Lula defende o Pix na ONU — mas esquece de lembrar quem colocou o sistema em operação

Lula defende o Pix na ONU — mas esquece de lembrar quem colocou o sistema em operação

Presidente afirmou que o Brasil não cederá a pressões para privatizar o Pix, criado e colocado em funcionamento pelo Banco Central durante o governo Bolsonaro

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22), Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não vai ceder, segundo ele, às pressões de multinacionais que desejariam privatizar o Pix. Lula classificou o sistema como uma infraestrutura pública e gratuita que ampliou a inclusão financeira no país.

A declaração, porém, abre espaço para uma lembrança incômoda no discurso político: o Pix não nasceu no atual governo.

O Banco Central instituiu oficialmente o arranjo de pagamentos Pix em agosto de 2020, e o sistema entrou em operação plena em 16 de novembro de 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro. Os estudos para o desenvolvimento do sistema haviam começado anteriormente, em 2018, mas sua regulamentação e implantação ocorreram durante a gestão Bolsonaro.

A ironia do discurso

Lula subiu à tribuna da ONU para defender uma ferramenta que se tornou parte do cotidiano dos brasileiros, mas, ao apresentar o Pix como símbolo da infraestrutura pública brasileira, não destacou que sua implantação ocorreu no governo anterior.

A ironia é justamente essa: enquanto o discurso presidencial apresenta o Pix como uma conquista associada à soberania e à inclusão financeira brasileira, a história oficial do Banco Central registra que o sistema foi instituído em 2020 e começou a funcionar naquele mesmo ano.

Isso não significa que um governo posterior não possa ampliar, regulamentar ou defender uma política pública criada anteriormente. Mas atribuir protagonismo político a uma ferramenta cuja implantação ocorreu em outra administração exige, no mínimo, que o histórico seja apresentado por inteiro.

O que Lula disse na ONU

Além do Pix, Lula criticou as grandes empresas de tecnologia, defendeu maior regulamentação das chamadas Big Techs e atacou a indústria de apostas esportivas, afirmando que as bets transformam o vício em lucro e prejudicam famílias.

No caso do Pix, a afirmação presidencial ocorreu em meio às discussões comerciais entre Brasil e Estados Unidos e ao debate sobre soberania tecnológica e financeira.

Um fato que não pode ser apagado

O debate político pode produzir diferentes interpretações sobre quem merece crédito por determinada política pública. O fato documental, entretanto, permanece: o Banco Central instituiu o Pix em 2020 e sua operação plena começou em novembro daquele ano, durante o governo Bolsonaro.

Portanto, ao defender o Pix na ONU, Lula pode falar sobre a importância atual do sistema e sobre sua política de governo. Mas a memória institucional não deveria ser seletiva.

O Pix é brasileiro, pertence à infraestrutura de pagamentos do país e é utilizado por milhões de pessoas. Sua criação institucional pelo Banco Central e sua implantação em 2020 fazem parte da história — inclusive da história do governo Bolsonaro.

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