
Lula resgata frase de Conceição Tavares e diz que “PT é a minha merda” em discurso no Inpe
Presidente relembrou conversa com a economista para explicar a origem popular do partido; fala foi feita durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos, e recupera uma declaração que Lula já havia mencionado anteriormente
Uma frase forte, carregada de memória política e de uma linguagem pouco comum em discursos presidenciais voltou ao centro do debate político brasileiro. Durante um discurso no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recorreu a uma lembrança envolvendo a economista Maria da Conceição Tavares para explicar aquilo que considera ser a origem social e política do Partido dos Trabalhadores.
Ao recordar a conversa com a economista, Lula utilizou uma expressão que rapidamente chamou atenção: “O PT é uma merda? É. Mas é minha merda, não é a sua”. Segundo o presidente, a frase fazia parte da maneira como Conceição Tavares expressava sua relação crítica, mas também afetiva, com o partido.
A declaração ocorreu na sexta-feira, 7 de agosto de 2026, durante a passagem de Lula pelo Inpe. O contexto do discurso, porém, era mais amplo: o presidente falava sobre o potencial brasileiro, a capacidade científica do país e a necessidade de os brasileiros valorizarem mais o próprio país.
A cena que Lula reconstruiu no discurso
Ao contar a história, Lula apresentou a economista como uma interlocutora com quem manteve convivência ao longo dos anos.
De acordo com o relato do presidente, Conceição Tavares teria perguntado por que o PT demonstrava tanta proximidade com os pobres.
Foi a partir dessa pergunta que Lula construiu sua explicação sobre a formação do partido.
Segundo ele, a resposta dada à economista foi direta: “Conceição, o PT nasceu da merda. Nós não nascemos na academia, nós não nascemos em escritório, nós nascemos na luta do povo trabalhador”.
A frase, no contexto apresentado por Lula, não aparece como uma tentativa de depreciar o próprio partido. Pelo contrário: o presidente a utiliza para reforçar a ideia de que o PT nasceu das dificuldades econômicas e sociais enfrentadas por trabalhadores e movimentos populares.
O contraste construído por Lula é deliberado. De um lado, a academia e os escritórios; de outro, a rua, os sindicatos, os movimentos sociais e a experiência cotidiana da população trabalhadora.
“É a minha merda”
A expressão mais chamativa, entretanto, veio na sequência da lembrança atribuída a Conceição Tavares.
Lula relatou que a economista teria resumido sua relação com o partido da seguinte maneira: “O PT é uma merda? É. Mas é minha merda, não é a sua. Então, só eu posso falar dela.”
A frase traduz uma relação de pertencimento: a crítica, na narrativa apresentada pelo presidente, viria de alguém que se reconhecia na trajetória da legenda e que, justamente por isso, se considerava autorizada a apontar seus defeitos.
É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma lembrança curiosa e passa a funcionar como uma metáfora política.
Lula utilizou a história para estabelecer uma espécie de fronteira entre crítica interna e ataque externo: reconhecer problemas dentro do próprio grupo seria diferente, na visão atribuída à economista, de permitir que adversários políticos utilizassem os mesmos problemas para desqualificar a legenda.
O discurso não era apenas sobre o PT
Apesar de a frase ter dominado a repercussão, o tema central da fala de Lula no Inpe era o Brasil.
O presidente afirmou que o país possui dimensão territorial, capacidade científica, conhecimento e recursos humanos capazes de colocá-lo em posição de destaque.
Em determinado momento, Lula defendeu que os brasileiros precisam apresentar o país ao mundo com maior confiança.
“O Brasil é grande, nós temos potência, base intelectual e científica. O que precisa é a gente colocar a cara para fora. Dizer: eu existo e gosto de mim”, afirmou.
A passagem ajuda a explicar por que a lembrança de Conceição Tavares foi inserida no discurso. Lula utilizou a história do PT como uma extensão de sua argumentação sobre identidade e autoestima nacional: assim como o partido deveria reconhecer sua origem e sua trajetória, o Brasil também deveria reconhecer suas próprias capacidades.
