
A “pilantra” que voltou a pedir votos para Lula: a ironia de uma personagem que reaparece na campanha petista
Roberta Luchsinger, chamada pelo próprio Lula de “pilantra” e de “Vorcaro feminino”, voltou a circular em vídeo pedindo votos para o presidente; episódio reacende questionamentos sobre sua proximidade com o entorno de Lulinha, investigações e a curiosa memória política em Brasília
A política brasileira definitivamente não economiza em ironias.
Em meio à reta final das eleições de 2026, Roberta Luchsinger, lobista que ficou conhecida por sua proximidade com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltou a viralizar em um vídeo no qual aparece pedindo votos para Luiz Inácio Lula da Silva.
A cena ganhou repercussão justamente porque existe uma frase que passou a acompanhar o nome de Roberta: foi o próprio Lula quem a chamou publicamente de “pilantra”.
Não foi um adversário político.
Não foi um comentarista de televisão.
Não foi um militante da oposição.
Foi Lula.
Em entrevista ao Flow Podcast, o presidente afirmou que Roberta seria “uma pilantra muito grande” e chegou a compará-la a Daniel Vorcaro, do Banco Master, chamando-a de “Vorcaro feminino”. Lula também declarou que não a conhecia pessoalmente e negou ter oferecido cargo a ela.
E agora, como se a política brasileira tivesse decidido escrever uma sátira de si mesma, a personagem volta a aparecer em conteúdo de campanha pedindo votos justamente para Lula.
“Pilantra” segundo quem?
Aqui está o ponto que precisa ser deixado absolutamente claro.
A palavra “pilantra” não é uma conclusão judicial sobre Roberta Luchsinger.
É uma expressão usada pelo próprio presidente Lula ao falar publicamente sobre ela.
Na entrevista, Lula afirmou que Roberta teria enganado pessoas e a comparou a Vorcaro. Também disse que ela teria afirmado que recebeu uma oferta de cargo no governo, algo que o presidente negou.
Portanto, quando o termo volta a circular nas redes sociais, ele reaparece carregado de uma ironia particular:
a mesma pessoa que foi chamada de “pilantra” pelo líder maior do grupo político que agora aparece defendendo continua sendo apresentada em conteúdo político favorável ao presidente.
É impossível não perguntar:
afinal, o que aconteceu nesse meio-tempo?
O vídeo que voltou a viralizar
Segundo o Jornal da Cidade Online, Roberta voltou a aparecer em um vídeo pedindo votos para Lula e o material passou a circular novamente nas redes sociais. O veículo relacionou a reaparição às acusações e controvérsias que já haviam envolvido a lobista e seu círculo de relações políticas.
A publicação adotou tom extremamente crítico e utilizou expressões próprias do veículo para atacar Roberta e o grupo político ligado ao governo.
É preciso separar, porém, o conteúdo opinativo das informações verificáveis.
O fato concreto é que Roberta Luchsinger reapareceu em conteúdo político associado ao apoio a Lula, enquanto seu nome continua ligado a uma série de questionamentos e investigações que ganharam repercussão nacional.
A relação com Lulinha
O nome de Roberta Luchsinger ganhou notoriedade principalmente por sua relação de proximidade com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Reportagens a descrevem como amiga do filho do presidente e apontam que ela se apresentava como próxima ou parceira de Lulinha.
A Polícia Federal investiga suspeitas relacionadas à atuação de Roberta e possíveis relações de influência envolvendo empresas e órgãos públicos. As investigações não equivalem, por si mesmas, a uma condenação criminal.
Essa distinção é fundamental.
Investigação não é condenação.
Suspeita não é prova definitiva.
E acusação não é sentença.
Mas também é legítimo perguntar por que uma pessoa envolvida em tamanha controvérsia continua aparecendo politicamente próxima de um grupo que, ao mesmo tempo, tenta se distanciar publicamente dela.
E aí aparece a grande ironia
Vamos imaginar a cena.
De um lado:
Lula chama Roberta de “pilantra”.
Depois:
Lula diz que ela é o “Vorcaro feminino”.
Ao mesmo tempo:
Roberta é apontada em reportagens como pessoa próxima de Lulinha.
E agora:
Roberta volta a aparecer pedindo voto para Lula.
Parece roteiro de humor político.
Mas não é.
É a política brasileira.
E a pergunta vem naturalmente:
Se ela é tão problemática a ponto de o próprio Lula usar esses termos para descrevê-la, por que sua imagem continua aparecendo associada ao campo político do presidente?
Essa pergunta não acusa Lula de ter cometido qualquer irregularidade.
Ela simplesmente cobra coerência.
A memória política parece ter prazo de validade
Existe uma característica curiosa na política brasileira: algumas pessoas são apresentadas como indispensáveis quando estão próximas e passam a ser tratadas como desconhecidas quando surge uma crise.
Depois, quando a crise diminui, reaparecem.
É quase um sistema de memória seletiva.
Conhece.
Não conhece.
É amiga.
Não é amiga.
É próxima.
Nunca viu.
Participa.
Depois ninguém sabe.
E, quando o assunto volta a circular, começa tudo novamente.
No caso de Roberta, o próprio Lula afirmou que não a conhecia pessoalmente e disse que poderia ter tirado fotografia com ela, como faz com muitas pessoas.
Mas há registros públicos e reportagens sobre sua proximidade com pessoas do entorno presidencial.
É justamente essa aparente contradição que alimenta o debate.
