Mensagens da PF expõem relação estreita entre Daniel Vorcaro e Hugo Motta, com negócios, pedidos e contatos antes de reunião no Banco Central

Mensagens da PF expõem relação estreita entre Daniel Vorcaro e Hugo Motta, com negócios, pedidos e contatos antes de reunião no Banco Central

Diálogos entre o ex-controlador do Banco Master e o presidente da Câmara mencionam sociedade em terreno de R$ 45 milhões, empréstimo de R$ 22 milhões, projeto de lei, FGC e contato horas antes de reunião de Vorcaro com Gabriel Galípolo

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliaram as informações sobre a relação mantida pelo empresário com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Os diálogos revelam contatos frequentes, negócios envolvendo uma empresa ligada à família de Motta, pedidos pessoais, discussões sobre projetos legislativos e uma ligação entre os dois poucas horas antes de uma reunião de Vorcaro com a cúpula do Banco Central para tratar da tentativa de venda do Master ao BRB.

Um dos pontos que mais chamam atenção nas mensagens é uma negociação envolvendo um terreno de aproximadamente 400 hectares em João Pessoa, na Paraíba. A área havia pertencido a uma fábrica de cimento e foi adquirida por R$ 45 milhões. Segundo os documentos e reportagens baseados no material apreendido pela PF, a operação envolveu uma empresa que passou para o nome da cunhada de Hugo Motta e contou com empréstimo de R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master.

A conversa sobre “sociedade”

Em março de 2024, Hugo Motta procurou Vorcaro para tratar diretamente da negociação. Na mensagem, o então deputado fala sobre a documentação da operação e afirma que a empresa seria transferida para sua cunhada. Em seguida, menciona que havia um formato de “sociedade” previamente combinado com Vorcaro.

Vorcaro respondeu que faria uma operação rápida com Adriana e que, paralelamente, eles organizariam a questão da sociedade. Dias depois, Motta informou que as assinaturas necessárias haviam sido resolvidas e agradeceu a Vorcaro pela confiança e pela parceria. O empresário respondeu dizendo estar muito feliz com a parceria e classificando aquele momento como o início de uma relação de longo prazo.

O episódio ganhou relevância porque a negociação envolvia uma operação financeira de grande valor e uma empresa ligada à família do presidente da Câmara. Motta, entretanto, sustenta que o contrato foi realizado entre empresas privadas e que ocorreu antes de as investigações envolvendo Vorcaro e o Banco Master se tornarem públicas.

Projeto de lei e mercado de carbono

As mensagens também mostram que a relação não se limitava a assuntos pessoais ou empresariais.

Em novembro de 2024, Vorcaro procurou Motta para pedir ajuda relacionada a um projeto de lei sobre créditos de carbono. O empresário perguntou se poderia conversar com o parlamentar, e Motta respondeu que pegaria o texto para encaminhá-lo. O episódio mostra que Vorcaro tinha acesso direto ao presidente da Câmara para tratar de assuntos relacionados à tramitação legislativa.

Outro assunto mencionado nas conversas foi o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade importante para o sistema financeiro e especialmente relevante no contexto das operações do Banco Master. As mensagens também registram discussões sobre negócios e questões do mercado bancário.

Motta pediu para falar com Vorcaro antes de reunião no Banco Central

Outro episódio revelado nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2026, envolve uma ligação ocorrida em 19 de julho de 2025.

Por volta das 7h daquele sábado, Hugo Motta enviou mensagem para Daniel Vorcaro dizendo que gostaria de falar com ele “antes da reunião” e pediu que o empresário ligasse quando pudesse. Vorcaro telefonou imediatamente. A chamada durou 1 minuto e 48 segundos.

Poucas horas depois, Vorcaro e seu sócio, Augusto Lima, participaram de uma reunião no Banco Central com o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, e o então responsável pela área de Regulação, Gilneu Vivan.

A audiência ocorreu entre 9h e 10h, na sede do Banco Central, em Brasília, e tinha como tema oficial a documentação relacionada à tentativa de venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB).

O conteúdo da ligação entre Motta e Vorcaro não foi divulgado. Portanto, os registros telefônicos, isoladamente, não permitem afirmar qual assunto foi tratado ou que tenha havido interferência de Motta na reunião do Banco Central. Essa distinção é importante diante da gravidade das suspeitas que posteriormente atingiram o Banco Master.

No mesmo dia, no final da tarde, Motta voltou a telefonar para Vorcaro. A segunda ligação durou 2 minutos e 24 segundos.

O momento era especialmente delicado para o Banco Master

A proximidade temporal entre a ligação e a reunião chama atenção porque, naquele período, o Banco Central já analisava problemas relacionados às operações envolvendo carteiras de crédito do Master e do BRB.

Segundo as informações divulgadas a partir dos documentos da investigação, quatro dias antes, em 15 de julho de 2025, o Banco Central havia comunicado ao Ministério Público Federal indícios de crimes no sistema financeiro relacionados às operações envolvendo as carteiras de crédito. Posteriormente, o BC identificou inconsistências e apontou a existência de ativos considerados insubsistentes nas operações analisadas.

