
José Dirceu, Janaína Paschoal e Padre Kelmon ficam fora do Parlamento em São Paulo
Nomes conhecidos da política tentaram voltar ou avançar na carreira eleitoral, mas não conseguiram conquistar uma cadeira em 2026; Dirceu terminou com 78.450 votos
As eleições de 2026 deixaram uma lista extensa de nomes conhecidos fora do Legislativo paulista. Entre eles estão José Dirceu (PT), Janaína Paschoal (PP) e Padre Kelmon (PL), além de outros políticos e personalidades que chegaram às urnas com trajetórias já conhecidas do eleitorado.
O caso de José Dirceu chamou particularmente a atenção. Ex-ministro da Casa Civil no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva e uma das figuras históricas da fundação do PT, Dirceu voltou a disputar uma eleição depois de anos afastado das urnas. Recebeu 78.450 votos, mas não conseguiu retornar à Câmara dos Deputados e terminou como sexto suplente.
A votação, embora numericamente relevante, não foi suficiente para garantir um mandato dentro da composição eleitoral do PT em São Paulo.
José Dirceu: o retorno que não aconteceu
José Dirceu construiu uma das trajetórias mais conhecidas da história do Partido dos Trabalhadores.
Foi dirigente do PT, deputado federal, ministro-chefe da Casa Civil durante o primeiro governo Lula e um dos principais articuladores políticos do partido.
Sua volta às urnas em 2026 despertou atenção justamente porque representava uma tentativa de retorno direto à política eleitoral depois de um longo período fora das disputas.
O eleitor paulista, entretanto, não lhe deu uma cadeira.
Com 78.450 votos, Dirceu ficou atrás de outros candidatos do próprio partido na distribuição das vagas. O sistema proporcional fez com que a votação individual não fosse suficiente para assegurar o mandato.
E aqui aparece uma das ironias da eleição:
um político que passou décadas ajudando a organizar campanhas, partidos e estratégias eleitorais voltou às urnas e descobriu, na prática, que a máquina partidária não garante cadeira.
O peso da história e a resposta das urnas
A trajetória de Dirceu também é marcada por episódios judiciais de grande repercussão.
Ele foi condenado no processo do mensalão e posteriormente esteve envolvido em processos relacionados à Operação Lava Jato. Algumas condenações posteriores foram anuladas por decisões judiciais relacionadas à competência da Justiça Federal de Curitiba e a questões processuais.
Por isso, é importante separar as diferentes situações jurídicas ao tratar de sua trajetória.
Politicamente, porém, sua imagem continua fortemente associada aos grandes conflitos do PT e da política brasileira das últimas décadas.
Em 2026, ele tentou transformar essa história novamente em voto.
Não conseguiu.
Janaína Paschoal também fica de fora
Outro nome conhecido que não conseguiu se eleger foi Janaína Paschoal, pelo PP.
A advogada e professora de Direito ganhou enorme projeção nacional durante o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2016. Ela foi uma das autoras do pedido de impeachment apresentado ao Congresso e posteriormente entrou na política eleitoral.
Em 2018, foi eleita deputada estadual em São Paulo com uma votação histórica, tornando-se uma das figuras mais votadas para a Assembleia Legislativa naquele pleito.
Em 2022, tentou uma vaga no Senado, mas não foi eleita.
Agora, em 2026, novamente não conseguiu retornar ao Legislativo.
O caso mostra uma característica conhecida da política: uma votação extraordinária em determinado momento não garante uma carreira eleitoral permanente.
O eleitor pode mudar de preferência, os partidos podem mudar de estratégia e novos nomes podem ocupar o espaço anteriormente dominado por figuras conhecidas.
Padre Kelmon também não conseguiu mandato
Outro nome que chamou atenção foi Padre Kelmon, candidato pelo PL.
Ele ganhou projeção nacional em 2022, quando disputou a Presidência da República e participou dos debates eleitorais daquele ano.
Em 2026, tentou uma nova etapa de sua trajetória política em São Paulo, mas não conseguiu conquistar uma cadeira.
