
Filho de Paulo Gonet teria recebido convite de Vorcaro para viagem a Londres com despesas pagas pelo Banco Master
Relatório da Polícia Federal aponta que Pedro Gonet pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro para participar de fórum jurídico em Londres; evento acabou cancelado e mensagens também revelam aproximações entre o empresário e autoridades de Brasília
Escritor: Redação
O relatório da Polícia Federal que analisa mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, revelou uma nova frente de relacionamento entre o empresário e integrantes da elite jurídica de Brasília. Segundo os investigadores, Pedro Gonet, filho do procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a Vorcaro autorização para acompanhá-lo em uma viagem a Londres, com despesas custeadas pelo banco.
O episódio ocorreu no contexto da organização de um fórum jurídico que seria realizado na capital britânica em 2025. O evento, que reuniria autoridades, advogados e representantes do setor empresarial, acabou não sendo realizado. Ainda assim, as mensagens encontradas pela PF mostram que Vorcaro chegou a autorizar que Pedro Gonet e o advogado Ciro Soares tivessem suas despesas pagas pelo Banco Master.
A revelação acrescenta mais um capítulo à investigação sobre a rede de contatos construída por Vorcaro enquanto o Banco Master crescia e enfrentava questionamentos de órgãos reguladores. O caso também ganhou dimensão institucional porque as mensagens mencionam diretamente Paulo Gonet, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
A aproximação entre Ciro Soares, Gonet e Vorcaro
Segundo o relatório da PF, a aproximação entre Paulo Gonet e Daniel Vorcaro ocorreu por intermédio do advogado Ciro Soares.
As conversas começaram em 2024. Em uma das mensagens, Ciro Soares escreveu a Vorcaro: “Amizade é tudo viu irmão”, acrescentando posteriormente: “Gonet é firme”.
A interlocução ganhou força no ano seguinte. Em março de 2025, Ciro encaminhou a Vorcaro uma fotografia em que aparece ao lado de Paulo Gonet e escreveu que o procurador-geral queria falar com o banqueiro.
As mensagens analisadas pelos investigadores indicam que Ciro atuava como uma espécie de ponte entre diferentes personagens do mundo jurídico e Daniel Vorcaro. A PF identificou conversas relacionadas à organização de eventos, contatos com autoridades e tentativas de aproximação institucional.
“Ele vai para Londres com a gente”
No mesmo período, as conversas passaram a tratar do fórum jurídico que seria realizado em Londres.
Em uma das mensagens, Ciro teria encaminhado a Vorcaro uma comunicação atribuída a Gonet. Na sequência, surgiu a informação de que o procurador-geral participaria do evento.
O relatório reproduz ainda uma mensagem com tom informal sobre a viagem, na qual aparece a expectativa de que houvesse “charuto e macalan”, em referência ao whisky Macallan.
No dia seguinte, de acordo com a PF, Ciro perguntou a Vorcaro se o filho de Gonet poderia viajar com o grupo para Londres.
A resposta atribuída ao banqueiro foi: “Óbvio, né”.
A conversa avançou até a definição dos convidados cujas despesas seriam pagas pelo Banco Master.
Pedro Gonet e Ciro Soares foram autorizados
Em 11 de abril de 2025, uma funcionária de Vorcaro, identificada no celular como “Ana Matos Mkt”, perguntou ao banqueiro se determinados nomes estavam autorizados a viajar para Londres com as despesas pagas pelo banco.
Vorcaro não aprovou todos os nomes apresentados.
Fez, porém, uma ressalva: “Pedro e Ciro ok”.
Segundo a Polícia Federal, as referências eram a Pedro Gonet, filho do procurador-geral, e ao advogado Ciro Soares.
O episódio é particularmente relevante para a investigação porque mostra, segundo os investigadores, que o pagamento das despesas não surgiu apenas como uma hipótese genérica de convite: houve uma autorização específica de Vorcaro para determinados participantes.
É importante, contudo, fazer uma distinção: o relatório aponta a autorização e as tratativas, mas o evento acabou não acontecendo. Portanto, a viagem de Pedro Gonet a Londres, tal como planejada, não se concretizou.
Ciro Soares contesta suspeitas
Procurado pela imprensa, Ciro Soares afirmou que não havia irregularidade na lista de convidados.
Segundo o advogado, os nomes dos participantes do seminário constavam em listas e documentos do evento, que seria aberto ao público. Ele também destacou que o fórum não chegou a ser realizado.
A manifestação de Ciro é relevante porque contesta qualquer interpretação de que a simples inclusão de convidados em um evento financiado pelo banco representaria, por si só, uma ilegalidade. A investigação da PF, entretanto, procura estabelecer o contexto mais amplo das relações entre Vorcaro e autoridades ou pessoas próximas a autoridades.
O papel de Paulo Gonet
Paulo Gonet ocupa o cargo de procurador-geral da República, posição que o coloca no centro do sistema de Justiça brasileiro.
O nome de Gonet aparece no relatório não apenas por causa do episódio envolvendo seu filho. A PF também identificou mensagens em que Vorcaro aparentemente buscava apoio de autoridades.
Em determinado diálogo, o banqueiro pede a um interlocutor que “Andrei e Paulo” atuassem em seu favor. Os investigadores interpretaram as referências como possíveis menções a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. A identidade do interlocutor para quem a mensagem foi enviada foi analisada pela PF, que levantou a possibilidade de se tratar de Alexandre de Moraes.
Até o momento, porém, a existência dessas mensagens não comprova que Gonet tenha efetivamente atuado para favorecer Vorcaro.
