Motorista de Haddad reafirma à polícia relato de abordagem da PM, enquanto governo Tarcísio aponta contradições

Motorista de Haddad reafirma à polícia relato de abordagem da PM, enquanto governo Tarcísio aponta contradições

Depoimento de Alessandro Caseri mantém versão de que policiais militares acompanharam seu carro e fizeram uma abordagem perto de um hotel; gestão estadual sustenta que imagens e GPS não registram perseguição e afirma ter analisado mais de 70 câmeras

O caso envolvendo o motorista do candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) e uma viatura da Polícia Militar ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (17), com o depoimento do motorista à Polícia Civil. Alessandro Caseri manteve a essência do relato apresentado pela campanha petista: segundo ele, houve uma sequência de aproximações de policiais militares durante o trajeto e, posteriormente, uma abordagem nas proximidades de um hotel onde buscou abrigo.

O depoimento, porém, ocorre em meio a uma disputa de versões. De um lado, Haddad afirma que a investigação realizada pelo governo de Tarcísio de Freitas pode ter analisado câmeras que não registram justamente o ponto central da denúncia. De outro, o governo estadual afirma que mais de 70 câmeras foram verificadas e que os registros, cruzados com dados de geolocalização das viaturas, não indicam perseguição ou abordagem irregular.

A controvérsia transformou um episódio inicialmente tratado como uma ocorrência de segurança em mais um foco de tensão na disputa eleitoral paulista.

Motorista mantém relato à Polícia Civil

Segundo informações divulgadas após o depoimento, Caseri relatou aos investigadores que houve três momentos distintos que considerou suspeitos durante a noite de 11 de agosto.

O primeiro teria ocorrido quando ainda transportava Haddad. Segundo o motorista, policiais teriam passado pelo veículo e utilizado uma luz de alta intensidade, descrita por ele como um “canhão de luz”, direcionada aos ocupantes.

O segundo episódio teria ocorrido depois de Caseri deixar Haddad em casa. O motorista afirmou que uma viatura teria se aproximado do seu automóvel na região da Avenida Moreira Guimarães, nas proximidades do Detran, e emparelhado com o veículo.

O terceiro momento é justamente o que se tornou o principal ponto de divergência entre as versões.

Caseri afirmou que, já nas proximidades do hotel onde decidiu parar, a viatura teria passado pelo seu carro, estacionado e que policiais teriam descido. Segundo seu relato, um dos agentes teria ordenado que ele deixasse o local.

Apesar de considerar a conduta fora do padrão, o motorista declarou que não pretende acusar os policiais de abuso de poder. Ele também afirmou não possuir vínculo político com Haddad.

A versão apresentada pelo governo de Tarcísio

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo e o governador Tarcísio de Freitas apresentam uma versão diferente.

Segundo a apuração preliminar da Polícia Militar, não foram encontrados indícios de irregularidade na atuação dos agentes. A investigação teria recorrido a imagens de câmeras instaladas ao longo do trajeto e aos registros de geolocalização das viaturas.

Tarcísio afirmou no domingo (16) que mais de 70 câmeras foram analisadas e que o cruzamento das imagens com os dados de GPS não teria demonstrado uma perseguição.

O governador também admitiu que viaturas cruzaram o trajeto realizado pelo motorista, mas sustentou que elas estavam cumprindo seus itinerários normais de patrulhamento. Em relação à viatura registrada nas proximidades do hotel, afirmou que ela teria apenas passado pelo local e posteriormente seguido para outra atividade policial.

Tarcísio classificou o episódio como uma possível “falsa comunicação” de crime e afirmou que, caso fosse comprovado algum desvio de conduta policial, os responsáveis seriam punidos.

A Polícia Civil passou a conduzir a investigação para esclarecer definitivamente a divergência.

O ponto central: as câmeras mostram tudo?

É justamente nesse aspecto que Haddad concentra sua contestação.

O petista afirma que as imagens divulgadas pelo governo não seriam suficientes para afastar o relato de seu motorista porque não mostram integralmente o local onde, segundo Caseri, a viatura teria parado.

