
Porchat mira Vorcaro, Nikolas e Flávio Bolsonaro, mas deixa outras relações do Master fora do foco
Vídeo de Fábio Porchat explora conexões entre Daniel Vorcaro, Lagoinha, Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro, mas a narrativa também levanta uma pergunta incômoda: por que as relações comerciais do Master com nomes da televisão receberam tratamento diferente?
O ator e humorista Fábio Porchat apresentou um vídeo da série “Revelando”, produzido pelo podcast “Calma Urgente”, dedicado às relações entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e políticos ligados à direita, especialmente Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro.
A produção ganhou enorme repercussão e chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube em menos de 24 horas, ultrapassando 1 milhão de visualizações, segundo informações divulgadas nesta semana.
O problema não está em investigar as relações de Vorcaro com políticos, empresários, religiosos ou qualquer outro personagem público. Pelo contrário: se existem documentos, mensagens, contratos e movimentações financeiras relevantes, tudo deve ser investigado.
A questão jornalística que permanece é outra: o mesmo rigor precisa ser aplicado a todos os lados e a todas as relações comerciais que aparecem na história do Banco Master.
E é justamente nesse ponto que o vídeo de Porchat deixa espaço para questionamentos.
Vorcaro, Lagoinha e Fabiano Zettel
O ponto de partida da produção é a ligação entre Daniel Vorcaro, seu cunhado Fabiano Zettel e a Igreja Batista da Lagoinha.
Zettel, casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel, tinha ligação com a instituição religiosa e atuava como pastor. Segundo a narrativa apresentada por Porchat, essa conexão teria ajudado a aproximar Vorcaro de diferentes personagens políticos e institucionais.
O vídeo também destaca o pastor André Valadão, liderança da Lagoinha, e procura mostrar como relações familiares, religiosas, empresariais e políticas se cruzaram ao redor do grupo Master.
Entre os dados apresentados está a movimentação da conta da unidade Lagoinha Belvedere. Segundo informações baseadas em dados do Coaf, a conta movimentou R$ 57,1 milhões entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, sendo R$ 19,2 milhões transferidos por Fabiano Zettel em 26 operações. A igreja afirmou não ter conhecimento prévio da dimensão dessas movimentações e informou que Zettel foi afastado depois que as denúncias vieram a público.
Esses números precisam ser investigados. Mas movimentação financeira, por si só, não é prova de crime. É necessário identificar origem, destino, finalidade e eventual contrapartida de cada operação.
Nikolas Ferreira entra na narrativa
Nikolas Ferreira aparece no vídeo principalmente por causa de sua relação circunstancial com Vorcaro.
O episódio recupera a utilização, durante a campanha eleitoral de 2022, de um avião pertencente ao então empresário ligado ao Banco Master. Nikolas e o pastor Guilherme Batista, ligado à Lagoinha, utilizaram a aeronave durante deslocamentos de campanha em apoio a Jair Bolsonaro.
Segundo informações publicadas sobre o caso, Nikolas afirmou que não sabia que a aeronave pertencia a Vorcaro.
A produção também aborda diálogos entre Vorcaro e Nikolas.
Novamente, é necessário separar as coisas: ter viajado em uma aeronave ou ter conversado com um empresário não constitui, sozinho, prova de participação em qualquer irregularidade.
É legítimo perguntar quem pagou, qual era a finalidade e quais eram as circunstâncias. Mas a conclusão precisa vir dos documentos e das investigações.
Flávio Bolsonaro e o filme “Dark Horse”
O segundo grande nome político explorado pelo vídeo é Flávio Bolsonaro.
Nesse caso, a relação com Vorcaro ganhou dimensão maior porque o senador participou das negociações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal elaborou uma cronologia de contatos entre Flávio e Vorcaro a partir de mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro e de informações financeiras. Segundo relatório divulgado após a retirada do sigilo do inquérito, houve conversas sobre recursos para a produção cinematográfica, inclusive cobranças relacionadas a repasses.
Esse é um fato que merece investigação.
Mas também aqui é necessário estabelecer uma distinção: uma negociação privada para financiar um filme não se transforma automaticamente em crime. É preciso examinar contratos, origem dos recursos, pagamentos efetivamente realizados e eventual incompatibilidade entre as operações e a legislação.
A narrativa de Porchat
O vídeo apresentado por Porchat constrói uma linha que conecta dinheiro, religião e política.
