PM havia reforçado patrulhamento no Planalto Paulista dias antes de episódio com motorista de Haddad

PM havia reforçado patrulhamento no Planalto Paulista dias antes de episódio com motorista de Haddad

Ordens de serviço determinaram emprego de Força Tática e ROCAM na região quatro dias antes do caso; operação contra roubos e furtos de “quebra-vidros” já estava programada

Documentos internos da Polícia Militar de São Paulo mostram que o patrulhamento no Planalto Paulista, na zona sul da capital, havia sido reforçado dias antes do episódio envolvendo o motorista do candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad. As ordens de serviço indicam que equipes especializadas já tinham sido direcionadas para a região antes da ocorrência de 11 de agosto.

Segundo os documentos divulgados pela Jovem Pan, em 7 de agosto, quatro dias antes do episódio, a PM determinou o emprego da Força Tática e da ROCAM (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) nas proximidades da Avenida Indianópolis. O patrulhamento deveria ocorrer das 14h às 23h, com atenção especial entre 18h e 22h, para combater crimes classificados pela corporação como “roubo outros”.

No dia seguinte, 8 de agosto, uma nova ordem de serviço estabeleceu a chamada Operação Impacto Quebra Vidros. A iniciativa tinha como objetivo combater roubos e furtos cometidos contra motoristas parados no trânsito, principalmente crimes nos quais criminosos quebram os vidros dos veículos para levar celulares, bolsas, carteiras e outros objetos. A operação tinha previsão de permanecer ativa até 30 de setembro.

As duas determinações, de acordo com os documentos, tiveram origem em uma reunião realizada em 23 de julho na Prefeitura de São Paulo, com a participação do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo, do PL. Dessa forma, o reforço policial não foi criado especificamente em razão do episódio envolvendo Haddad, mas fazia parte de uma estratégia de segurança estabelecida anteriormente.

O episódio envolvendo o motorista

O caso que provocou a controvérsia ocorreu na noite de 11 de agosto, depois que o motorista Alessandro Caseri deixou Haddad em sua residência, no Planalto Paulista.

Caseri afirmou que passou a ser acompanhado por policiais militares depois de deixar o candidato. Segundo o relato apresentado pela campanha petista, viaturas teriam seguido o veículo e, posteriormente, ocorrido uma abordagem nas proximidades de um hotel na zona sul.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, por sua vez, afirmou que não houve perseguição e que as equipes estavam realizando patrulhamento relacionado ao combate a crimes na região.

Inicialmente, a explicação oficial sustentava que a presença das viaturas estaria relacionada a uma operação contra criminosos especializados em roubos de veículos e no chamado “quebra-vidros”.

Novas imagens ampliaram a controvérsia

A campanha de Haddad apresentou posteriormente vídeos e um laudo técnico produzido por peritos contratados para analisar imagens de câmeras de segurança. Segundo o material, uma viatura teria permanecido nas proximidades do veículo do motorista durante cerca de 20 minutos.

A Secretaria da Segurança Pública contestou a interpretação apresentada pela campanha e afirmou que as imagens utilizadas na perícia já faziam parte da investigação interna da corporação. Segundo a pasta, o policial identificado nas imagens teria circulado pelo local somente depois que o veículo de Caseri deixou a área.

O episódio também chegou à Justiça Eleitoral. O Ministério Público Eleitoral acabou arquivando a representação apresentada pela campanha de Haddad por não identificar crime eleitoral ou abuso de poder que justificasse a continuidade daquela investigação. O procurador regional eleitoral Paulo Taubemblatt, contudo, classificou como “inverossímil” a versão de que a movimentação das equipes teria sido apenas uma coincidência decorrente do patrulhamento ordinário.

A avaliação do Ministério Público acrescentou uma nova camada à disputa política: embora não tenha encontrado elementos suficientes para caracterizar ilícito eleitoral, o órgão considerou pouco convincente a explicação apresentada pela administração estadual para a presença das equipes naquele contexto.

Outro caso registrado na mesma noite

Os documentos da PM também apontam que, horas depois de Haddad chegar em casa, policiais foram acionados para atender uma ocorrência relacionada a furtos de veículos em trânsito na Avenida Indianópolis.

Por volta das 23h10, segundo a corporação, uma equipe localizou um carro ocupado por dois adolescentes e um adulto. Celulares e outros objetos foram apreendidos. Um quarto adolescente também teria sido localizado e apontado como responsável pelo furto de um celular.

A ocorrência foi registrada no 27º Distrito Policial.

Esse episódio é utilizado pela Polícia Militar para sustentar que havia, de fato, uma operação de combate a crimes desse tipo naquela região naquela noite. Os documentos divulgados agora reforçam esse argumento ao demonstrar que as ações de patrulhamento haviam sido determinadas antes do episódio com o motorista de Haddad.

Disputa política

O caso ganhou dimensão eleitoral porque Haddad é adversário direto do governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, que disputa a reeleição ao governo paulista.

Haddad afirmou que buscava esclarecimentos sobre a atuação dos policiais e negou ter feito uma acusação direta contra Tarcísio. A campanha petista, entretanto, levantou a possibilidade de uso político do aparato de segurança pública para intimidar o candidato e seu motorista.

A gestão estadual rejeitou a acusação e determinou a apuração dos fatos. A Secretaria da Segurança Pública informou que analisou imagens de dezenas de câmeras, dados de localização das viaturas, registros operacionais, radares e depoimentos para reconstruir o episódio.

Com a divulgação das ordens de serviço de 7 e 8 de agosto, surge um elemento importante para a reconstrução da cronologia: o reforço policial no Planalto Paulista não começou na noite em que o motorista de Haddad relatou ter sido seguido. A PM já havia programado a presença de equipes especializadas na área quatro dias antes, e uma operação específica contra roubos de veículos e “quebra-vidros” estava prevista para permanecer em funcionamento até o fim de setembro.

O novo dado, porém, não encerra a controvérsia sobre o que ocorreu especificamente com o motorista. A existência de uma operação previamente planejada explica a presença de policiais na região, mas não determina, por si só, se a conduta das equipes naquela noite correspondeu exatamente aos protocolos da operação. Esse é o ponto que permanece no centro das versões conflitantes apresentadas pela campanha de Haddad e pelo governo paulista.

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