Haddad argumenta que uma câmera mostra a passagem da viatura pelo carro, mas deixa de registrar o que teria acontecido depois. Por isso, segundo ele, analisar dezenas de câmeras não resolve necessariamente a questão se as imagens selecionadas não alcançarem o ponto exato indicado pelo motorista.

A campanha pretende indicar à Polícia Civil quais câmeras, segundo sua avaliação, poderiam esclarecer o episódio.

Em outras palavras, a disputa deixou de ser apenas sobre quantas câmeras foram analisadas e passou a envolver quais câmeras foram analisadas e quais momentos do trajeto elas efetivamente conseguem registrar.

Vídeo divulgado pela SSP virou peça importante da investigação

A Secretaria da Segurança Pública divulgou imagens de uma câmera localizada nas proximidades do hotel.

Segundo a versão oficial, o carro conduzido pelo motorista chegou ao local às 21h58. Caseri teria descido do veículo, aberto o porta-malas, retirado um objeto e retornado ao automóvel.

Uma viatura da PM aparece passando pelo local posteriormente, às 22h24. Segundo a SSP, não há registro, naquele trecho, de abordagem ou interação entre os policiais e o motorista.

Ainda de acordo com a versão oficial, Caseri deixou o local às 22h26. A secretaria afirmou que a análise de novas imagens elevou para aproximadamente 70 o número de câmeras examinadas.

É justamente essa sequência que a campanha de Haddad questiona.

Para o candidato petista, o fato de determinada câmera não registrar uma abordagem não significa necessariamente que ela não tenha acontecido em outro ponto ou em outro ângulo não coberto pelo equipamento.

Relatos diferentes sobre o trajeto

O caso começou depois de Haddad afirmar que seu motorista havia sido acompanhado por uma viatura policial na noite de 11 de agosto, depois de deixá-lo em casa.

Segundo o relato inicial apresentado pela campanha, o motorista teria percorrido cerca de cinco quilômetros até chegar a um hotel, onde decidiu parar por entender que o local oferecia maior segurança por possuir câmeras.

A denúncia provocou reação imediata da Secretaria da Segurança Pública, que abriu uma apuração para verificar a atuação dos policiais.

Nos primeiros levantamentos, a pasta informou ter analisado dezenas de câmeras privadas e não ter encontrado evidências de abordagem ou procedimento irregular. Naquele momento, a SSP também afirmou que, caso surgissem indícios de irregularidade, a apuração poderia ser transformada em inquérito.

Posteriormente, novas imagens foram incorporadas à investigação, enquanto a Polícia Civil passou a ouvir diretamente as pessoas envolvidas.

Ouvidoria da PM também levantou questionamentos

O episódio não ficou restrito ao confronto entre Haddad e Tarcísio.

O ouvidor da Polícia Militar de São Paulo, Mauro Caseri, apontou a possibilidade de irregularidades na conduta dos policiais caso eles realmente tenham acompanhado o veículo sem realizar uma abordagem formal ou comunicar adequadamente o comando.

Na avaliação apresentada pelo ouvidor, se os policiais estivessem seguindo o carro por suspeita de que se tratava de um veículo relacionado a um crime, seria necessário observar os protocolos correspondentes, inclusive procedimentos de identificação e registro.

Ele defendeu uma investigação mais aprofundada, com análise de registros e câmeras corporais. Também mencionou a possibilidade de examinar comunicações dos agentes caso surgissem elementos que apontassem para eventual motivação política.

Essa manifestação acrescentou uma terceira dimensão ao episódio: mesmo que não seja comprovada uma perseguição política, ainda será necessário esclarecer se a conduta dos policiais, caso tenha ocorrido como descrita pelo motorista, seguiu os protocolos operacionais.

Haddad acusa investigação de possível inversão

Ao comentar o depoimento, Haddad criticou o fato de seu motorista ter sido ouvido somente depois de a Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública já terem realizado parte da apuração.

