Josias de Souza ataca Caiado após apoio a Flávio Bolsonaro e transforma análise política em julgamento pessoal

Josias de Souza ataca Caiado após apoio a Flávio Bolsonaro e transforma análise política em julgamento pessoal

Colunista do UOL critica duramente a decisão de Ronaldo Caiado de apoiar Flávio Bolsonaro, recupera declaração feita pelo ex-governador no primeiro turno e usa expressões como “picaretagem ideológica” para atacar a mudança de posição

A decisão de Ronaldo Caiado (PSD) de apoiar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno provocou uma reação contundente do jornalista Josias de Souza, colunista do UOL. Em artigo publicado em 6 de outubro de 2026, intitulado “Caiado formaliza apoio a Flávio, o que ‘rouba com a mão direita’”, o jornalista adotou um tom fortemente crítico ao ex-governador de Goiás. O próprio UOL classifica o texto como opinião, deixando explícito que se trata da interpretação e das avaliações do colunista, e não de uma reportagem factual.

A FRASE QUE VIROU O CENTRO DA CRÍTICA

Josias recuperou uma declaração feita por Caiado durante a campanha do primeiro turno. Em sabatina do SBT News, o então candidato do PSD havia afirmado:

“Tanto faz roubar com a mão esquerda ou com a direita: é ladrão do mesmo jeito.”

Na ocasião, Caiado fazia referência a Lula e Flávio Bolsonaro ao responder a uma pergunta sobre denúncias e suspeitas envolvendo os dois campos políticos. Quando questionado se considerava Flávio um ladrão, o ex-governador não respondeu diretamente, dizendo que cada um poderia interpretar sua declaração como quisesse e cobrando transparência do candidato do PL.

Foi justamente essa declaração que Josias utilizou como eixo de sua coluna para questionar a posterior aproximação entre Caiado e Flávio.

JOSIAS FALA EM “PICARETAGEM IDEOLÓGICA”

No texto, o colunista não se limitou a registrar a mudança de posição. Ele apresentou uma interpretação extremamente crítica sobre o comportamento de Caiado.

Josias escreveu que o ex-governador teria trocado a “patrulha ideológica pela picaretagem ideológica” e afirmou que a adesão ao candidato que Caiado anteriormente associara à expressão “rouba com a mão direita” seria uma nova contribuição negativa do político.

Em outro trecho, o jornalista afirmou que o “vaivém de Caiado” demonstraria que sua primeira grande contribuição ao Brasil em 2026 teria sido não chegar ao segundo turno e que sua segunda contribuição seria a adesão a quem, na formulação recuperada pelo próprio colunista, “rouba com a mão direita”.

É nesse ponto que cabe uma crítica ao texto de Josias: há uma diferença entre questionar a coerência política de um personagem público e atribuir a ele qualificações depreciativas como se fossem uma conclusão objetiva.

Caiado pode, evidentemente, ser questionado por ter criticado Flávio durante o primeiro turno e posteriormente decidido apoiá-lo. Essa contradição aparente é um fato político legítimo para análise. Já expressões como “picaretagem ideológica” pertencem ao campo da opinião e devem ser entendidas como julgamento do próprio colunista.

O APOIO A FLÁVIO NÃO FOI NEGADO POR CAIADO

Caiado não tentou esconder a mudança de posição.

Depois de terminar o primeiro turno em quinto lugar, com 2,18% dos votos válidos, o ex-governador declarou apoio a Flávio e afirmou que entraria na campanha “de corpo inteiro” e “por convicção”.

Durante o ato realizado em Goiânia, Caiado também afirmou que Goiás faria uma mobilização intensa pela candidatura de Flávio.

Portanto, a mudança não é uma informação controversa ou escondida: Caiado reconheceu publicamente que havia sido adversário de Flávio e, mesmo assim, decidiu apoiá-lo no segundo turno.

A justificativa apresentada pelo ex-governador foi política. Caiado afirmou que sua trajetória sempre foi marcada pelo enfrentamento ao PT e que, depois de não conseguir chegar ao segundo turno, escolheu apoiar o candidato do PL.

A DIREITA TAMBÉM ENTROU NO CENTRO DO DEBATE

O texto de Josias ocorre em um momento em que a força eleitoral da direita passou a ser um dos principais assuntos da eleição de 2026.

Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. Caiado ficou em quinto lugar.

No Congresso eleito para a próxima legislatura, o campo da direita também ampliou sua representação. Segundo levantamento citado pela Folha, PL, PP, Republicanos e outras legendas de direita somariam 303 deputados, equivalentes a aproximadamente 59% da Câmara. No Senado, entretanto, os números precisam ser analisados com mais cautela, porque posições políticas não significam necessariamente votação uniforme em todas as matérias.

O próprio Flávio utilizou esse resultado para sustentar que o país teria elegido um Congresso “muito mais à direita” e defendeu mudanças constitucionais e, em suas palavras, uma “redemocratização” das instituições.

