Jaques Wagner tentou vender terreno de R$ 15,8 milhões após operação da PF no Caso Master

Jaques Wagner tentou vender terreno de R$ 15,8 milhões após operação da PF no Caso Master

Negociação de imóvel de 51 mil m² foi apresentada em cartório um dia depois de senador ser alvo da Polícia Federal; venda acabou bloqueada por decisão do STF

O senador Jaques Wagner (PT-BA) tentou concluir a venda de um terreno avaliado em R$ 15,8 milhões um dia depois de ser alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga supostas irregularidades relacionadas ao Banco Master. A transação, porém, acabou interrompida após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) determinar a indisponibilidade do imóvel.

A informação consta de documentos obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo e foi divulgada pelo Metrópoles. O terreno possui aproximadamente 51 mil metros quadrados e está localizado na região metropolitana de Salvador, na Bahia.

Segundo as informações divulgadas, o imóvel teria sido adquirido por Jaques Wagner em 2000. A negociação mais recente envolvia um grupo de empresas do setor de incorporação imobiliária. Pela transação, o senador teria recebido R$ 2 milhões à vista.

A escritura de venda foi apresentada em um cartório da comarca de Camaçari em 19 de junho, um dia após a deflagração da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que teve Wagner entre os alvos de mandados de busca e apreensão.

A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Posteriormente, o cartório recebeu a determinação judicial para bloquear o imóvel, impedindo a conclusão do registro da venda.

O documento registral aponta que a indisponibilidade foi averbada em cumprimento a uma ordem expedida pelo ministro do Supremo. Com isso, a transação não pôde ser finalizada.

Investigação mira relação de Jaques Wagner com o Banco Master

A Polícia Federal investiga se Jaques Wagner teria atuado em temas de interesse do Banco Master no Congresso Nacional e se teria recebido vantagens indevidas em troca. Os investigadores apontam o senador como um possível interlocutor relevante em assuntos relacionados à instituição financeira.

Entre os temas analisados estão discussões sobre crédito consignado, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a chamada “Emenda Master” e a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). A PF também investiga relações financeiras e empresariais envolvendo pessoas próximas ao senador e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

De acordo com a investigação, mensagens encontradas no celular de Augusto Lima indicariam contatos frequentes com Wagner e tratativas sobre assuntos de interesse do grupo financeiro. A PF também apura possíveis vantagens econômicas, incluindo a negociação de um apartamento em Salvador avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões.

O senador nega ter atuado para beneficiar o Banco Master e afirma que suas relações com empresários envolvidos no caso foram de natureza institucional. Wagner também declarou que não é réu nem foi formalmente denunciado no processo.

Defesa afirma que não há irregularidades

Em nota enviada ao Estadão, a defesa de Jaques Wagner afirmou que não há irregularidades na negociação do terreno.

“A defesa do senador Jaques Wagner esclarece que ele não se manifestará sobre condutas que não sejam sobre sua campanha eleitoral. Todos os demais assuntos estão e continuarão sendo tratados judicialmente. Todos os fatos apurados são públicos e com registros públicos. Não há mínima irregularidade e nem nada a esconder”, afirmou.

A defesa sustenta que os negócios imobiliários possuem documentação formal e devem ser tratados no âmbito judicial.

Apartamento de R$ 10 milhões também entrou no radar

Além do terreno de R$ 15,8 milhões, outra negociação imobiliária envolvendo Jaques Wagner também passou a ser citada no contexto das investigações.

O senador teria acertado a venda do apartamento onde mora, em Salvador, por aproximadamente R$ 10 milhões. O comprador seria Marcelo Passos (União Brasil), prefeito de Conceição do Coité e integrante de um grupo político adversário ao PT na Bahia.

Segundo o prefeito, a negociação teria sido iniciada antes da operação da Polícia Federal. O contrato de compra e venda teria sido firmado em dezembro de 2025, enquanto os pagamentos teriam sido realizados até abril de 2026. A escritura teria sido lavrada em maio.

O pedido de registro da transação foi protocolado em 10 de junho, oito dias antes da operação da PF. O cartório, entretanto, ainda reunia a documentação necessária quando recebeu a ordem judicial de bloqueio.

Marcelo Passos afirmou que os pagamentos foram feitos diretamente na conta de Jaques Wagner e declarou que a negociação foi realizada dentro da legalidade.

“Tenho um nome a zelar e nunca estive envolvido em nenhuma irregularidade. Essa transação foi feita dentro da mais absoluta legalidade e os documentos comprovam isso”, afirmou o prefeito.

Segundo ele, o contrato foi assinado antes da operação policial e ele acabou sendo envolvido no caso na condição de terceiro de boa-fé.

PF investiga supostas vantagens e relações empresariais

A investigação da Operação Compliance Zero também alcança empresas ligadas ao entorno familiar do senador. A Polícia Federal apura possíveis repasses financeiros, relações comerciais e eventuais vantagens que poderiam ter sido concedidas a pessoas próximas a Wagner.

Em uma das frentes da apuração, os investigadores identificaram transferências para empresas relacionadas a familiares do parlamentar. A PF também analisa conversas, movimentações financeiras e contatos entre Wagner, Augusto Lima e outros personagens ligados ao Banco Master.

A corporação sustenta que os elementos reunidos indicam uma possível atuação do senador em assuntos de interesse da instituição financeira. A defesa, por sua vez, rejeita as suspeitas e afirma que Wagner está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Até o momento, Jaques Wagner não foi condenado e, conforme declarou sua defesa, não é réu nem foi formalmente denunciado pelos fatos investigados. O caso segue sob apuração no Supremo Tribunal Federal.

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