O candidato afirmou que considerava estranho que a pessoa que relatou ter sido vítima da suposta intimidação fosse ouvida posteriormente às primeiras análises.

Para Haddad, o procedimento deveria começar pelo depoimento do motorista, seguido pela identificação dos locais e das câmeras capazes de confirmar ou refutar seu relato.

A crítica aumenta a pressão sobre a Polícia Civil, que agora precisa confrontar diretamente as duas narrativas: a do motorista e a apresentada pelo governo estadual.

Caso entrou no centro da disputa eleitoral

O episódio ocorre no começo oficialmente da campanha para o governo de São Paulo e colocou Haddad e Tarcísio novamente em lados opostos de uma controvérsia envolvendo segurança pública e atuação policial.

Tarcísio tenta sustentar a imagem de que sua administração possui mecanismos de controle capazes de identificar e punir eventuais desvios cometidos por policiais. Haddad, por sua vez, utiliza o episódio para questionar a transparência da investigação e levantar dúvidas sobre a atuação da estrutura de segurança comandada pelo governador.

A questão eleitoral ganhou ainda mais peso porque o episódio aconteceu poucos dias antes do início formal das campanhas e envolve justamente um dos principais temas da eleição paulista: segurança pública.

Campanha de Haddad também foi marcada por episódio envolvendo Marina Silva

No mesmo dia em que o motorista prestou depoimento, Haddad iniciou sua primeira agenda de campanha no centro de São Paulo.

Durante uma caminhada entre a Praça da República e o Theatro Municipal, um homem tentou agredir ou intimidar a candidata ao Senado Marina Silva (Rede), que acompanhava o petista. Assessores da campanha intervieram rapidamente e afastaram o homem.

Haddad afirmou posteriormente que, em sua avaliação, o episódio teria sido mais uma tentativa de intimidação do que propriamente um ataque físico e atribuiu o comportamento à extrema-direita.

A caminhada foi organizada como uma agenda voltada às mulheres e contou também com Simone Tebet e Ana Estela Haddad. O candidato apresentou propostas relacionadas ao combate ao feminicídio, à violência doméstica, às lesões corporais e ao assédio sexual.

O episódio envolvendo Marina acabou reforçando, no discurso de Haddad, a associação entre segurança pública, proteção das mulheres e ambiente de violência política.

O que ainda precisa ser esclarecido

A investigação da Polícia Civil deverá responder a algumas perguntas centrais:

  • A viatura realmente acompanhou o veículo de forma deliberada?
  • Quantas vezes o carro policial passou ou se aproximou do automóvel?
  • A viatura estacionou nas proximidades do hotel?
  • Houve policiais que desembarcaram?
  • Algum agente ordenou que o motorista deixasse o local?
  • As imagens divulgadas pela SSP cobrem integralmente os pontos indicados pelo motorista?
  • Há outras câmeras capazes de registrar o momento alegado por Caseri?
  • Os dados de GPS correspondem exatamente aos horários e locais narrados pelo motorista?
  • Os policiais estavam em alguma diligência específica naquela região?
  • Houve comunicação pelo rádio ou registro operacional relacionado ao veículo?
  • As câmeras corporais dos agentes possuem gravações do período?
  • Houve alguma irregularidade administrativa, disciplinar ou eleitoral?

Até o momento, não há conclusão definitiva que confirme a acusação de perseguição política nem prova definitiva de que o relato do motorista seja falso. O que existe é uma colisão entre versões, registros de câmeras interpretados de maneiras diferentes e uma investigação policial ainda em andamento.

A própria existência de imagens não encerra necessariamente a controvérsia: o ponto decisivo será determinar se os registros disponíveis abrangem todos os momentos descritos por Caseri.

Enquanto a Polícia Civil prossegue com a apuração, o episódio permanece incorporado à disputa entre Haddad e Tarcísio — uma eleição em que segurança pública, atuação policial e confiança nas instituições já aparecem como temas centrais.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags