
“Quem deve explicações é Lula”, diz Flávio Bolsonaro ao atacar governo em casos envolvendo Lulinha e Banco Master
Candidato do PL à Presidência transforma investigações envolvendo o filho de Lula e o caso do Banco Master em munição eleitoral e cobra esclarecimentos do presidente; senador também associa o episódio a integrantes do PT da Bahia
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) elevou o tom contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao transformar duas investigações — uma envolvendo Luís Cláudio Lula da Silva, o Lulinha, e outra relacionada ao Banco Master — em um dos principais eixos de seu discurso eleitoral.
Em declaração nesta terça-feira (11), Flávio afirmou que “quem deve explicações é Lula”, numa referência às suspeitas e investigações que, segundo o candidato, atingiriam pessoas próximas ao presidente.
A fala ocorre em plena corrida presidencial de 2026 e faz parte de uma estratégia de confronto direto com Lula, principal adversário político de Flávio. O senador vem procurando apresentar os episódios como símbolos de uma suposta proximidade entre o governo federal, integrantes do PT e personagens relacionados às investigações.
É necessário, porém, separar as acusações políticas feitas por Flávio dos fatos comprovados pelas investigações. A existência de uma investigação ou de relações políticas e profissionais não significa, por si só, que Lula, Lulinha ou dirigentes partidários tenham cometido crimes.
Flávio coloca Lulinha no centro do discurso
Ao falar sobre as fraudes investigadas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Flávio voltou a cobrar explicações sobre a presença de Lulinha no contexto das apurações.
O senador já vinha utilizando o episódio no Congresso para questionar a atuação do governo e exigir respostas sobre eventuais relações entre pessoas ligadas ao filho do presidente e personagens investigados.
Em pronunciamento no Senado, Flávio havia perguntado publicamente: “Cadê o Sr. Lulinha?”, seguido da cobrança por explicações sobre valores que, segundo sua fala, estariam relacionados ao chamado “Careca do INSS”.
O parlamentar também criticou mudanças ocorridas no curso das investigações e questionou a substituição de um delegado da Polícia Federal que, segundo ele, teria participado da apuração envolvendo o filho do presidente.
As afirmações fazem parte da narrativa política construída pelo senador para pressionar o governo e vincular o caso à responsabilidade política de Lula.
“Quem deve explicações é Lula”
A frase de Flávio sintetiza o argumento central apresentado pelo candidato.
Para ele, o presidente não poderia se limitar a afirmar que as investigações devem prosseguir, mas deveria explicar eventuais conexões envolvendo seu entorno político e familiar.
A cobrança ocorre em um momento no qual denúncias e investigações relacionadas ao INSS e ao Banco Master passaram a ocupar espaço crescente no debate eleitoral.
O senador tenta, dessa forma, deslocar o foco das acusações que atingem seu próprio campo político e concentrar o debate sobre Lula e o PT.
Banco Master vira outra frente de ataque
O segundo eixo do discurso de Flávio é o caso do Banco Master.
O candidato tem afirmado que existem conexões entre o episódio e integrantes do PT da Bahia, citando nomes ligados à política baiana.
Em manifestações anteriores, Flávio questionou por que setores do PT não teriam apoiado a abertura de uma CPI para investigar o caso.
Em maio, ele afirmou que deputados petistas não haviam assinado o pedido de abertura da comissão e perguntou se a resistência estaria relacionada à existência de políticos baianos ligados ao partido.
Em outra ocasião, resumiu sua acusação política com a frase: “Pix é do Bolsonaro e Master é do Lula”, procurando estabelecer uma divisão simbólica entre escândalos e os dois principais grupos que disputam a eleição presidencial.
PT da Bahia entra na mira
A ofensiva de Flávio também alcança figuras importantes do PT baiano, especialmente Jaques Wagner e Rui Costa.
O senador tenta associar decisões e operações realizadas na Bahia ao desenvolvimento de negócios relacionados ao Banco Master.
A tese é contestada por Wagner.
Em pronunciamento no Senado, o senador petista afirmou que a origem do problema não estaria na Bahia, mas no sistema financeiro e na atuação do Banco Central durante o período em que a instituição era comandada por indicado do governo Jair Bolsonaro. Wagner também criticou Flávio e afirmou que o senador estaria tentando transferir responsabilidades.
