
Lula cobra Alcolumbre por votação do fim da escala 6×1, mas enfrenta resistência no Senado
Presidente pede que proposta avance antes das eleições, enquanto presidente do Senado aponta oposição do setor produtivo e calendário apertado; reaproximação entre os dois também envolve a agenda do governo e a sucessão no comando da Casa
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a retomada do diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para cobrar o avanço da proposta que pretende acabar com a chamada escala 6×1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de atividade para ter apenas um dia de descanso.
A cobrança ocorreu na quarta-feira (12), durante um café da manhã no Palácio da Alvorada, encontro que marcou a reaproximação política entre Lula e Alcolumbre depois de mais de três meses de distanciamento.
A conversa teve como um dos principais assuntos a proposta de mudança constitucional que prevê uma nova organização da jornada de trabalho. A matéria já havia avançado na Câmara dos Deputados, mas permanecia sem votação no Senado.
Lula pediu a Alcolumbre que fizesse “o possível e o impossível” para retirar a proposta da gaveta.
O presidente classificou o fim da escala 6×1 como uma “pauta do Brasil”, sinalizando que pretende transformar a discussão sobre jornada de trabalho em uma das principais bandeiras de sua agenda política e eleitoral.
Alcolumbre aponta resistência do setor produtivo
Alcolumbre, entretanto, apresentou ao presidente uma série de obstáculos.
O presidente do Senado afirmou que nunca se colocou contra a proposta, mas argumentou que sua aprovação depende da construção de um acordo político mais amplo.
Segundo Alcolumbre, representantes do setor produtivo demonstram forte resistência à mudança por causa do impacto que um dia adicional de descanso poderia produzir sobre empresas, custos trabalhistas e organização das atividades econômicas.
A posição do presidente do Senado coloca a proposta diante de um dos principais dilemas da discussão: de um lado, a defesa de uma redução da jornada e de melhores condições de descanso para os trabalhadores; de outro, a preocupação de empresários e setores produtivos com os efeitos econômicos e operacionais de uma alteração constitucional.
Alcolumbre também lembrou que o Congresso tem pouco tempo disponível para analisar uma mudança dessa dimensão antes das eleições de outubro.
PEC já passou pela Câmara
A proposta que Lula quer ver avançar no Senado já foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio.
Como se trata de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), o texto precisa passar por um processo legislativo mais rigoroso do que um projeto de lei comum.
No Senado, a matéria ainda precisa ser analisada e votada pelos parlamentares dentro das regras próprias para mudanças constitucionais.
A pressão de Lula ocorre, portanto, em um momento em que o calendário parlamentar já está comprometido pela campanha eleitoral.
MDB pressiona por urgência
Apesar das dificuldades, a proposta também passou a receber pressão dentro do próprio Congresso.
A bancada do MDB, formada por nove senadores, decidiu pressionar Alcolumbre para que a PEC seja submetida a regime de urgência.
A movimentação aumenta a pressão sobre o presidente do Senado, que terá de administrar interesses divergentes dentro da Casa.
De um lado está o governo, que considera o fim da escala 6×1 uma prioridade política.
De outro, estão parlamentares que defendem uma análise mais cuidadosa dos efeitos econômicos da mudança e setores produtivos que resistem à proposta.
Governo tenta reconstruir relação com Alcolumbre
A reunião no Alvorada não foi apenas uma conversa sobre jornada de trabalho.
O encontro representou uma tentativa de reconstrução da relação entre Lula e Alcolumbre depois de uma crise que chegou ao ponto máximo em abril.
Participaram da reunião o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE).
A retomada do diálogo é considerada importante para o Palácio do Planalto porque Alcolumbre controla uma parcela significativa da agenda de votações do Senado.
Na prática, o governo precisa do presidente da Casa para destravar propostas consideradas prioritárias.
O episódio Jorge Messias ficou fora da conversa
Um dos assuntos mais delicados da relação entre Lula e Alcolumbre não foi discutido durante o café da manhã.
Trata-se da rejeição, em 29 de abril, da indicação de Jorge Messias, então advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
A derrota foi especialmente significativa para o governo porque Messias era uma escolha pessoal de Lula.
A rejeição também aprofundou o conflito entre o presidente da República e Alcolumbre.
Desta vez, entretanto, os dois decidiram deixar o episódio para trás.
“Nós conversamos sobre a relação institucional do futuro e o diálogo foi restabelecido. Não falamos nada do passado”, afirmou Alcolumbre.
A declaração resume o espírito da reunião: reconstruir a relação política sem reabrir imediatamente a disputa que provocou o rompimento.
Lula ainda pretende indicar Messias
Apesar da derrota no Senado, Lula continua sinalizando que pretende manter Jorge Messias como seu escolhido para o STF depois das eleições.
A estratégia, porém, poderá depender do resultado das urnas.
Uma eventual mudança na composição do Senado pode alterar completamente o equilíbrio de forças necessário para aprovar uma indicação ao Supremo.
Se a nova composição da Casa for mais à direita e o governo entender que Messias não possui votos suficientes, Lula poderá ser pressionado a rever sua escolha.
A questão permanece, portanto, como uma ferida política ainda não completamente cicatrizada.
Alcolumbre pode voltar à presidência do Senado
A reaproximação também envolve interesses relacionados à próxima legislatura.
Caso Lula seja reeleito em outubro, o presidente estaria disposto a apoiar uma eventual tentativa de Alcolumbre permanecer na presidência do Senado em 2027.
