
Tarcísio rebate Haddad e reafirma gratidão a Bolsonaro: “Não tenho vergonha”
Governador de São Paulo diz que Jair Bolsonaro “estendeu a mão” quando ele ainda era um técnico e o transformou em ministro; declaração ocorreu durante debate eleitoral da Band
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio Gomes de Freitas, do Republicanos, reagiu às críticas feitas pelo adversário Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), e afirmou que não sente vergonha de sua relação política com o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, do Partido Liberal (PL).
A declaração ocorreu durante o debate promovido pela TV Bandeirantes, no domingo (9 de agosto de 2026), em meio a uma disputa marcada por ataques políticos, discussões sobre segurança pública e pela tentativa dos candidatos de definir suas posições diante da polarização nacional.
Questionado por Haddad sobre sua proximidade com Bolsonaro, Tarcísio foi direto ao defender a relação construída com o ex-presidente.
“Eu não tenho vergonha não, vou ter sempre gratidão ao Bolsonaro.”
Na sequência, o governador afirmou que Haddad estaria excessivamente concentrado na figura do ex-presidente e tentou deslocar o debate para a disputa estadual.
“Você está muito focado em Bolsonaro, Bolsonaro. Esquece o Bolsonaro, você não está concorrendo contra ele mais.”
Tarcísio também explicou a origem de sua relação com Bolsonaro e destacou que, antes de entrar na política, sua trajetória estava ligada à área técnica e à administração pública.
“É uma pessoa que estendeu a mão, uma pessoa que pegou um técnico e transformou esse técnico em ministro.”
Da carreira técnica ao Ministério da Infraestrutura
A referência feita por Tarcísio remete à trajetória que o levou ao governo federal durante a administração Bolsonaro.
Antes de ocupar cargos políticos de maior projeção, Tarcísio construiu carreira como engenheiro e servidor público, com atuação ligada à infraestrutura. Durante o governo Bolsonaro, foi escolhido para comandar o então Ministério da Infraestrutura, posição que ampliou sua projeção nacional e posteriormente contribuiu para sua entrada na disputa eleitoral em São Paulo.
Ao relembrar esse período, o governador procurou apresentar sua relação com Bolsonaro como resultado de uma oportunidade profissional e política que considera decisiva para sua trajetória.
A fala também funciona como uma resposta às tentativas de adversários de explorar a proximidade entre os dois políticos em um momento no qual o legado e a imagem do ex-presidente continuam tendo peso relevante no cenário eleitoral.
Haddad tenta colocar Bolsonaro no centro do debate
Fernando Haddad, ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo e candidato do PT ao governo estadual, tem utilizado a ligação de Tarcísio com Bolsonaro como um dos elementos de sua estratégia de campanha.
Durante o debate, a intenção de Haddad foi questionar o posicionamento do governador diante do ex-presidente e de seu grupo político.
A estratégia coloca Tarcísio diante de um dilema eleitoral: ao mesmo tempo em que mantém a proximidade com o eleitorado identificado com Bolsonaro, o governador precisa apresentar sua própria candidatura como uma alternativa para São Paulo e não apenas como uma extensão da liderança nacional do ex-presidente.
Tarcísio, por sua vez, respondeu tentando separar os dois momentos da disputa. Ao dizer que Haddad não estaria concorrendo contra Bolsonaro, o governador procurou reforçar que a eleição estadual deveria ser concentrada nos problemas e nas propostas para São Paulo.
Relação entre Tarcísio e Bolsonaro
A relação entre Tarcísio e Bolsonaro começou a ganhar dimensão política nacional quando o então presidente o escolheu para comandar a pasta responsável por importantes projetos de infraestrutura do país.
O desempenho no ministério ajudou a tornar Tarcísio conhecido fora dos círculos técnicos e, posteriormente, ele se tornou candidato ao governo paulista com apoio direto de Bolsonaro.
Depois de eleito governador, Tarcísio manteve proximidade política com o ex-presidente e continuou sendo identificado como uma das principais lideranças do campo conservador em São Paulo.
Essa relação, entretanto, passou a ser explorada de maneira diferente pelos adversários conforme a disputa eleitoral avançou.
Para Haddad e seus aliados, a associação com Bolsonaro é uma forma de questionar as posições políticas de Tarcísio. Para o governador, a relação representa uma trajetória política da qual não pretende se afastar.
Segurança pública vira eixo da disputa
O debate também evidenciou que a segurança pública deve ocupar posição central na campanha pelo governo de São Paulo.