A candidatura acabou reforçando um fenômeno que marcou as eleições deste ano: ser conhecido nacionalmente não significa necessariamente possuir força eleitoral suficiente para conquistar um mandato.
Outros nomes conhecidos também ficaram pelo caminho
A lista de derrotados em São Paulo é ainda maior.
Na disputa para deputado federal, Rui Falcão recebeu cerca de 106 mil votos e terminou como primeiro suplente. Paulo Teixeira teve aproximadamente 106 mil votos e também não conseguiu a reeleição. Orlando Silva ficou com cerca de 78 mil votos.
Entre personalidades conhecidas, ficaram fora:
- José Luiz Datena (PSB): 51.078 votos;
- Adrilles Jorge (União Brasil): 26.694;
- Rachel Sheherazade (PSD): 22.453;
- Silvia Abravanel (PSD): 22.472;
- Jean Wyllys (PT): 18.073;
- Netinho de Paula (MDB): 19.337;
- Geraldo Luís (Avante): 10.176;
- Luis Fabiano (MDB): 9.613;
- Manoel Gomes, o Caneta Azul (Avante): 7.239;
- MC Gui (PSD): 7.378.
Na disputa estadual, nomes como Leci Brandão e Marquito também não conseguiram a reeleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo.
A ironia das eleições proporcionais
Existe uma explicação importante para alguns resultados que podem parecer curiosos.
Deputados federais e estaduais não são eleitos simplesmente pela soma individual de votos.
O sistema é proporcional. Os votos dados aos candidatos e os votos de legenda são considerados para determinar quantas cadeiras cada partido ou federação conquista. Depois, os candidatos mais votados dentro dessas legendas ocupam as vagas obtidas.
Por isso, uma pessoa pode receber dezenas de milhares de votos e ainda assim não conseguir uma cadeira.
Foi o que ocorreu com alguns dos nomes mais conhecidos de 2026.
Enquanto uns ficaram fora, outros chegaram com força
A renovação também aparece quando se observa quem ocupou o topo da votação.
Na eleição para deputado federal em São Paulo, Lucas Pavanato (PL) foi o mais votado, com 3.038.438 votos.
Na sequência vieram Erika Hilton (PSOL), com 1.596.472, e Sâmia Bomfim (PSOL), com 583.107. O estado elegeu 70 deputados federais.
O contraste é evidente: enquanto figuras com décadas de exposição política ficaram sem mandato, novos nomes conseguiram mobilizar milhões de eleitores.
Na Assembleia Legislativa, Eduarda Campopiano (PL) liderou a votação estadual com 1.956.238 votos, outro resultado que evidencia a mudança geracional e de perfil entre os candidatos mais votados.
O eleitor não assina contrato de permanência
O resultado de São Paulo deixa uma lição simples sobre eleições.
Nenhum candidato possui cadeira garantida.
Não importa se já foi ministro, deputado, comentarista, candidato presidencial, personalidade de televisão ou figura conhecida nacionalmente.
A cada eleição, é preciso voltar às urnas.
José Dirceu tentou voltar.
Janaína Paschoal tentou novamente.
Padre Kelmon também tentou.
Outros nomes igualmente conhecidos fizeram o mesmo.
E o eleitor respondeu de maneiras diferentes a cada candidatura.
A política paulista muda de mãos
O resultado de 2026 também mostra que o cenário político paulista está em transformação.
Partidos e candidatos tradicionais continuam tendo espaço, mas novas lideranças conquistaram votações expressivas e passaram a ocupar posições de destaque.
No caso de Dirceu, o resultado tem ainda uma dimensão histórica: depois de anos como uma das figuras mais importantes do PT, ele volta às urnas e termina sem mandato.
78.450 votos foram suficientes para colocá-lo entre os candidatos mais conhecidos da eleição, mas não para devolvê-lo à Câmara.
E talvez essa seja a maior ironia de todas:
na política, memória não é mandato; fama não é cadeira; passado não é garantia de futuro.
A urna de 2026 colocou novos nomes no Legislativo paulista e deixou outros conhecidos do lado de fora.
Entre eles, José Dirceu, Janaína Paschoal e Padre Kelmon.
Desta vez, o eleitor falou — e os três ficaram sem mandato.