
Vorcaro autorizou despesas para viagem do filho de Paulo Gonet a Londres, aponta relatório da PF
Mensagens apreendidas no celular de Daniel Vorcaro mostram interlocutor dizendo que o procurador-geral da República teria perguntado se o filho poderia viajar; banqueiro respondeu “Óbvio, né?” e depois autorizou Pedro Gonet e o advogado Ciro Soares na lista de despesas pagas
Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, autorizou que o filho do procurador-geral da República, Paulo Gonet, fosse incluído entre os convidados de uma viagem a Londres com despesas custeadas pelo banqueiro, segundo relatório elaborado pela Polícia Federal a partir de mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
O episódio aparece no conjunto de documentos que teve o sigilo levantado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master e à chamada Operação Compliance Zero. As mensagens reveladas pela PF mostram uma interlocução entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares, que aparece no material como uma espécie de intermediário nas comunicações envolvendo Gonet.
O registro mais direto é de 29 de março de 2025. Segundo a CNN Brasil, Ciro Soares escreveu para Vorcaro:
“Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”.
Vorcaro respondeu:
“Óbvio, né?”
A troca de mensagens é relevante porque o pedido não aparece como uma iniciativa isolada do filho de Gonet. No relato apresentado pela PF, a informação atribuída a Ciro Soares é de que Paulo Gonet teria perguntado se o filho poderia acompanhar o grupo na viagem.
O episódio passou a ganhar ainda mais importância porque a viagem estava relacionada a um evento jurídico em Londres patrocinado pelo Banco Master, justamente a instituição comandada por Vorcaro e que estava sob crescente escrutínio de órgãos de fiscalização e investigação.
DESTAQUE — “ÓBVIO, NÉ?”
A resposta de Daniel Vorcaro foi curta, mas adquiriu enorme peso político dentro da investigação:
“Óbvio, né?”
A frase foi registrada depois da mensagem em que Ciro Soares informa que Gonet teria perguntado se o filho poderia ir para Londres.
Não há, no trecho divulgado, uma negociação sobre preço, valor ou condição. A conversa mostra, segundo o relatório policial, uma autorização imediata do banqueiro para a inclusão do filho do PGR.
Dias depois, o assunto reapareceu.
Em 11 de abril de 2025, uma funcionária de Vorcaro perguntou ao banqueiro se determinados nomes estavam aprovados para viajar a Londres com as despesas pagas. A resposta foi: “Pedro e Ciro ok”, em referência a Pedro Gonet e Ciro Soares, segundo os relatos sobre o documento policial.
O registro reforça a interpretação de que a autorização para o custeio havia sido dada por Vorcaro.
Quem é Pedro Gonet
Paulo Gonet possui dois filhos, Gustavo Teixeira Gonet Branco e Pedro Henrique de Moura Gonet Branco.
As mensagens divulgadas pela investigação fazem referência a “Pedrinho” e ao “filho do PG”, mas não identificam nominalmente qual dos dois filhos participou ou participaria da viagem. O Metrópoles destacou justamente essa ressalva: o relatório indica a autorização, mas as mensagens não esclarecem de maneira definitiva qual filho esteve no grupo.
Por isso, a forma mais precisa de apresentar o episódio é dizer que um filho de Paulo Gonet foi autorizado a integrar a viagem, sem afirmar além do que os documentos efetivamente mostram.
A viagem estava ligada a evento do Banco Master em Londres
A viagem fazia parte da programação de um evento jurídico em Londres relacionado ao Banco Master.
Segundo as informações reunidas pela investigação, o encontro estava sendo organizado para reunir personalidades do meio jurídico e autoridades brasileiras.
Paulo Gonet também aparece relacionado ao evento.
O relatório citado pelo Poder360 aponta que o procurador-geral teria confirmado presença no compromisso em Londres. Em mensagens posteriores, Ciro Soares voltou a tratar com Vorcaro da presença de Gonet e da possibilidade de o filho acompanhá-los.
Em 19 de junho de 2025, por exemplo, Ciro teria informado a Vorcaro que “PG confirmou a ida para Londres” e novamente perguntou se o filho poderia viajar com o grupo. Vorcaro teria respondido novamente de forma afirmativa.
O conjunto das mensagens, portanto, apresenta uma sequência de tratativas, e não apenas uma referência isolada.
O evento acabou cancelado
Um detalhe importante precisa ser preservado para que a notícia não seja apresentada de forma mais conclusiva do que permitem os documentos.
Segundo as reportagens que reproduziram o conteúdo do relatório, o evento em Londres acabou cancelado.
Isso significa que a existência da autorização de despesas e o planejamento da viagem estão documentados nas mensagens, mas não se pode afirmar simplesmente, sem ressalvas, que a viagem ocorreu exatamente nos termos planejados.
A Folha informou que o evento acabou não sendo realizado. O Metrópoles também tratou a viagem como uma possibilidade indicada pelas mensagens, sem afirmar categoricamente que o filho de Gonet efetivamente viajou naquele episódio.