Tarcísio tem defendido sua política de combate ao crime organizado e às grandes facções criminosas, enquanto Haddad e seus aliados vêm questionando a estratégia adotada pelo governo estadual.
No dia seguinte ao debate, o candidato a deputado federal José Luiz Datena, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), participou de um evento da campanha de Haddad voltado à apresentação de propostas para a segurança pública e fez duras críticas à gestão Tarcísio.
Datena afirmou que o governador teria prestado um “grande desserviço” à segurança de São Paulo e criticou a estratégia de enfrentamento de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O apresentador também defendeu uma atuação integrada entre as polícias, o Ministério Público e os grupos especializados no combate ao crime organizado.
Datena critica Tarcísio e defende integração entre instituições
Ao comentar declarações atribuídas a Tarcísio sobre a importância das forças policiais e do Ministério Público no combate às organizações criminosas, Datena afirmou que seria equivocada a ideia de reduzir a participação do Ministério Público nesse tipo de investigação.
O candidato do PSB citou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) como exemplo de estrutura que, segundo ele, deve atuar de maneira integrada com as forças policiais.
“Ontem o Tarcísio disse uma bobagem que não tem absolutamente tamanho.”
Segundo Datena, a experiência paulista demonstraria a necessidade de cooperação entre as instituições responsáveis pela investigação e repressão ao crime organizado.
O episódio acrescentou mais um capítulo à disputa em torno da segurança pública, tema que tem sido explorado pelos candidatos ao governo paulista durante a campanha.
Márcio França, Marina Silva e Simone Tebet participaram do evento
A apresentação do programa de segurança da campanha de Fernando Haddad reuniu diferentes nomes do campo político que apoia o candidato petista.
Participaram do evento o candidato a vice-governador Márcio França, do PSB; as candidatas ao Senado Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, do PSB; além do deputado estadual Emidio de Souza, do PT de São Paulo, que coordena o programa de governo.
A presença do grupo reforçou a tentativa da campanha de Haddad de apresentar uma frente política ampla para a disputa estadual.
O encontro também serviu para aprofundar as críticas à atual política de segurança do governo Tarcísio e apresentar uma proposta baseada, segundo os participantes, na integração entre diferentes órgãos públicos.
Disputa ganha contornos nacionais
O embate entre Tarcísio e Haddad não se limita às questões administrativas de São Paulo. A trajetória dos dois candidatos carrega forte dimensão nacional.
Haddad foi candidato à Presidência da República em 2018, eleição vencida por Bolsonaro. Tarcísio, por sua vez, ganhou projeção nacional justamente durante o governo Bolsonaro e posteriormente consolidou sua carreira política em São Paulo.
É nesse contexto que a referência de Tarcísio à “gratidão” assume peso político.
Ao defender publicamente Bolsonaro, o governador não apenas responde a Haddad, mas também reafirma sua identidade política diante de um eleitorado que acompanha de perto a relação entre as lideranças estaduais e nacionais.
A fala também deixa explícito que Tarcísio não pretende transformar sua campanha em uma tentativa de apagar sua trajetória ao lado do ex-presidente.
O confronto entre os dois candidatos
O episódio revela dois movimentos distintos na campanha.
De um lado, Fernando Haddad procura explorar a ligação de Tarcísio com Bolsonaro, tentando associar o adversário ao ex-presidente e ao campo político conservador nacional.
De outro, Tarcísio reafirma a parceria e transforma a relação em elemento de lealdade política, lembrando que Bolsonaro foi responsável por sua entrada no primeiro escalão do governo federal.
Enquanto isso, temas diretamente relacionados ao cotidiano paulista — principalmente segurança pública, combate ao crime organizado, saúde, transporte e administração estadual — tendem a ocupar cada vez mais espaço na campanha.
A eleição, portanto, começa a combinar duas disputas simultâneas: a avaliação sobre a gestão de Tarcísio à frente do Estado e o confronto político mais amplo entre os grupos associados ao bolsonarismo e ao petismo.
Nesse cenário, a declaração de Tarcísio de que continuará tendo “gratidão” a Bolsonaro estabelece uma posição clara diante de um dos principais temas políticos utilizados por seus adversários.
Mais do que uma simples resposta a Haddad, a fala sinaliza que o governador pretende enfrentar a eleição sem esconder a origem de sua trajetória política e sem romper publicamente com a figura que, segundo suas próprias palavras, “estendeu a mão” quando ele ainda era um técnico e o levou ao comando do Ministério da Infraestrutura.