
Renan Santos diz que não haverá enfrentamento ao crime organizado se Lula for reeleito
Candidato do Missão afirma que eventual novo governo Lula não faria um combate efetivo às facções; declaração ocorre em meio à disputa eleitoral sobre segurança pública
O candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos, voltou a colocar o combate ao crime organizado no centro de sua campanha e afirmou que, caso Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito, não haverá enfrentamento efetivo às grandes organizações criminosas.
A declaração foi dada no contexto da campanha eleitoral de 2026 e representa uma avaliação política de Renan sobre a estratégia de segurança do atual governo. O candidato vem defendendo uma política de confronto direto contra organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O tema ganhou espaço na disputa presidencial porque diferentes candidatos apresentam propostas distintas para enfrentar as facções, embora exista convergência entre eles sobre a necessidade de fortalecer o sistema penitenciário, as fronteiras e a integração entre forças de segurança.
1. A acusação de Renan contra Lula
Renan Santos sustenta que um eventual segundo mandato de Lula não representaria uma mudança suficientemente dura no enfrentamento ao crime organizado.
A afirmação precisa ser entendida como posição política do candidato, e não como uma conclusão comprovada sobre um eventual governo futuro.
Renan vem construindo sua campanha justamente em torno de uma política de segurança baseada em uma atuação mais agressiva contra as facções criminosas. Em declarações recentes, afirmou que o enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho deveria ser conduzido pelas próprias forças de segurança brasileiras.
Em outra declaração, Renan afirmou que uma eventual “guerra” contra as facções não deveria durar mais de dois anos e defendeu uma ação coordenada entre União, estados e forças policiais.
2. A resposta de Lula apresentada pelo governo
A avaliação de Renan contrasta com o discurso oficial apresentado pelo governo Lula.
Em discurso na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Lula afirmou que o Brasil realizou em 2025 uma grande operação contra o crime organizado, registrou apreensões de drogas e bens ilícitos e passou a atingir diferentes níveis das organizações criminosas.
Lula também afirmou que a chamada Lei Antifacção estabeleceu penas superiores às previstas para terrorismo para determinados crimes relacionados à atuação organizada.
Portanto, há duas narrativas distintas sobre o mesmo problema.
Renan afirma que o governo Lula não enfrenta o crime organizado da maneira necessária. O governo, por sua vez, apresenta operações policiais, apreensões e mudanças legislativas como evidências de que existe uma política de combate às organizações criminosas.
A diferença está principalmente na avaliação sobre a intensidade, eficiência e alcance dessas medidas.
3. O modelo defendido por Renan Santos
O plano de governo do Missão apresenta uma proposta muito mais abrangente de enfrentamento às facções.
O documento parte da avaliação de que o Estado brasileiro não possui capacidade institucional suficiente para enfrentar organizações como PCC e Comando Vermelho.
Entre as propostas está a declaração de uma “grande guerra ao crime” no primeiro dia de um eventual governo.
O plano também menciona a adoção do chamado Direito Penal do Inimigo, com medidas destinadas a ampliar instrumentos de confisco de bens e restringir determinados direitos de integrantes das organizações criminosas.
Outra proposta é a utilização das Forças Armadas em territórios dominados pelo crime organizado, além da construção de superpresídios de segurança máxima em regiões remotas, inspirados no modelo do Centro de Confinamento do Terrorismo, em El Salvador.
4. Superpresídios e isolamento das lideranças
O isolamento de líderes das organizações criminosas é uma das principais propostas apresentadas por Renan.
A ideia é retirar das lideranças encarceradas a capacidade de continuar comandando atividades criminosas a partir dos presídios.
O candidato também defende uma ampliação do sistema penitenciário federal e a criação de estruturas de segurança máxima.
Esse ponto não é exclusivo de Renan. Levantamentos sobre os planos dos principais candidatos mostram que Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Renan Santos e Ronaldo Caiado defendem, em diferentes formatos, o fortalecimento do sistema penitenciário federal.
A diferença está nos instrumentos utilizados e no grau de intervenção proposto.
5. Intervenção federal nos estados
Renan também já apresentou propostas de intervenção federal relacionadas ao combate às facções.
Em agosto, durante debate presidencial, afirmou que poderia determinar intervenção no Ceará e na Bahia caso os governadores fossem reeleitos e, segundo sua avaliação, não demonstrassem disposição para enfrentar o crime organizado.
A proposta demonstra a dimensão da estratégia defendida pelo candidato: em vez de limitar a atuação presidencial à coordenação das forças federais, Renan afirma que estaria disposto a utilizar instrumentos de intervenção para pressionar governos estaduais.
Essa proposta, entretanto, envolve questões constitucionais e federativas que precisariam ser analisadas e implementadas dentro das regras previstas na Constituição.
6. PCC, Comando Vermelho e o debate sobre terrorismo
Outro ponto importante da disputa eleitoral é a classificação das facções como organizações terroristas.
O debate ganhou força depois que os Estados Unidos classificaram PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas transnacionais.
Os candidatos apresentam posições diferentes sobre o assunto. Segundo levantamento da CNN sobre os planos de governo, Lula e Renan não defendem a classificação nos termos apresentados pelos Estados Unidos, enquanto Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema apoiam a medida. A própria reportagem ressalta que Renan já manifestou publicamente posição favorável em determinado contexto, embora isso não conste da mesma forma em seu plano de governo.
A discussão envolve consequências jurídicas e operacionais, inclusive para cooperação internacional, investigação financeira e combate ao tráfico de drogas.
7. A disputa eleitoral transformou a segurança em tema central
A segurança pública tornou-se um dos principais assuntos da eleição presidencial de 2026.
Renan tenta ocupar um espaço político baseado em uma proposta de enfrentamento mais duro às facções. Em seu primeiro grande ato de campanha, realizado em agosto, utilizou a expressão “prendeu, matou” como síntese de sua postura diante do crime organizado.
A Agência Pública também registrou outras declarações do candidato sobre prisão e morte de integrantes de organizações criminosas e ouviu especialistas que contestaram a compatibilidade de algumas dessas propostas com princípios constitucionais.
Essas manifestações mostram que a discussão não se limita à quantidade de policiais ou presídios. Envolve também os limites constitucionais da atuação do Estado, direitos individuais, uso das Forças Armadas e extensão dos poderes federais sobre os estados.
8. O que está efetivamente em disputa
A declaração de Renan de que não haveria enfrentamento ao crime organizado em um eventual novo governo Lula deve ser apresentada como uma crítica eleitoral de Renan Santos, e não como fato antecipado.
O que pode ser comparado objetivamente são as propostas.
Lula apresenta como ações de seu governo operações policiais, apreensões, integração entre órgãos e alterações legislativas voltadas ao crime organizado. Em seu discurso recente na ONU, o presidente afirmou que o governo vem enfrentando as organizações criminosas em diferentes níveis.
Renan Santos, por outro lado, propõe uma estratégia de confronto mais abrangente, com guerra declarada às facções, superpresídios, possibilidade de intervenção federal, uso das Forças Armadas em determinados territórios e mudanças profundas no sistema penal.
Assim, o debate eleitoral não é apenas sobre se o Estado deve combater o crime organizado, porque todos os principais candidatos apresentam propostas nesse sentido. A divergência está em como combater, quais instrumentos utilizar, até onde pode ir a atuação federal e quais limites jurídicos devem ser observados.
A afirmação de Renan coloca justamente essa diferença no centro da eleição: de um lado, a política de segurança apresentada pelo governo Lula; de outro, uma proposta de enfrentamento das facções que pretende ampliar significativamente os instrumentos de repressão e intervenção do Estado.