Em determinado momento, a produção sustenta que a Lagoinha teria funcionado como uma espécie de ponte entre Vorcaro e diferentes personagens.
Essa é uma interpretação da produção.
Os fatos que servem de base para essa narrativa — relações familiares, vínculos religiosos, mensagens, viagens, transferências e contatos — podem ser investigados e documentados. Já afirmar que determinada relação tinha finalidade ilícita exige provas específicas.
Essa distinção é essencial para qualquer reportagem sobre um caso tão complexo.
Mas existe uma pergunta que o vídeo deixa de lado
Se a proposta é mapear toda a rede de relações do Banco Master, por que a produção não dedica o mesmo espaço às relações comerciais mantidas pelo grupo com grandes nomes da televisão?
Aqui aparece Luciano Huck.

O apresentador foi garoto-propaganda do Will Bank, instituição digital que havia sido adquirida pelo Banco Master em 2024. Além disso, o Will Bank patrocinou o quadro “Willimpíadas”, exibido no Domingão com Huck, na Globo.
Não se trata de uma relação inventada ou de uma mera associação encontrada em rede social.
É uma relação comercial documentada.
E existe mais.
Em outubro de 2024, segundo mensagens atribuídas a Vorcaro e divulgadas pela imprensa, o banqueiro mencionou que sairia do banco para jantar com Luciano Huck. A própria reportagem que revelou as mensagens também registra que Huck tinha vínculos comerciais com o Will Bank.
Isso não significa que Luciano Huck tenha cometido qualquer irregularidade.
Não há base para afirmar isso.
Mas, se uma reportagem decide investigar relações de Vorcaro com políticos, religiosos e personalidades públicas, é perfeitamente legítimo perguntar por que uma relação comercial tão visível com um dos maiores programas de televisão do país não recebe a mesma atenção narrativa.
O “Willimpíadas” no Domingão
O caso fica ainda mais interessante quando se observa a dimensão da campanha.
O Will Bank patrocinou o quadro “Willimpíadas”, no Domingão com Huck, com prêmio anunciado de R$ 1 milhão em barras de ouro. A Folha registrou que o quadro fazia parte da estratégia comercial do banco e que a instituição estava sendo avaliada para venda naquele período.
Outras reportagens também registraram que o Will Bank utilizou nomes conhecidos como Luciano Huck, Vinícius Júnior e João Gomes em campanhas publicitárias.
Portanto, quando o debate é sobre a presença do Banco Master no mundo político e midiático, não existe apenas uma porta de entrada.
Existiam também publicidade, televisão, entretenimento e marketing.
E isso merece ser contado.
O número de R$ 102 milhões precisa ser colocado no lugar correto
Há ainda uma informação que circula em torno do caso e que precisa ser tratada com precisão.
O valor de R$ 102 milhões aparece em reportagem sobre pagamentos realizados pelo Banco Master a uma empresa investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro e conexões com o mercado de combustíveis.
Segundo as informações disponíveis, os repasses ocorreram entre 2023 e 2025 e foram classificados como prestação de serviços.
Esse valor não deve ser apresentado como se fosse R$ 102 milhões pagos a Luciano Huck ou à Globo em publicidade.
São assuntos diferentes.
A relação de Huck com o Will Bank é documentada, mas o número de R$ 102 milhões pertence a outra operação investigada.
Essa diferença é fundamental para não transformar uma crítica legítima em uma informação incorreta.
E os valores relacionados à publicidade?
Há, entretanto, outro número que merece atenção.
Uma reportagem publicada em maio citou declaração de Flávio Bolsonaro segundo a qual empresas associadas a Vorcaro teriam destinado aproximadamente R$ 160 milhões ao programa “Domingão com Huck” entre 2025 e 2026. A informação foi apresentada como uma afirmação do próprio senador, e a reportagem registrou que a Globo e a assessoria de Luciano Huck foram procuradas e não haviam se manifestado até aquela publicação.
Esse número, portanto, deve ser tratado como alegação atribuída a Flávio Bolsonaro, e não como fato definitivamente comprovado.
A forma correta de esclarecer a questão seria apresentar contratos, notas fiscais, valores pagos, empresas contratantes e serviços efetivamente prestados.
É exatamente aí que uma investigação jornalística pode contribuir.
A ironia do episódio
Há uma ironia evidente na discussão.
Porchat gravou uma produção para revelar uma suposta teia de relações entre dinheiro, poder, religião e política, com atenção especial a personagens associados à direita.
