
PF aponta compra de R$ 1,7 milhão em gado por presidente da Conafer com recursos investigados em fraude bilionária no INSS
Relatório da Operação Sem Desconto afirma que Carlos Roberto Ferreira Lopes, conhecido como “Mão Preta do INSS”, utilizou empresas de fachada para ocultar patrimônio adquirido com recursos provenientes de descontos associativos considerados ilegais em aposentadorias e pensões; investigação já resultou no indiciamento de 48 pessoas.
A Polícia Federal (PF) identificou uma suposta compra de R$ 1,7 milhão em gado realizada por Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), entidade apontada como um dos principais núcleos da fraude bilionária envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Conhecido pelos investigadores como “Mão Preta do INSS”, Carlos Lopes é considerado um dos principais articuladores do esquema investigado na Operação Sem Desconto, que apura uma organização criminosa acusada de inserir cobranças associativas sem autorização em aposentadorias e pensões de milhares de beneficiários do INSS.
As informações constam em relatório encaminhado pela Polícia Federal ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. O documento foi produzido a partir da análise do telefone celular do empresário Higor Dalle Vedove Lourenção, um dos investigados na primeira fase da operação.
Compra milionária de gado
Segundo a investigação, uma conversa encontrada no aplicativo WhatsApp revela que Carlos Roberto Ferreira Lopes teria emitido um cheque de R$ 1,7 milhão para adquirir um grande lote de bovinos. Além desse pagamento, foram identificados outros cheques de R$ 40 mil destinados à compra de animais.
Em uma das mensagens analisadas pela PF, um interlocutor identificado como Cícero relata preocupação com a compensação do cheque milionário, afirmando que Carlos estava apreensivo diante da possibilidade de interrupção dos pagamentos que abasteciam o esquema investigado.
Conforme a investigação, Cícero descreve que o dirigente teria ligado diversas vezes para confirmar se o valor já havia sido creditado, demonstrando nervosismo diante da situação financeira.
Para os investigadores, o diálogo reforça a suspeita de que os recursos utilizados na aquisição do rebanho tinham origem nas verbas recebidas pela Conafer por meio dos descontos associativos considerados ilegais.
Operador financeiro do grupo
A Polícia Federal afirma que Cícero Marcelino de Souza Santos exercia a função de operador financeiro da organização.
Segundo o relatório, ele coordenava pagamentos relacionados à compra de gado, cavalos e material genético de alto valor destinados ao patrimônio de Carlos Lopes.
Durante a investigação, a PF descobriu um grupo de mensagens denominado “GADO COMPROVANTES”, onde eram armazenados diversos comprovantes bancários relacionados às aquisições de animais realizadas pelo grupo investigado.
Os investigadores destacam que os recursos utilizados não saíam diretamente das contas pessoais de Carlos Roberto nem da agropecuária vinculada ao empresário.
O dinheiro era movimentado por uma complexa rede de empresas de fachada, utilizadas para ocultar a origem dos valores.
Empresas movimentaram mais de R$ 1,17 milhão
A investigação identificou que, entre agosto e setembro de 2023, empresas ligadas ao grupo transferiram R$ 1.173.060 para Elisvaldo Vilanova de Menezes, responsável pelo fornecimento de lotes de gado destinados a Carlos Roberto Ferreira Lopes.
Posteriormente, em novembro de 2024, outro pagamento de R$ 675 mil foi realizado ao fornecedor identificado como “Celso Gado”, correspondente à aquisição de mais 30 bovinos.
Segundo a PF, essas operações fazem parte do processo de lavagem de dinheiro utilizado para converter recursos obtidos ilegalmente em patrimônio rural.
Conafer movimentou mais de R$ 700 milhões
De acordo com o relatório, a Conafer recebeu mais de R$ 700 milhões durante o período analisado pela investigação.
Os investigadores sustentam que parte significativa desses recursos foi desviada para aquisição de:
- Fazendas;
- Grandes rebanhos bovinos;
- Cavalos de alto valor;
- Veículos de luxo;
- Equipamentos agrícolas;
- Empresas utilizadas para ocultação patrimonial.
No total, a PF calcula que o núcleo ligado à Conafer movimentou R$ 708 milhões entre 2019 e 2024.
Fazendas e patrimônio
Segundo a Polícia Federal, Carlos Roberto Ferreira Lopes, sua esposa Bruna Braz de Souza Santos e seu cunhado Vinicius Ramos da Cruz utilizaram a empresa Agropecuária e Mineração Lagoa Alta Ltda. para adquirir propriedades rurais e expandir um expressivo patrimônio agropecuário.
As fazendas localizadas nos municípios mineiros de:
- Nova Módica;
- Itambacuri;
- Jequitinhonha;
foram alvo de medidas judiciais durante a operação.
Quase 1.500 bovinos apreendidos
Durante o cumprimento dos mandados judiciais, a Polícia Federal apreendeu:
- 1.487 bovinos;
- 33 equinos e muares;
- caminhões;
- carretas;
- uma caminhonete Trailblazer;
- equipamentos agrícolas;
- documentos das propriedades rurais.
Como o transporte imediato do rebanho seria inviável, a Justiça determinou que os animais permanecessem nas fazendas, sob responsabilidade de depositários judiciais.
Estrutura de lavagem de dinheiro
A PF afirma que a organização criminosa utilizava uma sofisticada estrutura financeira para ocultar os recursos obtidos com os descontos indevidos nos benefícios previdenciários.
Segundo o relatório, os investigadores identificaram dois grandes núcleos financeiros.
O primeiro seria comandado por Cícero Marcelino de Souza Santos e sua esposa, Ingrid Pikinskeni Morais.
Empresas ligadas ao casal receberam, segundo a investigação, mais de R$ 312 milhões provenientes da Conafer.
Outro núcleo seria operado por Samuel Chrisóstomo do Bomfim Júnior e sua irmã, Lucineide dos Santos Oliveira, cujas empresas também teriam participado da movimentação e ocultação dos recursos.
Fraude no INSS
A Operação Sem Desconto investiga um esquema de descontos associativos realizados sem autorização em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
Segundo a Polícia Federal, a organização utilizava entidades de fachada para filiar beneficiários sem consentimento, permitindo a cobrança automática de mensalidades diretamente nos pagamentos previdenciários.
As investigações tiveram origem após uma série de reportagens publicadas pelo portal Metrópoles, que revelou o crescimento expressivo da arrecadação dessas entidades e milhares de ações judiciais envolvendo filiações consideradas fraudulentas.
As informações subsidiaram investigações conduzidas pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU), culminando na deflagração da Operação Sem Desconto.
Indiciamentos
O primeiro inquérito da operação resultou no indiciamento de 48 pessoas pelos crimes de:
- organização criminosa;
- lavagem de dinheiro qualificada e reiterada;
- corrupção.
Carlos Roberto Ferreira Lopes foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa majorada e é considerado foragido pela Polícia Federal.
Também figuram entre os investigados:
- Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS;
- Virgílio Antônio Ribeiro Filho, ex-procurador-geral do instituto;
- André Fidelis, ex-diretor de Benefícios;
- Antonio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Segundo a PF, os quatro permanecem presos preventivamente.
Agora, caberá ao ministro André Mendonça encaminhar o relatório à Procuradoria-Geral da República (PGR), responsável por decidir se apresentará denúncia criminal contra os investigados.
Procurada, a Conafer não havia se manifestado até a publicação das informações, permanecendo o espaço aberto para eventual posicionamento.