Emendas de deputado pagam shows de cantor que ele próprio empresaria e levantam suspeita de conflito de interesses

Emendas de deputado pagam shows de cantor que ele próprio empresaria e levantam suspeita de conflito de interesses

Levantamento aponta repasse de R$ 1,5 milhão para apresentações de artista ligado ao parlamentar; caso já é alvo de apuração do TCU

O uso de emendas parlamentares para financiar shows de um cantor que tem o próprio deputado como empresário virou alvo de questionamentos e investigação. O caso envolve o deputado federal Yury do Paredão (MDB-CE) e o cantor de forró Jonas Esticado, que, segundo documentos e reportagens, recebeu recursos públicos destinados por indicações feitas pelo parlamentar.

Ao todo, cinco municípios do Ceará contrataram apresentações do artista com cachês de R$ 300 mil cada, totalizando cerca de R$ 1,5 milhão em recursos federais provenientes de emendas da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados.

As cidades citadas no levantamento são Acopiara, Altaneira, Aurora, Mombaça e Farias Brito, todas beneficiadas com repasses que acabaram direcionados para eventos culturais locais com shows do mesmo cantor.

TCU é acionado para apurar possível conflito de interesses

Após a repercussão do caso, o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) acionou o TCU para investigar a regularidade dos repasses. A suspeita é de possível conflito de interesses, já que o deputado é apontado como sócio e empresário do artista contratado com dinheiro público.

Segundo a representação, o padrão das contratações levanta dúvidas sobre a impessoalidade no uso das emendas, já que os recursos teriam sido direcionados repetidamente para o mesmo cantor em diferentes municípios.

O documento menciona ainda possíveis violações aos princípios da administração pública e indícios de improbidade administrativa, o que amplia o alcance da investigação em andamento.

Prefeituras usaram recursos federais para pagar shows

Cada município envolvido firmou convênios com o Ministério do Turismo e, em seguida, destinou os valores recebidos para a contratação de shows de Jonas Esticado em festas tradicionais e eventos culturais locais.

  • Em Acopiara, o show foi parte do evento “Festeja Acopiara”
  • Em Altaneira, a apresentação integrou os festejos de Santa Teresa D’Ávila
  • Em Aurora, o artista participou das comemorações do aniversário da cidade
  • Em Mombaça, o show ocorreu no Festival Viva Mombaça
  • Em Farias Brito, a apresentação fez parte da ExpoVaq

Em todos os casos, o valor do cachê foi de aproximadamente R$ 300 mil por apresentação, com recursos oriundos de emendas parlamentares.

Ligação empresarial entre deputado e cantor entra no centro da polêmica

O ponto mais sensível da investigação é a relação empresarial entre o parlamentar e o artista. Segundo informações públicas, ambos estariam ligados à empresa Jonas Esticado Gravações & Edições Musicais LTDA, responsável pela gestão da carreira do cantor.

A estrutura societária também envolve familiares do deputado na administração do negócio, o que reforça as suspeitas de possível benefício indireto com recursos públicos.

Para os órgãos de controle, esse tipo de vínculo pode comprometer o princípio da impessoalidade na destinação de emendas parlamentares.

Defesa afirma que não há irregularidade

Em resposta às acusações, o deputado Yury do Paredão afirma que as emendas não são direcionadas a artistas ou empresas, mas sim aos municípios, que têm autonomia para decidir como aplicar os recursos.

Segundo o parlamentar, a execução dos contratos e a escolha das atrações culturais são de responsabilidade exclusiva das prefeituras, sem interferência direta do mandato.

O Ministério do Turismo também informou que os repasses seguem as regras legais vigentes e que as emendas de comissão são executadas conforme critérios técnicos e administrativos.

Debate sobre transparência e uso de emendas volta à tona

O caso reacende o debate sobre a transparência na aplicação de emendas parlamentares, especialmente as de comissão, que têm regras menos rígidas de execução.

Especialistas e órgãos de controle vêm alertando que a falta de rastreabilidade detalhada pode abrir brechas para direcionamentos indiretos e conflitos de interesse, principalmente quando há relações comerciais entre parlamentares e fornecedores beneficiados.

Enquanto o TCU analisa o caso, a investigação deve avaliar se houve desvio de finalidade no uso dos recursos públicos ou apenas a aplicação regular das emendas dentro das regras atuais.

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