E há dinheiro nessa história
Outro ponto que ampliou a repercussão foi a informação publicada pelo Metrópoles de que Roberta teria doado R$ 50 mil para um evento do PT em 2024.
Segundo a reportagem, a doação teria sido acertada com um assessor da Presidência para um jantar relacionado ao aniversário de 44 anos do Partido dos Trabalhadores, evento que contou com a presença de Lula.
A publicação também afirma que a transferência teria utilizado contas de terceiros e que mensagens indicariam preocupação em não deixar registros da doação.
Essas informações, se confirmadas no âmbito das investigações, ajudam a explicar por que a relação entre Roberta e o ambiente político do governo passou a ser objeto de questionamentos.
Mas novamente é necessário separar as coisas:
uma doação não prova crime.
O que precisa ser esclarecido pelas autoridades é a origem dos recursos, a finalidade da operação, quem participou dela e se houve qualquer contrapartida ilícita.
O problema não é pedir voto
Roberta tem direito de defender Lula.
Qualquer cidadão pode declarar seu voto.
Pode fazer campanha.
Pode participar de manifestações.
Pode defender um candidato.
A democracia garante essa liberdade.
O que chama atenção é o contexto.
Não é simplesmente uma pessoa pedindo voto.
É uma pessoa que se tornou conhecida nacionalmente por sua proximidade com o entorno presidencial, que foi publicamente chamada de “pilantra” pelo próprio presidente e que agora volta a aparecer em conteúdo político defendendo exatamente esse presidente.
É difícil imaginar uma ironia política maior.
O presidente chamou. A política esqueceu?
Talvez a pergunta mais desconfortável seja justamente esta:
o que mudou?
Lula continua sustentando as acusações que fez?
Roberta continua sendo considerada uma pessoa sem credibilidade pelo presidente?
Ou aquela declaração ficou para trás porque a eleição chegou?
Porque, se Lula estava errado ao chamá-la de “pilantra”, deveria explicar.
Se estava certo, também deveria explicar por que pessoas associadas a ela continuam aparecendo próximas do ambiente político petista.
Não é uma questão de condenar ninguém.
É uma questão de coerência pública.
“Pilantra” e “Vorcaro feminino”
A comparação feita por Lula com Daniel Vorcaro também merece atenção.
O presidente afirmou que Roberta seria uma espécie de “Vorcaro feminino” e disse que ela teria enganado muitas pessoas.
A comparação é especialmente forte porque o nome de Vorcaro se tornou um dos principais elementos das controvérsias políticas e financeiras de 2026.
Portanto, quando o próprio presidente estabelece essa comparação, cria-se uma pergunta inevitável:
por que uma pessoa que o presidente descreveu dessa maneira volta a aparecer pedindo votos para o próprio presidente?
A resposta cabe aos envolvidos.
A velha política do “eu não conheço”
E aqui cabe uma pequena dose de ironia.
Na política brasileira, existe uma frase que parece possuir poderes sobrenaturais:
“Eu não conheço.”
Funciona para quase tudo.
Não conhece a pessoa.
Não conhece o empresário.
Não conhece o lobista.
Não conhece a reunião.
Não conhece o pagamento.
Não conhece a mensagem.
Não conhece o esquema.
Às vezes, a fotografia está lá.
Mas a memória desapareceu.
É claro que uma fotografia, sozinha, não prova relação ilícita.
Mas também é legítimo perguntar sobre relações que aparecem repetidamente em documentos, imagens, mensagens e eventos públicos.
A transparência exige explicações.
O eleitor merece respostas
O caso Roberta Luchsinger não deveria ser tratado apenas como mais uma briga eleitoral.
Há perguntas objetivas que precisam ser respondidas pelas autoridades competentes:
- Qual era exatamente a relação profissional de Roberta com as pessoas do entorno presidencial?
- Qual era sua relação com Lulinha?
- Qual foi a finalidade dos valores destinados ao evento do PT?
- Houve alguma contrapartida?
- O governo tinha conhecimento de sua atuação junto a órgãos públicos?
- As suspeitas investigadas pela Polícia Federal serão esclarecidas?
- E por que uma pessoa chamada publicamente de “pilantra” pelo presidente continua aparecendo politicamente associada ao seu campo?
São perguntas legítimas.
Não são condenações.
A ironia final
E talvez o resumo mais irônico dessa história seja simples.
A política brasileira conseguiu produzir uma situação em que:
Lula chama Roberta de “pilantra”.
Lula chama Roberta de “Vorcaro feminino”.
Roberta é apontada como próxima de Lulinha.
Surgem reportagens sobre doações e relações políticas.
Investigações colocam seu nome no centro de suspeitas.
E, no meio da campanha eleitoral:
ela volta a aparecer pedindo voto para Lula.
É difícil inventar uma ironia maior.
Mas existe uma lição importante nisso tudo.
O eleitor não deve acreditar cegamente nem em Lula, nem em Roberta, nem na oposição, nem em qualquer veículo de comunicação.
Deve perguntar.
Deve comparar.
Deve exigir documentos.
Deve separar investigação de condenação.
E deve cobrar coerência de quem ocupa o poder.
Porque, no final das contas, a pergunta que permanece é muito simples:
se o próprio Lula chamou essa pessoa de “pilantra”, por que ela continua aparecendo como apoiadora de Lula — e por que ninguém parece interessado em explicar essa contradição?
Na política brasileira, talvez a memória seja curta.
Mas o eleitor deveria fazer questão de lembrar.