O possível entendimento envolve uma troca política: o governo espera apoio do presidente do Senado para suas principais propostas, enquanto Alcolumbre busca construir condições para continuar comandando a Casa.
Além disso, o Palácio do Planalto espera uma manifestação pública de apoio à candidatura de Lula.
A estratégia faz parte de uma tentativa mais ampla do governo de reunir apoios entre os principais líderes do Congresso.
Hugo Motta já declarou apoio a Lula
Nesse cenário, outro personagem importante é o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Motta já declarou voto em Lula.
Na terça-feira (11), o presidente telefonou para o deputado para agradecer publicamente pelo apoio.
A aproximação com os presidentes da Câmara e do Senado é considerada estratégica pelo governo porque ambos ocupam posições centrais na articulação política do Congresso.
O Planalto também vê o apoio dos dois como uma forma de ampliar o isolamento político da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal nome do campo bolsonarista na disputa presidencial.
O calendário eleitoral aperta o Congresso
A discussão sobre a escala 6×1 ocorre em meio a um calendário parlamentar excepcionalmente apertado.
Com as campanhas eleitorais em andamento, Câmara e Senado organizaram períodos de esforço concentrado para permitir a realização de votações.
O primeiro desses períodos começou nesta semana e segue até sexta-feira (14).
O segundo está previsto para ocorrer entre 31 de agosto e 3 de setembro.
Entre esses períodos, a atividade legislativa fica condicionada ao calendário eleitoral e à presença dos parlamentares em Brasília.
Para uma PEC que exige negociação, votos e tramitação constitucional, o tempo reduzido representa uma dificuldade adicional.
PEC da Segurança Pública também entra na negociação
Além da escala 6×1, Alcolumbre se comprometeu a destravar outra proposta considerada importante pelo governo: a PEC da Segurança Pública.
O texto prevê mecanismos de financiamento para políticas de combate à criminalidade, incluindo recursos provenientes de empresas de apostas esportivas e do fundo social do pré-sal.
A proposta estava parada no Senado.
O compromisso de Alcolumbre indica que a retomada da relação entre o Palácio do Planalto e a presidência do Senado pode produzir resultados em diferentes áreas da agenda governista.
Outras matérias aguardam votação
O Congresso também instalou comissões mistas para analisar medidas provisórias relacionadas a diferentes temas.
Entre elas estão medidas envolvendo a liberação de crédito extraordinário para ações de defesa civil em regiões atingidas por desastres.
Também estão em análise iniciativas relacionadas à redução das filas do INSS e alterações no Código de Trânsito voltadas às atividades de motoboys e mototaxistas.
O governo, portanto, tenta aproveitar a reaproximação com Alcolumbre para destravar uma agenda que permaneceu parcialmente represada durante o período de crise.
A escala 6×1 vira pauta eleitoral
A cobrança de Lula também tem uma dimensão eleitoral.
O presidente pretende disputar a reeleição em outubro e vem incorporando a discussão sobre direitos trabalhistas à sua estratégia política.
A defesa do fim da escala 6×1 permite ao governo apresentar uma agenda diretamente relacionada à rotina de milhões de trabalhadores.
A proposta também produz um debate que ultrapassa a disputa entre governo e oposição.
Para seus defensores, reduzir a quantidade de dias consecutivos de trabalho significa ampliar o tempo de descanso, convivência familiar e qualidade de vida.
Para críticos da mudança, uma alteração constitucional pode elevar custos, exigir reorganização das empresas e provocar efeitos sobre preços, produtividade e contratação.
É justamente essa divisão que Alcolumbre apontou durante a conversa com Lula.
José Guimarães fala em “destravamento”
Após o encontro, José Guimarães adotou um tom otimista.
“Vamos conversar com os aliados do governo e da oposição. A partir de agora é pé na estrada e muito diálogo, para ver como as matérias vão tramitar. Mas estou aliviado porque foi tudo destravado”, afirmou.
O ministro também associou diretamente a reaproximação ao cenário eleitoral ao declarar que Alcolumbre estaria “absolutamente sintonizado com a reeleição do Lula”.
A fala demonstra que, para o governo, a reunião não representa apenas uma retomada institucional, mas também uma tentativa de construir uma base política para a eleição e para o período posterior às urnas.
Um acordo ainda em construção
O encontro entre Lula e Alcolumbre encerrou um período de tensão, mas não eliminou as divergências.
O presidente da República quer a votação do fim da escala 6×1.
O presidente do Senado diz que a proposta enfrenta resistência do setor produtivo e que o calendário parlamentar dificulta sua aprovação antes das eleições.
Ao mesmo tempo, ambos encontraram pontos de convergência em torno da necessidade de reconstruir o diálogo institucional.
A política brasileira entra, assim, em uma fase em que votações importantes, alianças eleitorais e a disputa pelo comando do Congresso em 2027 passam a caminhar lado a lado.
Para Lula, o desafio é transformar a reaproximação com Alcolumbre em votos para sua agenda.
Para Alcolumbre, o desafio é administrar interesses do governo, da oposição e do setor produtivo sem perder o controle da pauta do Senado.
E, no centro dessa negociação, está a escala 6×1 — uma proposta que deixou de ser apenas uma discussão sobre jornada de trabalho e passou a ocupar espaço no tabuleiro político das eleições de 2026.