Janja enfrenta críticas dentro do próprio PT e reafirma que continuará na campanha de Lula

Janja enfrenta críticas dentro do próprio PT e reafirma que continuará na campanha de Lula

Kátia Abreu questiona protagonismo da primeira-dama e defende mais espaço para Geraldo Alckmin; assessoria de Janja afirma que sua participação é legítima e respaldada por Lula

A atuação de Janja da Silva na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a ser alvo de críticas dentro do próprio campo político do presidente após o resultado do primeiro turno das eleições de 2026. A ex-senadora Kátia Abreu (PT-TO) questionou o espaço ocupado pela primeira-dama e defendeu que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) tenha maior protagonismo na busca por votos.

A crítica foi feita durante uma reunião de coordenadores da campanha, em Brasília. Segundo relatos divulgados pela imprensa, Kátia Abreu recebeu aplausos ao defender uma mudança na estratégia e resumiu sua preocupação em uma pergunta: “Nesta hora, qual é a prioridade: aparecer ou eleger o marido?” Para ela, o objetivo central deveria ser ampliar as chances eleitorais de Lula, e não aumentar a exposição individual de integrantes da campanha.

Kátia Abreu pede “menos Janja e mais Alckmin”

Kátia Abreu afirmou que a crítica não seria uma questão de gênero, mas de estratégia eleitoral. Segundo ela, a presença de Janja nos palanques não estaria produzindo o efeito esperado em termos de votos.

A ex-senadora também avaliou que Alckmin poderia contribuir especialmente na aproximação com São Paulo, empresários e o mercado financeiro. Para Kátia, a campanha deveria explorar mais a imagem do vice-presidente justamente para alcançar setores que podem ser importantes no segundo turno.

A declaração ganhou peso porque Kátia Abreu é atualmente coordenadora da campanha de Lula no Tocantins e, portanto, não se trata de uma crítica vinda de uma adversária política. Ela se filiou ao PT neste ano, depois de passagens por DEM, PP e MDB.

Janja responde: “continuarei na campanha do meu marido”

Depois da repercussão, a assessoria de Janja afirmou que ela continuará participando da campanha de Lula.

A equipe da primeira-dama declarou que sua participação é “legítima” e “sempre respaldada pelo presidente Lula”. A justificativa é que as aparições públicas ocorrem com autorização do próprio candidato.

Segundo as informações divulgadas, Janja também enviou uma mensagem a Kátia Abreu afirmando que não pretende reduzir sua participação. Kátia, posteriormente, evitou transformar o episódio em uma disputa pessoal e disse que não queria que a discussão virasse uma “fofoca”.

O problema político por trás da discussão

A discussão acontece depois de um primeiro turno difícil para Lula. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa da eleição à frente do petista, aumentando a pressão dentro da campanha para modificar comunicação, estratégia e presença pública no segundo turno.

Reportagens também apontaram que outros integrantes da campanha passaram a defender maior participação de Alckmin e uma revisão da estratégia de comunicação. O próprio Lula reconheceu problemas na condução da campanha do primeiro turno, classificando-a como a menos organizada de suas campanhas desde 1989.

Nesse contexto, a pergunta de Kátia Abreu ganhou dimensão maior: qual deve ser a função política de cada integrante da campanha neste momento?

E as viagens, hotéis e gastos?

As críticas à primeira-dama também frequentemente envolvem suas viagens nacionais e internacionais, hospedagens, estrutura de segurança e despesas relacionadas às agendas.

Aqui é necessário separar crítica política de fato comprovado. Não há base para afirmar que Janja tenha gasto bilhões de reais em viagens. Uma informação viral segundo a qual Lula e Janja teriam consumido R$ 7,35 bilhões em viagens foi desmentida: o valor correspondia às despesas de viagens de toda a estrutura do governo federal, e não do casal. Entre 2023 e 2026, as despesas de viagens vinculadas à Presidência somaram cerca de R$ 150 milhões, sem que o Portal da Transparência individualize quanto corresponde exclusivamente a Lula ou Janja.

Também é fato que o TCU arquivou investigações sobre despesas relacionadas a viagens de Janja, após considerar regulares as prestações analisadas.

Janja, por sua vez, já declarou que as críticas sobre seus gastos no exterior são, em sua avaliação, “misoginia pura” e afirmou que algumas viagens e deslocamentos seguem protocolos de segurança. Ela também sustenta que exerce atividades relacionadas a pautas sociais e que sua atuação é pública e transparente.

A crítica que permanece

O debate, portanto, não precisa depender de números exagerados ou informações não comprovadas. A questão política legítima levantada por Kátia Abreu é outra: a presença de Janja na campanha está ajudando Lula a conquistar novos eleitores ou está ocupando um espaço que poderia ser utilizado por outras figuras capazes de ampliar a campanha para além de sua base tradicional?

Essa é uma discussão estratégica, especialmente depois do resultado do primeiro turno.

A crítica de Kátia Abreu é particularmente significativa porque veio de dentro da própria campanha petista. Ela não pediu a retirada de Janja por uma questão pessoal; argumentou que, neste momento, o objetivo deveria ser concentrar esforços na eleição de Lula e ampliar a presença de nomes como Geraldo Alckmin.

Por outro lado, Janja deixou claro que não pretende recuar e afirma contar com o aval do marido.

O segundo turno, portanto, começa também com uma disputa interna sobre quem deve ocupar o centro do palco na campanha de Lula: a primeira-dama, o vice-presidente, lideranças regionais ou o próprio candidato.

E a pergunta feita por Kátia Abreu continua sendo o ponto central do debate: a prioridade é aparecer ou eleger Lula?

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