
Keiko Fujimori vence eleição histórica e assume Presidência do Peru após disputa acirrada
Filha de Alberto Fujimori derrota candidato da esquerda por margem apertada e comandará um país marcado por uma década de instabilidade política
Após uma das eleições mais disputadas da história recente do Peru, Keiko Fujimori foi confirmada como a nova presidente do país. Com 99,86% das urnas apuradas, a candidata do partido Força Popular conquistou 50,118% dos votos válidos, superando o esquerdista Roberto Sánchez, que obteve 49,882%.
A diferença final ultrapassou 43 mil votos em um universo superior a 19 milhões de eleitores, tornando matematicamente impossível qualquer reversão do resultado. Mesmo assim, o clima político permanece tenso. Sánchez contesta o desfecho da eleição e afirma que não reconhecerá o novo governo, alegando supostas irregularidades na votação realizada por peruanos residentes no exterior.
Vitória apertada encerra longa caminhada de Keiko ao poder
Aos 50 anos, Keiko Fujimori alcança a Presidência da República em sua quarta tentativa. A nova chefe de Estado já havia disputado e perdido eleições presidenciais em diferentes momentos da última década, tornando-se uma das figuras mais conhecidas da política peruana.
Agora, ela assumirá o cargo em 28 de julho, substituindo o presidente interino José María Balcázar, para um mandato de cinco anos.
Durante a campanha, Keiko apostou em um discurso de restauração da ordem institucional, combate à insegurança e recuperação econômica. Seu principal slogan foi “Volta à Ordem”, uma mensagem direcionada a uma população cansada da crise política permanente que atingiu o país nos últimos anos.
Roberto Sánchez questiona votos do exterior
O principal foco da contestação apresentada por Roberto Sánchez está nos votos registrados fora do Peru.
Segundo o candidato de esquerda, o processo eleitoral teria sido comprometido por mudanças administrativas relacionadas à votação em consulados peruanos espalhados pelo mundo. Sua equipe chegou a solicitar a anulação dos votos contabilizados em 119 representações diplomáticas.
De acordo com Sánchez, sem esses votos, ele teria uma vantagem de aproximadamente 25 mil votos sobre Keiko. A Junta Nacional de Eleições (JNE), porém, rejeitou o pedido por entender que a solicitação foi apresentada fora do prazo legal e sem provas suficientes para justificar a anulação.
A decisão fortaleceu ainda mais a vitória da candidata conservadora.
A herança política de Alberto Fujimori
A trajetória de Keiko está diretamente ligada ao legado de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000.
Figura extremamente polarizadora, Alberto é lembrado por parte da população por derrotar grupos terroristas e estabilizar a economia peruana. Por outro lado, também ficou marcado por denúncias de corrupção, violações de direitos humanos e pelo autogolpe que concentrou poderes durante seu governo.
Condenado por crimes contra a humanidade, Alberto Fujimori morreu em 2024. Durante a campanha presidencial, Keiko buscou equilibrar a defesa de aspectos do legado político do pai ao mesmo tempo em que reconheceu erros e abusos ocorridos naquele período.
Investigações e polêmicas marcaram carreira da presidente eleita
A nova presidente também enfrentou desafios judiciais ao longo da carreira política.
Ela chegou a ser investigada por supostas irregularidades relacionadas ao recebimento de recursos da construtora Odebrecht durante campanhas eleitorais. Keiko permaneceu presa preventivamente por 17 meses entre 2018 e 2020.
Entretanto, em 2025, a Justiça peruana anulou o processo, encerrando a acusação. A líder do Força Popular sempre negou qualquer envolvimento em práticas ilícitas.
Peru tenta virar página após década de turbulência
A chegada de Keiko Fujimori ao Palácio de Governo ocorre em um momento delicado da história peruana.
Nos últimos dez anos, o país teve nove presidentes diferentes, resultado de uma sequência de impeachments, renúncias, prisões, denúncias de corrupção e disputas entre o Congresso e o Executivo.
Desde 2016, nenhum presidente eleito conseguiu concluir seu mandato.
Entre os casos mais emblemáticos estão:
- Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou em 2018;
- Martín Vizcarra, destituído em 2020;
- Manuel Merino, que permaneceu apenas cinco dias no cargo;
- Pedro Castillo, afastado e preso após tentativa de dissolver o Congresso;
- Dina Boluarte, destituída após denúncias envolvendo corrupção e repressão a protestos.
Diante desse cenário, muitos analistas enxergam a eleição de Keiko como um teste para a capacidade do Peru de recuperar estabilidade institucional.
Congresso favorável pode facilitar governabilidade
Além da vitória presidencial, o partido Força Popular conquistou uma posição estratégica no Parlamento.
A legenda terá a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 41 das 130 cadeiras, além de ocupar 22 das 60 vagas do Senado.
Esse cenário pode oferecer à nova presidente uma base política mais sólida do que a observada pelos seus antecessores, que enfrentaram constantes confrontos com o Legislativo.
Ainda assim, Keiko terá pela frente o desafio de governar um país profundamente dividido entre setores conservadores e progressistas, além de responder às demandas econômicas e sociais acumuladas durante anos de instabilidade.
Com a confirmação da vitória, o Peru inicia uma nova etapa de sua história política, enquanto a comunidade internacional acompanha os próximos passos do governo que assumirá oficialmente o poder nas próximas semanas.