Essa distinção é essencial.
O papel de Ciro Soares
Ciro Soares aparece como personagem importante nessa sequência de mensagens.
Ele é identificado nos relatos como advogado e ex-advogado ligado ao Banco Master. Foi por meio dele que chegaram a Vorcaro as informações sobre o interesse de Gonet em levar o filho para Londres.
A conversa descrita pela PF dá a entender que Ciro funcionava como ponte entre o procurador-geral e o empresário.
Na mensagem de março de 2025, é Ciro quem informa a Vorcaro que Gonet teria feito a pergunta sobre a ida do filho.
A relação não termina nesse episódio. O nome de Ciro aparece em outras mensagens ligadas à participação de Gonet nos eventos do Banco Master.
Por que o caso provoca questionamentos
O ponto mais sensível da revelação não é simplesmente uma viagem internacional.
É quem supostamente pagaria as despesas.
De acordo com as mensagens divulgadas pela PF, o custeio seria assumido por Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master.
Ao mesmo tempo, Paulo Gonet ocupava — e continua ocupando — o cargo de procurador-geral da República, uma das posições mais importantes do sistema de Justiça brasileiro.
A combinação desses elementos cria uma questão inevitável: qual era a natureza da relação entre o banqueiro e o procurador-geral, e qual era a razão para que despesas de um familiar de uma autoridade pública fossem colocadas sob responsabilidade de um empresário que posteriormente se tornou alvo de investigação criminal?
Essa pergunta não constitui, por si só, acusação de crime.
Mas é uma pergunta legítima diante do conteúdo revelado.
Não basta dizer que não houve viagem
Ainda que o evento tenha sido cancelado, o fato de Vorcaro ter autorizado o pagamento continua relevante para a investigação.
Isso porque a Polícia Federal não está apenas reconstruindo viagens realizadas.
Está tentando compreender uma rede de contatos, favores, interlocuções e relações de proximidade que aparecia nas mensagens do banqueiro.
Se uma despesa foi planejada, quem a autorizou?
Por que foi autorizada?
Quem solicitou?
Qual era a relação entre as pessoas envolvidas?
Havia alguma expectativa de contrapartida?
Essas são questões que dependem de apuração.
O nome de Paulo Gonet aparece em outros trechos
O episódio da viagem não está isolado.
A investigação também encontrou mensagens que indicam contatos entre Vorcaro e interlocutores próximos de Paulo Gonet.
Em determinado trecho, aparece uma fotografia de Ciro Soares ao lado do procurador-geral, seguida de mensagem encaminhada a Vorcaro com o pedido para que o banqueiro telefonasse.
A investigação também registra referências à participação de Gonet em eventos promovidos ou financiados pelo Banco Master.
Esses elementos ajudam a explicar por que o nome do procurador-geral passou a aparecer no debate sobre o material produzido pela PF.
O problema institucional ficou ainda maior
Paulo Gonet não aparece apenas como uma autoridade mencionada nas mensagens.
Ele também passou a desempenhar papel jurídico direto no conflito envolvendo a investigação.
A Procuradoria-Geral da República pediu a nulidade da decisão de André Mendonça que determinou diligências e permitiu o aprofundamento da apuração relacionada às mensagens envolvendo Alexandre de Moraes.
A PGR sustenta que Mendonça teria ultrapassado os limites de sua competência ao determinar providências investigativas envolvendo outro ministro do STF.
O argumento jurídico pode ser analisado independentemente do conteúdo das mensagens.
Mas a situação cria um problema de aparência institucional porque o próprio nome de Gonet aparece nos documentos cuja utilização ele questiona.
Isso não significa que a PGR esteja necessariamente errada.
Significa que a sociedade passa a exigir um nível ainda maior de transparência sobre quem deve avaliar os elementos que envolvem o próprio procurador-geral.
COLUNA CRÍTICA — O problema não é a viagem. É a proximidade
Uma tentação comum em casos como este é reduzir tudo a uma frase:
“Foi só uma viagem.”
Não é tão simples.
Uma viagem pode ser irrelevante.
Um convite pode ser legítimo.
Um evento patrocinado por uma empresa pode reunir autoridades sem qualquer ilegalidade.
E pagar uma despesa de terceiro não é automaticamente crime.
Mas a gravidade institucional está justamente na soma dos elementos.
Temos um banqueiro poderoso.
Temos um procurador-geral da República.
Temos um interlocutor que aproxima os dois.
Temos mensagens segundo as quais o filho da autoridade poderia viajar com o grupo.
Temos autorização para que suas despesas fossem custeadas.
Temos um evento relacionado a uma instituição financeira que posteriormente se tornou alvo de uma grande investigação.
E temos, posteriormente, o próprio procurador-geral questionando a legalidade de uma apuração na qual seu nome aparece.
Nenhum desses elementos, isoladamente, prova corrupção.
Mas também seria inadequado fingir que nenhum deles merece explicação.
A pior resposta seria “não aconteceu nada” sem que ninguém sequer investigue o que de fato aconteceu.
