Trump nega conversa com Infantino sobre plano bilionário da FIFA e proposta de venda de participação a investidores privados gera crise no futebol mundial

Trump nega conversa com Infantino sobre plano bilionário da FIFA e proposta de venda de participação a investidores privados gera crise no futebol mundial

Projeto da FIFA prevê criação de subsidiária avaliada em US$ 20 bilhões para administrar competições; possível participação de investidores ligados ao círculo de Trump aumenta questionamentos e provoca reação de confederações internacionais

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira (31) que nunca conversou com Gianni Infantino, presidente da FIFA, sobre o projeto da entidade máxima do futebol mundial de criar uma nova empresa para administrar suas competições e vender parte da participação a investidores privados.

Questionado por jornalistas durante uma reunião de gabinete em Camp David, residência presidencial americana, Trump negou qualquer envolvimento direto nas negociações.

“Não, não conversei com ele”, respondeu o presidente americano ao ser perguntado sobre o assunto.

A declaração ocorre em meio à repercussão internacional causada pelo anúncio da FIFA de criação da chamada FIFA Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária que teria como objetivo administrar eventos e propriedades comerciais ligadas à entidade.

O projeto prevê uma avaliação estimada em cerca de US$ 20 bilhões e a possibilidade de venda de até 20% da empresa para investidores externos.

A proposta provocou questionamentos dentro do futebol internacional, principalmente pela presença de grupos financeiros próximos ao ambiente político de Trump entre os potenciais interessados.

Relação entre Trump e Infantino

Apesar da negativa de Trump sobre qualquer conversa específica relacionada ao projeto, o presidente americano mantém uma relação próxima com Gianni Infantino nos últimos anos.

A aproximação ocorreu principalmente durante grandes eventos realizados nos Estados Unidos, como o Mundial de Clubes e a preparação para a Copa do Mundo de 2026, que será organizada por Estados Unidos, México e Canadá.

A FIFA também abriu um escritório na Trump Tower em Nova York em 2025, reforçando a proximidade institucional entre a entidade esportiva e o ambiente político americano.

Trump e Infantino foram vistos juntos em diferentes ocasiões, especialmente em eventos relacionados ao futebol internacional.

Investidores ligados à família Kushner aparecem no projeto

Um dos principais pontos de controvérsia envolve a participação da empresa de investimentos Thrive Capital, fundada por Joshua Kushner.

O grupo teria interesse em liderar parte dos investimentos privados na nova estrutura financeira da FIFA.

Joshua Kushner é irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump e ex-assessor da Casa Branca durante o primeiro mandato presidencial republicano.

Embora Joshua Kushner não tenha cargo oficial no governo Trump nem uma relação política formal declarada com o presidente, a ligação familiar aumentou os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse.

Jared Kushner teve papel importante na primeira administração Trump, atuando como conselheiro presidencial entre 2017 e 2021.

A família Kushner também esteve envolvida anteriormente em episódios políticos nos Estados Unidos. Charles Kushner, pai de Joshua e Jared, recebeu perdão presidencial durante o primeiro mandato de Trump após condenações relacionadas a crimes fiscais, contribuições ilegais para campanhas e manipulação de testemunhas.

Posteriormente, Charles Kushner foi indicado para representar os Estados Unidos como embaixador na França e em Mônaco.

Outros nomes próximos a Trump envolvidos

Além da Thrive Capital, outros investidores e executivos com conexões com o mercado americano e o universo político de Trump aparecem ligados ao desenvolvimento da FIFA Forward Enterprise.

Um dos nomes citados é Greg Maffei, ex-presidente-executivo da Liberty Media, empresa conhecida por controlar a Fórmula 1.

Maffei participa da estruturação comercial do projeto e possui histórico de atuação no setor esportivo e de entretenimento.

Em 2017, ele realizou uma doação pessoal de US$ 250 mil para o comitê de posse de Trump. Empresas relacionadas à Liberty Media também fizeram contribuições políticas naquele período.

Após deixar a empresa, Maffei criou a BANN Ventures, fundo de investimentos voltado para esportes, mídia e entretenimento.

FIFA busca transformar modelo de negócios

A criação da FFE representa uma tentativa da FIFA de ampliar suas receitas e transformar sua estrutura comercial.

A entidade administra alguns dos eventos esportivos mais lucrativos do mundo, como a Copa do Mundo masculina, a Copa do Mundo feminina, o Mundial de Clubes e outros torneios internacionais.

A proposta seria separar parte das operações comerciais em uma nova empresa, permitindo a entrada de capital privado e buscando novas fontes de investimento.

A FIFA contratou o banco americano J.P. Morgan como principal consultor financeiro do projeto.

Também participa da estruturação a empresa italiana OpenEconomics, especializada em análises econômicas, avaliação de impacto e modelos de financiamento.

Reação das confederações internacionais

A proposta provocou forte reação entre confederações continentais de futebol.

A maior oposição veio da UEFA, entidade que controla o futebol europeu.

Em comunicado, a organização rejeitou o projeto e afirmou que as federações europeias poderiam boicotar competições organizadas pela FIFA caso a iniciativa avance sem mudanças.

A UEFA considera que a abertura do capital da nova empresa pode alterar o equilíbrio de poder dentro do futebol mundial e concentrar decisões comerciais em grupos privados.

A Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, América Central e Caribe, também declarou rejeição à proposta.

Já a Confederação Africana de Futebol (CAF) e a Confederação de Futebol da Oceania (OFC) adotaram uma posição mais cautelosa e afirmaram que seus membros ainda precisam analisar os detalhes.

A Conmebol, entidade que reúne as federações sul-americanas, pediu informações adicionais à FIFA sobre a estrutura, governança e possíveis impactos da nova empresa.

Em comunicado, a confederação afirmou reconhecer a necessidade de decisões comerciais e financeiras para o desenvolvimento do futebol, mas destacou que “o futebol deve vir em primeiro lugar”.

Crise de confiança e futuro do projeto

A criação da FIFA Forward Enterprise abriu uma disputa sobre o futuro da administração do futebol internacional.

Enquanto a FIFA defende que o projeto permitirá novos investimentos e maior capacidade financeira para desenvolver competições e programas esportivos, críticos temem uma excessiva influência de investidores privados sobre decisões tradicionalmente controladas por entidades esportivas.

A presença de empresários ligados ao ambiente político americano também ampliou o debate sobre transparência e possíveis conflitos de interesse.

O futuro da proposta dependerá das negociações entre a FIFA, as confederações continentais e os potenciais investidores.

O episódio coloca Gianni Infantino diante de um dos maiores desafios de sua gestão: modernizar o modelo financeiro da entidade sem provocar uma ruptura com as principais forças do futebol mundial.

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