Haddad atribui obras de São Paulo a Lula, PAC e BNDES e amplia confronto com Tarcísio na campanha

Haddad atribui obras de São Paulo a Lula, PAC e BNDES e amplia confronto com Tarcísio na campanha

Petista afirma que governo federal destinou R$ 13,7 bilhões ao Estado, cobra do governador adesão ao programa de renegociação da dívida e promete medidas para municípios pequenos, agronegócio e segurança

Fernando Haddad levou para a campanha pelo governo de São Paulo uma disputa que vai além das obras. Em sabatina realizada na terça-feira (18), o candidato do PT afirmou que parte dos grandes projetos apresentados pela atual administração estadual só avançou graças ao financiamento e à participação do governo federal, especialmente por meio do PAC e do BNDES.

A declaração recoloca no centro da eleição a disputa pela autoria política dos investimentos em infraestrutura e, simultaneamente, aprofunda o confronto entre Haddad e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição.

Segundo Haddad, São Paulo teria recebido R$ 13,7 bilhões em financiamentos durante o governo Lula, contra R$ 3 bilhões durante o governo Jair Bolsonaro. O número também foi apresentado publicamente pelo presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, em resposta a críticas feitas durante a campanha.

Haddad citou especificamente o Trem Intercidades e o projeto do túnel entre Santos e Guarujá como exemplos de empreendimentos que, em sua avaliação, tiveram participação decisiva do governo federal.

A narrativa escolhida pelo petista é direta: Tarcísio apresenta as obras como resultados de sua administração; Haddad procura mostrar que elas também dependem da União e do sistema federal de financiamento.

A disputa pela autoria das obras

O argumento de Haddad não significa que o governo estadual deixe de ter participação na execução dos projetos. A questão eleitoral está justamente em determinar quem pode reivindicar o crédito político pelas obras.

Durante o primeiro debate entre os candidatos, Haddad já havia usado argumento semelhante ao afirmar que Tarcísio recebeu financiamento do BNDES para obras anunciadas pelo governo estadual.

A disputa é particularmente importante porque infraestrutura é um dos principais elementos utilizados por Tarcísio para sustentar sua campanha pela reeleição.

O governador tem apresentado investimentos, concessões e parcerias privadas como marcas de sua gestão. Em declaração recente, Tarcísio afirmou que os investimentos estaduais teriam saltado de uma média anual entre R$ 8 bilhões e R$ 12 bilhões para aproximadamente R$ 30 bilhões a R$ 32 bilhões e atribuiu esse aumento a medidas como privatizações, concessões, reforma administrativa e transações tributárias.

Haddad tenta disputar justamente essa narrativa.

A batalha dos R$ 8 bilhões

Outro capítulo do embate envolve a renegociação da dívida de São Paulo com a União.

Haddad afirma que Tarcísio demorou a aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e que essa demora teria custado ao Estado cerca de R$ 8 bilhões.

O cálculo apresentado pelo petista parte da estimativa de que São Paulo deixaria de pagar aproximadamente R$ 1 bilhão por mês em juros após a renegociação. Como a adesão teria ocorrido oito meses depois, Haddad transformou o período em uma conta política de R$ 8 bilhões.

“São Paulo está deixando de pagar, de juros, R$ 1 bilhão por mês. R$ 12 bilhões por ano. E o Tarcísio, que atrasou a adesão ao programa, perdeu oito meses, ou seja, perdeu R$ 8 bilhões.”

A questão, entretanto, é objeto de disputa política.

Tarcísio afirma que o Propag nasceu de uma articulação dos governadores do Sul e do Sudeste, que levaram a proposta ao Senado e convenceram o Ministério da Fazenda da necessidade da renegociação. O governador também sustenta que São Paulo não tinha dificuldade para pagar sua dívida e que havia razões específicas para a demora na adesão.

A própria trajetória do programa mostra que não se trata de uma questão simples de atribuir exclusivamente a um governante. O Propag resultou de negociações entre governos estaduais, Congresso e governo federal; São Paulo aderiu posteriormente ao programa, depois de mudanças no cenário legislativo.

Por isso, a afirmação de que um único agente político “perdeu” R$ 8 bilhões deve ser compreendida como uma interpretação eleitoral de uma disputa fiscal mais complexa, e não como um fato isolado e incontestável.

Tarcísio responde com outra versão

A resposta do governador é que a renegociação também foi construída pelos próprios estados.

Tarcísio afirma que os governadores apresentaram a proposta ao Senado e pressionaram pela mudança nas condições da dívida. Para ele, a renegociação abriu espaço para investimentos, mas não pode ser tratada como uma concessão unilateral do governo Lula.

No debate da Band, Tarcísio também sustentou que a demora na adesão ocorreu porque determinadas condições do programa não atendiam aos interesses de São Paulo.

É nesse ponto que a campanha passa a funcionar como uma disputa de versões sobre quem financiou, quem negociou e quem executou.

Municípios pequenos entram no plano de Haddad

Haddad também apresentou propostas voltadas ao interior paulista.

O candidato afirmou que municípios pequenos estariam recebendo pouca atenção do governo estadual e prometeu criar uma rubrica específica no orçamento para cidades com menos de 25 mil habitantes.

A proposta busca levar a disputa eleitoral para além da capital e das grandes regiões metropolitanas.

Segundo Haddad, o governador teria uma relação excessivamente concentrada em cerimônias e compromissos institucionais com prefeitos.

“O governador só atende prefeito para tirar foto de solenidade.”

A crítica faz parte da tentativa de Haddad de construir uma imagem de candidato preocupado com os municípios de menor porte e com a distribuição regional de recursos.

Agronegócio: Haddad tenta aproximar-se do interior

O agronegócio também apareceu no discurso do candidato.

