confiança em seus processos científicos e regulatórios.

Se confirmada pelo Senado, ela assumirá uma FDA em um momento em que a disputa pelo controle da política de saúde americana já não se limita aos laboratórios, aos hospitais ou aos gabinetes técnicos: ela também se tornou uma batalha política dentro do próprio governo Trump.

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