Da mesma forma, seria irresponsável afirmar que houve crime sem prova.
O caminho correto é exatamente o que as instituições costumam exigir dos demais cidadãos: documentos, testemunhos, comprovação de pagamentos, confirmação de viagens, identificação de quem participou, análise de datas e reconstrução completa das relações.
O que precisa ser esclarecido
A investigação deverá responder a uma série de perguntas objetivas.
A viagem de fato ocorreu?
Qual filho de Paulo Gonet foi incluído?
Quem compraria as passagens?
Quem pagaria hospedagem e demais despesas?
Qual era o valor estimado?
Pedro Gonet efetivamente participou do evento?
O pagamento saiu dos recursos pessoais de Vorcaro ou do Banco Master?
Paulo Gonet sabia previamente que as despesas seriam custeadas pelo banqueiro?
Qual era a natureza da relação entre Vorcaro e Gonet?
Houve alguma solicitação ou expectativa de benefício relacionado à atuação do procurador-geral?
São perguntas simples, mas essenciais.
E nenhuma delas pode ser respondida apenas com interpretação política.
O Banco Master no centro da história
A dimensão do episódio fica mais evidente quando se observa que Daniel Vorcaro não era um empresário qualquer.
Ele estava à frente do Banco Master, instituição que passou a ser investigada por diferentes operações e posteriormente entrou em uma grave crise.
A Polícia Federal apreendeu celulares e outros documentos no curso das investigações.
Foi dessa análise que surgiram as mensagens hoje utilizadas para reconstruir a rede de relações de Vorcaro.
O banqueiro aparece conversando ou tentando estabelecer canais com integrantes das mais altas esferas do poder.
Nesse contexto, qualquer vantagem oferecida a uma autoridade ou a seus familiares ganha relevância investigativa, ainda que não seja automaticamente ilegal.
A diferença entre benefício e crime
Esse cuidado precisa ser preservado.
Mesmo que seja confirmado que Vorcaro pagou ou se dispôs a pagar uma viagem de um filho de Paulo Gonet, isso não significaria automaticamente que Gonet praticou corrupção, prevaricação ou qualquer outro crime.
Seria necessário demonstrar a finalidade do benefício, sua relação com a atividade funcional, eventual contrapartida e o enquadramento jurídico correto.
Por outro lado, também não seria correto afirmar que o fato é irrelevante simplesmente porque não existe, até o momento, uma condenação.
O dever de investigar existe justamente antes da conclusão.
A resposta que ainda falta
A Procuradoria-Geral da República foi procurada por veículos de imprensa para explicar as referências a Paulo Gonet e ao filho no relatório da PF. Nas reportagens consultadas, não havia manifestação oficial detalhada sobre o episódio no momento da publicação.
Essa ausência de esclarecimento aumenta a pressão sobre a instituição.
Não porque uma autoridade seja obrigada a admitir uma acusação.
Mas porque, quando o nome do procurador-geral aparece em mensagens que descrevem benefícios destinados a um familiar, a explicação pública ajuda a separar um relacionamento legítimo de uma eventual situação irregular.
CONCLUSÃO — uma autorização que exige explicações
As mensagens reveladas pela Polícia Federal apresentam um episódio que, por si só, ainda não permite concluir que houve crime.
Mas o conteúdo é suficientemente específico para justificar perguntas.
Daniel Vorcaro autorizou a inclusão do filho de Paulo Gonet entre os nomes que teriam as despesas pagas para uma viagem a Londres, segundo o relatório policial.
A informação aparece acompanhada da frase do banqueiro — “Óbvio, né?” — depois que Ciro Soares informou que Gonet teria perguntado se o filho poderia viajar com o grupo.
Dias depois, Vorcaro confirmou os nomes de Pedro e Ciro como autorizados a ter as despesas pagas.
O evento, contudo, acabou cancelado, segundo as reportagens que analisaram os documentos.
O episódio deve ser apresentado, portanto, com todas as ressalvas: há registros de pedido e autorização de custeio; não está demonstrado pelas mensagens divulgadas que a viagem tenha efetivamente ocorrido nesses termos.
Ainda assim, o episódio acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça do caso Master.
De um lado está Daniel Vorcaro, banqueiro investigado e apontado pela PF como alguém que mantinha uma ampla rede de contatos.
Do outro, está Paulo Gonet, procurador-geral da República, autoridade central do sistema de Justiça.
No meio aparece o advogado Ciro Soares, fazendo a ponte entre os dois grupos.
E, no centro da controvérsia, uma pergunta que precisa ser respondida sem proteção política e sem condenação antecipada:
por que um empresário posteriormente investigado pelo Estado se dispôs a custear uma viagem de um filho do procurador-geral da República — e qual era, exatamente, a natureza dessa relação?
A resposta deverá vir dos documentos, dos envolvidos e de uma investigação independente.
Até lá, o episódio permanece como um elemento relevante da investigação da Polícia Federal, mas não como prova definitiva de crime.