É justamente esse fenômeno político — e não apenas a figura de Caiado — que merece ser discutido.

CRÍTICA: A DIREITA NÃO PODE SER REDUZIDA A UMA CARICATURA

Ao tratar da direita exclusivamente a partir de expressões como “picaretagem ideológica”, corre-se o risco de substituir a análise do fenômeno eleitoral por uma caricatura política.

É perfeitamente legítimo discordar de Flávio Bolsonaro, de Jair Bolsonaro, de Caiado ou de qualquer outro representante da direita. Também é legítimo questionar decisões, alianças, discursos e contradições.

Mas uma análise jornalística ganha força quando demonstra as contradições por meio dos fatos, em vez de depender de adjetivações para produzir o julgamento.

O crescimento eleitoral da direita em 2026 é um fenômeno que precisa ser compreendido. O eleitor que escolheu candidatos de direita não pode ser tratado simplesmente como massa manipulada, nem a decisão de um político de apoiar determinado candidato pode ser automaticamente interpretada como prova de desonestidade ideológica.

A pergunta relevante é outra: por que Caiado mudou de posição e quais interesses, compromissos e convergências políticas estão por trás dessa decisão?

Essa é uma investigação legítima. O leitor pode então formar sua própria conclusão.

CAIADO E FLÁVIO: DE ADVERSÁRIOS A ALIADOS

A relação entre Caiado e Flávio é, de fato, marcada por uma transformação significativa.

No primeiro turno, Caiado atacou Flávio, questionou suas declarações sobre Daniel Vorcaro e Banco Master e chegou a dizer que alguém que não tivesse autoridade moral para combater o crime não poderia ocupar a Presidência.

No segundo turno, entretanto, o cenário mudou.

Caiado passou a defender Flávio, enquanto o candidato do PL declarou que pretende aproveitar propostas do ex-governador na área de segurança pública. Flávio afirmou ainda que existem diversos pontos de convergência entre os dois e chegou a dizer, em tom político, que concordava com Caiado em “115%”.

Essa transformação pode ser criticada, questionada ou interpretada de diferentes maneiras. O que não se deve fazer é confundir interpretação com fato comprovado.

KASSAB ESCOLHEU A NEUTRALIDADE

Outro elemento importante citado por Josias é Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e vice na chapa de Caiado no primeiro turno.

Kassab decidiu manter o PSD oficialmente neutro no segundo turno, liberando seus filiados para apoiar qualquer uma das candidaturas. Portanto, o apoio de Caiado não representa automaticamente o posicionamento de todo o partido.

Essa distinção é fundamental: Caiado apoia Flávio; o PSD nacional permanece neutro.

O PAPEL DO JORNALISTA

Josias de Souza possui longa trajetória no jornalismo e, neste caso específico, publicou um texto identificado pelo próprio UOL como “Opinião”. O veículo informa expressamente que o conteúdo apresenta e defende as ideias e opiniões do autor e que o texto não necessariamente representa a posição do UOL.

Por isso, a crítica ao artigo deve considerar sua natureza editorial.

O problema não está em Josias discordar de Caiado ou criticar Flávio Bolsonaro. Jornalistas têm o direito de analisar, interpretar e criticar decisões políticas. O ponto questionável está no tom utilizado quando uma decisão política é descrita por expressões depreciativas, especialmente quando essas expressões podem obscurecer a distinção entre fato e avaliação pessoal.

Caiado pode ser cobrado pela mudança de posição. Flávio pode ser cobrado por suas propostas. Lula pode ser cobrado por suas políticas. E Josias, como qualquer jornalista, também pode ter sua análise submetida ao escrutínio público.

UMA ELEIÇÃO QUE EXIGE MAIS DO QUE RÓTULOS

A eleição de 2026 revelou um cenário de forte disputa entre campos políticos e uma direita eleitoralmente relevante. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente de Lula, recebeu apoios de nomes como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas, enquanto diferentes partidos passaram a reorganizar suas posições para a segunda etapa.

Nesse ambiente, reduzir toda essa movimentação a “picaretagem ideológica” pode ser uma opinião legítima de um colunista, mas não encerra o debate.

A mudança de Caiado deve ser examinada, seus argumentos devem ser confrontados com suas declarações anteriores e Flávio deve ser cobrado pelas posições que apresenta. Mas o julgamento final deve permanecer com o leitor e com o eleitor.

A política brasileira já é suficientemente complexa para que o jornalismo não precise simplificá-la em rótulos.

E é justamente por isso que a crítica ao texto de Josias não significa defender Caiado ou Flávio de qualquer questionamento. Significa defender uma distinção essencial: fatos podem ser cobrados; opiniões podem ser contestadas; acusações precisam de evidências.

No segundo turno, Caiado escolheu Flávio Bolsonaro. Josias escolheu interpretar essa decisão de maneira severamente negativa. E o público tem o direito de conhecer as duas posições — sem que a opinião de um colunista seja apresentada como se fosse a conclusão definitiva sobre a realidade política.

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