Mas a própria existência de relações comerciais do grupo Master com o entretenimento e a televisão mostra que a rede de contatos não cabe confortavelmente em uma divisão entre “direita” de um lado e “Banco Master” do outro.
O dinheiro de uma instituição financeira não escolhe partido quando compra publicidade.
Ele pode aparecer em campanhas com políticos, empresários, influenciadores, atletas, cantores e apresentadores.
E, se a pergunta é quem se relacionou comercialmente com o Master, a pergunta precisa ser feita para todos.
Não basta investigar apenas quem pensa diferente
Esse é o ponto central da crítica.
Se Nikolas Ferreira utilizou uma aeronave ligada a Vorcaro, deve explicar as circunstâncias.
Se Flávio Bolsonaro negociou recursos para um filme com Vorcaro, deve explicar os contratos e os pagamentos.
Se Fabiano Zettel transferiu milhões para uma unidade da Lagoinha, é preciso esclarecer a finalidade das operações.
Se André Valadão teve relações com personagens do caso, elas também podem ser documentadas.
Mas se Luciano Huck foi garoto-propaganda de uma empresa controlada pelo grupo Master e o programa apresentado por ele recebeu patrocínio do Will Bank, essa relação também merece ser apresentada.
Não porque isso prove qualquer irregularidade de Huck.
Mas porque o mesmo padrão de transparência precisa valer para todos.
O Banco Master chegou muito além da política
O caso Master não envolve apenas políticos.
A instituição construiu uma ampla estratégia comercial, utilizando publicidade, entretenimento e celebridades para aproximar sua marca de milhões de brasileiros.
O Will Bank, comprado pelo Master em 2024, tinha milhões de clientes e investiu em campanhas com figuras públicas. O próprio UOL registrou que Luciano Huck esteve entre os garotos-propaganda do banco.
Isso demonstra que o universo do Master era muito maior do que as relações com políticos de direita.
Por isso, uma narrativa que pretende explicar a influência do banco precisa olhar para todo o ecossistema comercial.
A investigação não pode escolher previamente os personagens
O caso Master precisa ser investigado sem proteção a ninguém.
Nem políticos de direita, nem políticos de esquerda, nem ministros, nem empresários, nem pastores, nem jornalistas, nem artistas, nem apresentadores.
Se houve contrato legítimo, que os documentos mostrem.
Se houve publicidade legítima, que os contratos sejam conhecidos.
Se houve prestação de serviço, que seja demonstrada.
Se houve irregularidade, que os responsáveis sejam responsabilizados.
E se não houve crime, ninguém deve ser transformado em culpado apenas por aparecer em uma fotografia, mensagem, viagem ou contrato.
O vídeo de Porchat merece ser questionado justamente por sua seleção
A produção de Fábio Porchat colocou em evidência documentos e relações que merecem atenção pública. O problema começa quando o espectador pode ficar com a impressão de que a rede de relações do Banco Master se resume aos personagens escolhidos pelo roteiro.
Não se resume.
Existe uma dimensão empresarial.
Existe uma dimensão financeira.
Existe uma dimensão religiosa.
Existe uma dimensão política.
E existe também uma dimensão midiática e publicitária.
Luciano Huck e o Will Bank fazem parte dessa última dimensão documentada.
O fato de essa relação não receber no vídeo o mesmo destaque dado a Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro é uma escolha editorial. Mas é justamente uma escolha que pode ser questionada.
A pergunta que fica
Se o objetivo é revelar “as relações do Banco Master”, por que não mostrar também as relações comerciais do banco com a televisão?
Se o objetivo é explicar como Vorcaro construiu influência, por que deixar em segundo plano o marketing milionário de suas empresas?
E se o objetivo é investigar todos os caminhos percorridos pelo dinheiro do Master, por que não apresentar ao público, de forma documental, todos os contratos de publicidade, inclusive os relacionados ao Will Bank e ao programa apresentado por Luciano Huck?
Essas perguntas não acusam ninguém.
Elas apenas exigem o mesmo princípio que deveria orientar qualquer investigação jornalística: se existe uma relação documentada, ela merece ser apresentada, independentemente de quem esteja envolvido.
No caso Master, a história não termina em Nikolas, Flávio Bolsonaro, Vorcaro ou Lagoinha.
E, quando a narrativa pretende explicar a rede inteira, não dá para investigar apenas a parte que cabe confortavelmente no roteiro.