Quem foi Maria da Conceição Tavares
Maria da Conceição de Almeida Tavares foi uma das economistas mais influentes do pensamento desenvolvimentista brasileiro. Nascida em Portugal e naturalizada brasileira, teve trajetória acadêmica e política marcada pela defesa de políticas de desenvolvimento econômico e pela crítica a determinadas correntes do liberalismo econômico.
Ela também exerceu mandato como deputada federal pelo PT.
Conceição Tavares morreu em junho de 2024, aos 94 anos. Lula voltou a mencioná-la no discurso de 2026 como uma pessoa com quem teve convivência e conversas ao longo de sua trajetória política.
A frase não surgiu agora
Embora tenha ganhado nova repercussão em 2026, a história contada por Lula não é inédita.
O próprio presidente já havia recorrido à lembrança de Conceição Tavares em 2014, durante um ato político relacionado à campanha de reeleição de Dilma Rousseff.
Naquela ocasião, Lula resumiu a ideia de maneira diferente, dizendo que “o PT tem defeitos, mas é meu partido”.
A origem da frase é ainda mais antiga.
Segundo o Poder360, em 2005, durante um discurso de Tarso Genro, então presidente nacional do PT, no Rio de Janeiro, Conceição Tavares teria feito uma referência crítica ao governo Lula, utilizando uma formulação semelhante: “Como eu dizia no Chile, pode ser um governo de merda, mas é o meu governo”.
A economista também teria afirmado, naquele contexto, que não rasgava sua carteirinha porque, quando havia ingressado no partido, considerava que a legenda ainda era séria.
A referência ao Chile e Salvador Allende
A frase atribuída a Conceição Tavares também possui uma referência histórica.
De acordo com o Poder360, a economista fazia alusão a manifestações de apoiadores do presidente chileno Salvador Allende, que defendiam seu governo mesmo diante de profundas crises políticas.
Allende foi derrubado em 1973, no golpe liderado pelo general Augusto Pinochet.
Nesse sentido, a frase atribuída a Conceição Tavares carregava uma ideia de pertencimento político mesmo diante da frustração: pode haver críticas severas ao governo ou ao partido, mas isso não necessariamente elimina o vínculo com o projeto político.
O PT como símbolo de origem popular
Ao recuperar a história, Lula voltou a apresentar o PT como um partido cuja origem estaria diretamente relacionada às lutas dos trabalhadores.
A narrativa presidencial enfatiza sindicatos, movimentos sociais e organizações populares que participaram da formação da legenda no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980.
A expressão “nasceu da merda”, portanto, foi utilizada por Lula como uma forma provocativa de descrever um nascimento político distante das elites acadêmicas e econômicas.
A palavra, retirada de seu contexto, pode soar como uma autocrítica brutal. Dentro do raciocínio apresentado no discurso, entretanto, Lula a utiliza como marca de origem, quase como uma lembrança de que o partido teria surgido em meio às dificuldades concretas da classe trabalhadora.
Uma frase antiga que ganhou nova vida
O episódio mostra como uma frase antiga pode ganhar novo significado quando retorna ao discurso presidencial mais de uma década depois.
Em 2026, Lula não apresentou a declaração como uma confissão de fracasso do PT. Usou-a para defender a identidade da legenda e reforçar sua ligação histórica com os trabalhadores.
A escolha das palavras, contudo, garantiu que a passagem se destacasse do restante do discurso.
No ambiente político polarizado das eleições de 2026, uma frase como “PT é a minha merda” tem força suficiente para ultrapassar o contexto original e se transformar em munição para adversários e, simultaneamente, em símbolo de identidade para apoiadores.
O próprio Lula, ao recuperar a memória de Conceição Tavares, pareceu interessado justamente no segundo significado: o de um partido imperfeito, criticável por quem dele faz parte, mas cuja história, na visão do presidente, não pode ser contada por quem está fora dela.
A declaração foi feita durante um discurso no Inpe, em São José dos Campos, e o registro em vídeo foi disponibilizado nas reportagens que repercutiram a fala. O Poder360 também incorporou o vídeo de aproximadamente 50 segundos ao conteúdo sobre o episódio.