
Lula critica fundo partidário e diz estar “decepcionado” com modelo de financiamento político: “virou milhões para políticos”
Presidente afirmou que sistema atual afastou partidos da busca por apoio popular e relembrou época em que campanhas eram feitas com arrecadações próprias; declaração provoca debate dentro do próprio PT
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar o funcionamento do fundo partidário e afirmou estar decepcionado com o modelo de financiamento público destinado às legendas políticas. Durante entrevista ao programa “Sem Censura”, da TV Brasil, exibida nesta sexta-feira (22), Lula disse que o sistema acabou criando uma dependência dos partidos em relação aos recursos públicos e, segundo ele, perdeu a ligação com a mobilização popular.
“Estou muito chateado com a organização política do país. O PT não gosta que eu falo isso, não”, afirmou o presidente, em tom de crítica interna, ao comentar a estrutura partidária brasileira.
Segundo Lula, o fundo partidário, que foi criado para garantir recursos às siglas e reduzir a influência de grandes financiadores privados, acabou tomando um caminho diferente daquele imaginado inicialmente.
“Estou decepcionado com o fundo partidário”, declarou o presidente.
Lula relembra campanhas sem recursos públicos
Durante a entrevista, o presidente comparou o cenário atual com o período em que iniciou sua trajetória política, quando partidos precisavam buscar recursos próprios para realizar campanhas e mobilizações.
Lula afirmou que, no passado, candidatos e militantes organizavam eventos, vendiam produtos e faziam campanhas de arrecadação para conseguir manter as atividades políticas.
“Eu fazia comício, vendia camiseta, macacão, fita métrica para fazer comício em outra cidade”, relembrou.
Na avaliação do presidente, os partidos deveriam voltar a ter maior participação na construção das próprias campanhas, em vez de dependerem exclusivamente dos recursos distribuídos pelo Estado.
“É o partido que tem que viabilizar os recursos para as candidaturas”, afirmou.
Crítica gera desconforto dentro do PT
A declaração de Lula chamou atenção porque veio acompanhada de uma admissão de que o próprio partido não costuma receber bem esse tipo de crítica.
Ao dizer que “o PT não gosta” quando ele aborda o tema, o presidente indicou que existe uma divergência interna sobre o papel do fundo partidário e sobre a forma como os recursos públicos são utilizados pelas legendas.
O fundo partidário distribui bilhões de reais aos partidos brasileiros todos os anos para custear atividades políticas, manutenção das estruturas partidárias e campanhas eleitorais.
Defensores do mecanismo afirmam que o financiamento público reduz a dependência de empresários e grupos econômicos. Já críticos argumentam que o sistema criou partidos excessivamente dependentes do dinheiro público e pouco conectados às bases eleitorais.
Ironia de Lula sobre a política brasileira
Com seu estilo característico, Lula fez uma crítica que mistura descontentamento e ironia ao comparar a política atual com o período em que os partidos precisavam mobilizar militantes e buscar apoio direto da população.
A fala do presidente sugere uma cobrança para que as legendas retomem uma atuação mais próxima das ruas e menos concentrada na distribuição de recursos.
Ao mesmo tempo, a declaração abre um debate sobre uma contradição do sistema político brasileiro: enquanto partidos defendem a importância do financiamento público para fortalecer a democracia, há críticas de que o dinheiro acabou se tornando uma fonte permanente de sustentação das estruturas partidárias.
Debate sobre reforma política volta ao centro das discussões
A crítica de Lula ocorre em um momento em que o financiamento das campanhas continua sendo um dos temas mais controversos da política nacional.
O presidente, que construiu sua carreira política a partir dos movimentos sociais e da militância sindical, resgatou a memória de uma época em que partidos dependiam mais de trabalho voluntário, arrecadações e mobilização popular.
A declaração, porém, também expõe um dilema: o mesmo sistema que hoje é criticado por Lula foi criado justamente para tentar impedir que campanhas fossem dominadas por interesses econômicos privados.
A fala do presidente reacende uma discussão antiga em Brasília: o fundo partidário fortaleceu a democracia ou transformou os partidos em dependentes dos cofres públicos?