A troca de acusações mostra como o Banco Master se transformou em uma espécie de campo de batalha político entre governo e oposição.
A guerra política chega às redes sociais
A disputa não ficou restrita ao plenário do Senado.
O PL também passou a utilizar publicidade nas redes sociais para associar o Banco Master ao governo Lula. Levantamento publicado pelo R7 apontou que o partido havia investido pelo menos R$ 36 mil em impulsionamento de publicações que relacionavam Lula e integrantes de seu entorno ao caso.
Entre as publicações estavam mensagens que mencionavam nomes como Rui Costa, Jaques Wagner, Guido Mantega, Lula e Lulinha.
O episódio revela a dimensão eleitoral que a investigação adquiriu: além dos procedimentos policiais e financeiros, o caso passou a integrar a disputa narrativa entre os partidos que disputarão a Presidência.
Um discurso construído para a campanha
A estratégia de Flávio é clara em seu discurso: transformar investigações em uma cobrança política direta ao presidente.
O senador procura apresentar Lula como alguém que deveria responder não apenas pelos atos de integrantes do governo, mas também pelas relações envolvendo pessoas de seu círculo familiar e político.
Ao mesmo tempo, o candidato tenta colocar o caso Master como contraponto às acusações que historicamente atingiram o bolsonarismo.
A lógica é essencialmente eleitoral: se o adversário cobra explicações sobre pessoas próximas a Bolsonaro, Flávio pretende inverter a cobrança e exigir respostas sobre o entorno de Lula.
O discurso ganhou força justamente no momento em que a campanha presidencial começa a entrar em sua fase mais intensa.
Flávio endurece contra Lula
A ofensiva faz parte de um movimento mais amplo do candidato do PL.
Nos últimos dias, Flávio intensificou ataques contra Lula, contra o STF e contra integrantes do governo. Em um evento político realizado em Brasília, o senador também acusou o ministro Alexandre de Moraes de atuar como articulador político em favor do presidente — acusação que Moraes não reconhece e que não equivale a uma conclusão judicial sobre sua atuação.
O candidato anunciou ainda a intenção de condicionar sua participação em debates televisivos à presença de Lula e prepara o lançamento oficial de sua campanha presidencial.
O primeiro grande ato eleitoral de sua candidatura está marcado para 16 de agosto, em Copacabana, no Rio de Janeiro, em uma tentativa de mobilizar a base bolsonarista.
Acusações ainda precisam ser comprovadas
Embora Flávio utilize os casos como argumento político, as investigações precisam ser analisadas com cautela.
Uma investigação pode revelar irregularidades, mas não transforma automaticamente pessoas citadas em culpadas. Relações políticas, familiares, profissionais ou institucionais também não são, isoladamente, prova de participação em crimes.
No caso do Banco Master, diferentes personagens políticos têm apresentado versões conflitantes sobre a origem e a responsabilidade pelos problemas investigados.
No Congresso, a disputa tornou-se cada vez mais explícita. Flávio cobra uma investigação ampla; integrantes do PT rebatem dizendo que o senador estaria tentando deslocar para adversários responsabilidades que deveriam ser examinadas em outros núcleos.
A eleição transforma os casos em armas políticas
O que antes poderia ser tratado apenas como investigação financeira ou policial agora ocupa o centro da batalha eleitoral.
De um lado, Flávio Bolsonaro tenta transformar Lulinha, INSS, Banco Master e PT da Bahia em símbolos de uma suposta crise de integridade no entorno do governo Lula.
Do outro, petistas e aliados lembram que o próprio Banco Master possui conexões que também alcançam personagens ligados ao campo político de Bolsonaro, rejeitando a tentativa de apresentar o episódio como uma questão exclusivamente petista.
No meio dessa disputa está a pergunta que Flávio transformou em slogan eleitoral:
“Quem deve explicações é Lula.”
A frase, mais do que uma simples cobrança parlamentar, passou a funcionar como peça de campanha. O desafio, agora, é separar o que pertence ao terreno da acusação política daquilo que será efetivamente comprovado pelas investigações, documentos e decisões das autoridades competentes.
Até que haja conclusões definitivas, Lula, Lulinha, integrantes do PT e demais pessoas citadas devem ser tratados de acordo com o princípio da presunção de inocência.