
Na ONU, Lula transforma Trump em alvo e insiste em críticas ao presidente dos EUA
Presidente brasileiro afirma que Donald Trump não pode governar outros países, mas leva à agenda internacional uma sequência de críticas ao governo americano
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a direcionar críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, justamente durante sua passagem por Nova York para a abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas.
Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, Lula afirmou que Trump foi eleito para governar os Estados Unidos, mas não teria o direito de governar outros países. O presidente brasileiro também criticou a maneira de governar do norte-americano e afirmou que não concorda com uma política baseada na ideia de que o país mais poderoso pode impor sua vontade aos demais.
A declaração ocorreu um dia antes de Lula subir à tribuna da ONU. Na entrevista, o presidente brasileiro voltou a utilizar a imagem de Trump como uma espécie de “imperador” e afirmou que deseja uma relação de respeito entre Brasil e Estados Unidos.
“Ele foi eleito para ser o presidente dos EUA. Ele tem o direito de governar os EUA, mas ele não tem o direito de governar outros países.”
A fala foi acompanhada de outra declaração na qual Lula afirmou que não pretende desafiar os Estados Unidos, mas quer negociar e ser respeitado.
Críticas a Trump antes do discurso na ONU
A questão ganhou ainda mais destaque porque Lula estava em Nova York justamente para participar do principal encontro diplomático multilateral do ano.
Nesta terça-feira (22), Lula abriu o debate geral da Assembleia Geral da ONU. Tradicionalmente, o presidente brasileiro é o primeiro chefe de Estado a discursar, enquanto o presidente americano fala logo depois.
No discurso, Lula voltou ao tema da soberania e da não interferência estrangeira. O presidente afirmou que o Brasil não cabe no “quintal de ninguém” e criticou o que classificou como ingerência externa em processos eleitorais.
A sequência chama atenção: enquanto Lula afirma defender uma relação de respeito entre os países, suas declarações públicas em Nova York foram marcadas por críticas contundentes às decisões e à política externa de Trump.
Tarifaço também entrou no conflito
Outro ponto central da disputa entre os governos brasileiro e americano são as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Lula afirmou que não deseja uma guerra comercial com Washington e defendeu a negociação. Ao mesmo tempo, disse que o Brasil poderá utilizar a Lei de Reciprocidade caso as conversas não produzam resultados.
O presidente brasileiro também classificou as justificativas para o tarifaço como equivocadas e criticou o unilateralismo defendido por Trump.
Para o governo brasileiro, a questão envolve soberania, comércio e defesa dos interesses nacionais. Para o governo americano, as medidas tarifárias fazem parte de sua política econômica e comercial.
A crítica que merece ser feita
É legítimo que Lula defenda a soberania brasileira e questione decisões tomadas pelo governo dos Estados Unidos. Da mesma forma, Trump tem o direito de defender os interesses americanos segundo sua própria política externa.
O ponto que merece debate é até onde deve ir a exposição pública desse conflito diplomático.
Ao viajar para a ONU, Lula poderia concentrar sua agenda internacional nos interesses brasileiros: comércio, redução das tarifas, investimentos, segurança, acordos diplomáticos e ampliação dos mercados para produtos nacionais.
Em vez disso, Trump passou a ocupar espaço significativo nas declarações públicas do presidente brasileiro.
A crítica editorial, portanto, não está em Lula defender a soberania do Brasil — princípio que pode ser sustentado por qualquer governo —, mas na opção de transformar repetidamente o presidente americano em personagem central de seus discursos e entrevistas internacionais.
Lula também falou sobre as eleições brasileiras
Durante a entrevista, Lula relacionou a questão da soberania à eleição brasileira de 2026 e afirmou que não quer interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral.
O presidente disse ainda que teria recebido informações de que Trump não pretende interferir diretamente na eleição brasileira e classificou essa postura como positiva. Ao mesmo tempo, afirmou haver “alguns indícios” de interferência por meio de inteligência artificial, sem detalhar os casos mencionados.
O assunto ganhou dimensão adicional porque Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, mantém proximidade política com Trump e sua família.
Manifestações realizadas em Nova York antes da abertura da Assembleia Geral também exploraram justamente essa relação, com imagens que representavam Flávio entregando a faixa presidencial brasileira a Trump. Os organizadores afirmaram que pretendiam chamar atenção para o debate sobre soberania e eventual influência estrangeira na política brasileira.
Trump também virou personagem da campanha brasileira
A relação entre Trump e a política brasileira passou a ocupar espaço no debate eleitoral de 2026.
De um lado, o governo Lula afirma que nenhuma potência estrangeira deve interferir na decisão dos eleitores brasileiros. De outro, a aproximação entre Trump e integrantes da família Bolsonaro é utilizada no debate político nacional para discutir relações internacionais, soberania e possíveis influências externas.
Nesse cenário, a ONU tornou-se também palco de uma disputa narrativa que ultrapassa a diplomacia tradicional.
Lula e Trump frente a frente
Apesar das divergências, Lula e Trump estavam programados para falar no mesmo palco nesta terça-feira.
O presidente brasileiro fez o discurso de abertura, seguido pelo presidente americano, conforme a tradição da Assembleia Geral.
O encontro ocorre em um momento de tensão entre Brasília e Washington, envolvendo tarifas comerciais, soberania, eleições brasileiras e diferentes visões sobre a política internacional.
Lula afirma que quer respeito e negociação. Trump, por sua vez, conduz uma política externa baseada na defesa dos interesses americanos e em maior pressão comercial sobre parceiros.
Partes envolvidas
Luiz Inácio Lula da Silva — presidente do Brasil e responsável pelas declarações sobre Trump e a soberania brasileira.
Donald Trump — presidente dos Estados Unidos, alvo das críticas de Lula e responsável pela política comercial e externa americana questionada pelo governo brasileiro.
Christiane Amanpour — jornalista da CNN Internacional que entrevistou Lula em Nova York.
António Guterres — secretário-geral da Organização das Nações Unidas, que recebeu Lula durante a programação da Assembleia Geral.
Flávio Bolsonaro — senador e candidato à Presidência pelo PL, cuja relação política com Trump também entrou no debate sobre eventual influência estrangeira nas eleições brasileiras.
Governo brasileiro — defende a soberania nacional, a negociação comercial e a não interferência externa nas eleições.
Governo dos Estados Unidos — conduz as políticas comerciais e diplomáticas que estão no centro das divergências com Brasília.
O que permanece em aberto
O principal ponto ainda em aberto é se as negociações entre Brasil e Estados Unidos conseguirão reduzir as divergências comerciais e diplomáticas.
Também permanece em debate a extensão que a relação entre Trump e integrantes da família Bolsonaro poderá ter sobre a política brasileira, bem como as acusações de eventual interferência estrangeira nas eleições — tema sobre o qual Lula mencionou indícios, mas não apresentou publicamente, na entrevista citada, detalhes suficientes para comprovar uma interferência específica.
Enquanto isso, a tensão diplomática continua.
Lula afirma que Trump não deve impor sua vontade a outros países. Trump, por sua vez, segue defendendo a política externa e comercial de seu governo.
E o Brasil, no meio desse embate, terá de equilibrar soberania, diplomacia, comércio exterior e interesse nacional sem transformar divergências com Washington em um conflito permanente.
A questão central para o brasileiro deveria ser justamente essa: como defender os interesses do Brasil e ampliar oportunidades para o país sem transformar a diplomacia internacional em uma sucessão de confrontos políticos?