Haddad defendeu a recuperação dos institutos estaduais de pesquisa ligados ao setor agropecuário e a criação de mecanismos de seguro rural, especialmente para pequenos produtores.

A estratégia tem importância eleitoral. Embora o PT tenha uma relação historicamente mais forte com movimentos sociais e setores urbanos, Haddad procura ampliar seu discurso para o interior e para segmentos produtivos que tradicionalmente apresentam maior resistência ao partido.

A proposta de seguro rural também procura responder a um problema concreto da atividade agrícola: a exposição do produtor a eventos climáticos e perdas que podem comprometer toda uma safra.

O tarifaço e a disputa internacional

Haddad também incorporou ao discurso estadual os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos.

O candidato associou o chamado tarifaço à articulação política do grupo ligado à família Bolsonaro e a Tarcísio e afirmou que São Paulo teria sido prejudicado pelo conflito comercial.

A resposta defendida pelo petista é ampliar mercados.

Na visão apresentada por Haddad, o Brasil deveria demonstrar aos Estados Unidos que não depende exclusivamente do mercado americano e possui capacidade de diversificar suas exportações.

A ideia de diversificação comercial, contudo, é uma política de alcance nacional e depende de decisões do governo federal, negociações diplomáticas e condições do comércio internacional. Sua aplicação sobre a economia paulista depende ainda da estrutura exportadora de cada setor.

Haddad ataca as bets e responsabiliza o governo Bolsonaro

Outro trecho de forte conteúdo político foi dedicado às apostas esportivas e aos jogos online.

Haddad afirmou que, quando comandou o Ministério da Fazenda, percebeu a dimensão do mercado e passou a tratar o crescimento das apostas como uma espécie de epidemia.

O candidato declarou que, em determinado momento, considerou que o melhor caminho seria proibir as bets.

“Não tem arrecadação que justifique o estrago que isso faz para a sociedade.”

A crítica foi acompanhada de um ataque ao governo Bolsonaro, período em que Tarcísio integrava a administração federal.

Haddad afirmou que o governo anterior não teria enfrentado adequadamente o avanço das plataformas.

Ao mesmo tempo, reconheceu que uma proibição completa atualmente seria mais difícil devido ao tamanho adquirido pelo mercado e à existência de interesses econômicos ligados à publicidade das apostas.

Lobby, futebol e publicidade

Haddad afirmou ainda que existe pressão de empresas de comunicação e clubes esportivos interessados na manutenção das receitas provenientes da publicidade das bets.

Segundo ele, meios de comunicação argumentariam que poderiam enfrentar dificuldades financeiras sem esse dinheiro, enquanto clubes de futebol também pressionariam contra uma eventual proibição.

O petista, entretanto, apresentou sua atuação no Ministério da Fazenda como uma tentativa de criar algum controle sobre o setor.

Entre as medidas citadas está a tributação das apostas e a restrição de acesso às plataformas para beneficiários de programas sociais.

Novo ataque aos aliados de Tarcísio

A fala sobre as bets também foi utilizada por Haddad para atingir a base política do governador.

O candidato afirmou que nunca teria recebido parlamentares do PT para tratar de interesses relacionados às apostas, mas disse ter recebido parlamentares de partidos que integram a base de Tarcísio e que seriam favoráveis ao setor.

A acusação, entretanto, é uma afirmação do próprio candidato e deve ser diferenciada de eventual comprovação documental de cada episódio citado.

A eleição como disputa de narrativas

A entrevista de Haddad expôs uma estratégia eleitoral ampla.

O petista procura apresentar a eleição de 2026 como uma escolha sobre quem deve comandar a relação de São Paulo com Brasília, quem será responsável pelos grandes investimentos e quem terá condições de administrar as contas públicas do estado.

Ao mesmo tempo, tenta desconstruir a imagem de Tarcísio como gestor independente do governo federal.

A resposta do governador é outra: apresentar sua administração como responsável pela ampliação dos investimentos e defender que a capacidade de investimento do Estado também decorre de reformas, concessões e privatizações realizadas durante seu mandato.

O resultado é uma disputa política na qual os dois lados reivindicam parte do mérito pelas mesmas estruturas: o governo federal enfatiza financiamento e cooperação; o governo estadual destaca execução, planejamento e investimentos.

O ponto central do embate

A discussão sobre PAC, BNDES e Propag não é meramente contábil. Ela revela uma questão essencial da eleição paulista: até onde vai o crédito do governo estadual e onde começa a participação da União?

Projetos públicos de grande porte normalmente envolvem uma cadeia de responsabilidades — financiamento, licitação, concessão, execução, fiscalização e operação. Por isso, reduzir uma obra a um único padrinho político pode simplificar uma realidade administrativa muito mais complexa.

A checagem de declarações feitas no primeiro debate entre Haddad e Tarcísio já identificou afirmações verdadeiras, parcialmente verdadeiras e imprecisas dos dois lados em temas como dívida estadual, educação, economia e segurança.

Assim, a campanha tende a transformar cada obra, cada financiamento e cada número fiscal em uma batalha pelo direito de dizer “fui eu quem fez”.

E Haddad, ao colocar PAC, BNDES e a renegociação da dívida no centro de seu discurso, deixa claro que pretende disputar justamente esse terreno: o de provar ao eleitor paulista que o governo estadual não trabalha sozinho e que parte importante daquilo que Tarcísio apresenta como realização de sua gestão também dependeu de decisões tomadas em Brasília.

Nota editorial: este texto é uma reconstrução jornalística das declarações e das informações disponíveis nas fontes consultadas. Não constitui comparação, avaliação, recomendação ou escolha entre candidatos. As acusações e números atribuídos aos políticos são apresentados como alegações e devem ser distinguidos de fatos independentemente comprovados.

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