A operação de aquisição do Banco Master pelo BRB acabou sendo rejeitada pelo Banco Central em setembro de 2025.

Vorcaro dizia ser “number 1” de Hugo Motta

Outro elemento revelado pelas mensagens é a forma como Vorcaro descrevia sua proximidade com o presidente da Câmara.

Em fevereiro de 2025, um dia depois da eleição de Hugo Motta para comandar a Câmara, Vorcaro disse ao seu diretor jurídico, Luiz Rennó, que estava em Brasília com “Davi e Hugo”, em referência a Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Hugo Motta.

Questionado sobre seu relacionamento com Motta, Vorcaro respondeu que era “number 1” e “amigo irmão”.

As mensagens também registram encontros de Motta com Vorcaro em diferentes ocasiões, incluindo jantar na residência oficial da Câmara. O material apreendido pela PF mostra ainda pedidos relacionados a camarotes, viagens, caronas e outros favores, segundo reportagens que analisaram os diálogos.

Relação ultrapassava o caso do terreno

O conjunto das mensagens apresenta uma relação que envolvia diferentes áreas: negócios privados, assuntos legislativos, mercado financeiro, viagens e contatos pessoais.

Além de Motta, o material relacionado a Vorcaro menciona diversos nomes do cenário político e empresarial brasileiro. Entre eles estão Davi Alcolumbre, Ciro Nogueira, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, Ibaneis Rocha, João Doria, José Dirceu, André Esteves e Joesley e Wesley Batista.

Em março de 2025, por exemplo, Vorcaro relatou que Hugo Motta e Ciro Nogueira haviam chegado à sua residência para conversar com alguém identificado por ele como “Alexandre”, referência atribuída nas reportagens ao ministro Alexandre de Moraes. O contexto completo daquele encontro não aparece nas mensagens divulgadas.

Reclamações sobre Galípolo, André Esteves e Joesley Batista

O material também mostra que Vorcaro mantinha contatos e manifestava interesses relacionados a outros integrantes do sistema financeiro.

Em conversas anteriores, o empresário relatou encontros com André Esteves, do BTG Pactual, relacionados a uma possível proposta envolvendo o Banco Master. Segundo o relato de Vorcaro, Esteves teria defendido que ele abandonasse as negociações com o BRB. O BTG, posteriormente, afirmou que nunca teve interesse em comprar o Banco Master e que realizou apenas aquisições pontuais de ativos.

Joesley Batista, um dos controladores da JBS, também aparece entre os contatos de Vorcaro. As mensagens indicam pelo menos uma visita do banqueiro à casa do empresário. Joesley e Wesley Batista também estavam registrados na agenda telefônica de Vorcaro.

O que diz Hugo Motta

Hugo Motta negou que as conversas revelem qualquer irregularidade.

Em manifestação divulgada pela CNN, o presidente da Câmara afirmou que mantém diálogo com diferentes setores empresariais e representantes da sociedade. Ele declarou que não há ilícito nos diálogos publicados e rejeitou interpretações de que as conversas demonstrariam favorecimento ou interesse indevido.

Motta também afirmou que o empréstimo realizado pela empresa privada ligada à sua família ocorreu quando ainda não eram públicos os fatos e as investigações posteriormente relacionados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. O parlamentar disse confiar nos órgãos responsáveis pelas apurações.

O ponto central das revelações

As mensagens não constituem, por si mesmas, prova de que Hugo Motta tenha cometido crime. Também não demonstram, apenas pelos registros divulgados, o conteúdo das duas ligações realizadas em 19 de julho de 2025 nem permitem concluir que o presidente da Câmara tenha interferido na reunião entre Vorcaro e o Banco Central.

O que os documentos efetivamente mostram é uma relação de proximidade entre o então controlador do Banco Master e o presidente da Câmara, com conversas que envolveram uma operação imobiliária de R$ 45 milhões, um empréstimo de R$ 22 milhões, a possibilidade de uma “sociedade”, discussões sobre projeto de lei, FGC, contatos pessoais e comunicação direta em um momento em que o futuro do Banco Master estava sendo analisado pelo Banco Central.

É justamente essa combinação de negócios privados, acesso político e contatos institucionais que coloca as mensagens sob escrutínio e levanta questionamentos sobre a necessidade de esclarecer integralmente a natureza da relação entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro. As investigações deverão estabelecer se houve apenas relacionamento pessoal e empresarial ou se algum dos contatos teve repercussão indevida sobre decisões públicas — questão que não pode ser respondida apenas pelas mensagens já divulgadas.

O caso permanece, portanto, dependente da análise dos demais elementos reunidos pela Polícia Federal, dos documentos financeiros, das agendas oficiais e das eventuais manifestações dos envolvidos e das autoridades responsáveis pela investigação.

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