O procurador-geral também questionou a legalidade da forma como o relatório da PF foi produzido e pediu a anulação do material, alegando que a investigação teria ultrapassado os limites de uma apuração pré-processual. O tema deverá ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal.
Banco Master no centro da investigação
O episódio ocorre em meio a uma investigação muito mais ampla sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro.
A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas às operações financeiras do grupo, às relações com agentes públicos e a possíveis tentativas de obter vantagens ou influência junto a autoridades.
Mensagens apreendidas no celular de Vorcaro já haviam revelado contatos com ministros do STF, integrantes da Polícia Federal, advogados, políticos e outras figuras influentes.
A investigação também identificou conversas sobre contratos milionários envolvendo o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, além de contatos entre Vorcaro e o próprio magistrado.
O conjunto das descobertas transformou o caso Master em uma investigação que ultrapassa o campo estritamente financeiro e alcança relações entre dinheiro, advocacia, instituições públicas e autoridades de alto escalão.
E Paulo Guedes?
A presença do ex-ministro da Economia Paulo Guedes no debate sobre o Banco Master precisa ser tratada com cautela.
Guedes não aparece nas informações divulgadas sobre a viagem de Pedro Gonet a Londres. Tampouco há, nos elementos citados neste episódio, prova de que o ex-ministro tenha participado das supostas fraudes atribuídas ao grupo de Vorcaro.
O que existe é uma convocação aprovada pela CPI do Crime Organizado do Senado para que Guedes esclareça questões relacionadas ao ambiente regulatório criado durante sua passagem pelo Ministério da Economia.
A comissão também convocou o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. Segundo o requerimento aprovado, Guedes deverá explicar se medidas de desregulamentação adotadas durante sua gestão poderiam ter contribuído para facilitar irregularidades envolvendo instituições financeiras como o Banco Master.
A crítica à gestão Guedes
Politicamente, a questão que merece ser enfrentada é anterior à prisão de Vorcaro e à crise do Banco Master: qual era o grau de fiscalização e controle existente sobre instituições financeiras durante o governo Jair Bolsonaro?
Paulo Guedes comandou o Ministério da Economia entre 2019 e 2022, período em que o governo defendia uma agenda de liberalização econômica, redução da burocracia e maior espaço para a iniciativa privada.
A crítica que agora aparece no debate parlamentar não deve ser confundida com uma acusação criminal contra o ex-ministro. O ponto central é institucional: se uma política de desregulamentação reduziu salvaguardas ou dificultou a identificação de operações suspeitas, é legítimo perguntar quem fiscalizou, quais alertas foram produzidos e quais providências foram tomadas.
A própria CPI decidiu convocar Guedes justamente para esclarecer essas questões. Em março, entretanto, o colegiado havia rejeitado um pedido de quebra dos sigilos bancário e fiscal do ex-ministro por 6 votos a 2.
Portanto, uma reportagem responsável deve separar três níveis diferentes: as decisões políticas de Guedes, as responsabilidades regulatórias do Banco Central e as eventuais práticas criminosas atribuídas a Vorcaro. Não é possível transformar uma discussão sobre política econômica em prova de participação criminal sem elementos que estabeleçam essa ligação.
Um banco cercado por relações de poder
O caso Banco Master tornou-se particularmente sensível porque os documentos da PF revelam uma sucessão de relações entre Daniel Vorcaro e figuras de enorme influência.
Há registros de contatos com integrantes do STF, procuradores, policiais federais, políticos e empresários. O próprio Vorcaro teria procurado diferentes interlocutores para obter apoio diante das dificuldades enfrentadas pelo banco.
Em outro braço da investigação, a PF encontrou mensagens que apontam para uma relação próxima entre Vorcaro e servidores do Banco Central. Segundo os investigadores, dois servidores teriam fornecido informações e orientações ao banqueiro, enquanto também são investigados por possíveis vantagens financeiras.
Esse conjunto de informações ajuda a explicar por que o caso deixou de ser apenas uma investigação sobre um banco e passou a representar uma crise de confiança envolvendo instituições públicas e privadas.
O vídeo e a repercussão
Nome sugerido para o vídeo: “Caso Banco Master: filho de Gonet, viagem a Londres e a rede de relações de Vorcaro”
A revelação sobre Pedro Gonet acrescenta uma nova peça ao quebra-cabeça. O relatório da Polícia Federal descreve um convite para uma viagem internacional com despesas pagas por um banco posteriormente colocado sob investigação e que teve seu controlador preso.
O episódio, isoladamente, não prova corrupção nem benefício ilícito. Mas a combinação de convites, despesas pagas, contatos entre autoridades e o banqueiro e pedidos de ajuda registrados nas mensagens cria um quadro que exige esclarecimentos públicos.
A questão central não é apenas saber quem viajaria para Londres. É entender por que um banqueiro investigado mantinha tamanha proximidade com pessoas ligadas às principais instituições do sistema de Justiça brasileiro e até onde iam essas relações.
O caso também impõe um desafio à transparência institucional. Quando um empresário oferece despesas, organiza eventos e mantém contatos com autoridades e familiares de autoridades, a aparência de independência pode ser colocada em dúvida mesmo antes de existir uma conclusão criminal.
Por isso, a investigação precisa avançar com rigor, sem transformar suspeitas em condenações antecipadas, mas também sem minimizar fatos documentados. O episódio envolvendo Pedro Gonet, Daniel Vorcaro e Ciro Soares é mais um elemento de uma investigação que agora alcança diferentes níveis do poder público e coloca sob pressão a relação entre dinheiro, influência e Estado.